Como ser jornalista num cursinho ligeiro de duas horas

Meu velho e saudoso pai, Ubirajara dos Santos Sampaio, deve estar se revirando no túmulo. Homem determinado, agricultor, formou seis filhos plantando trigo e milho em uma pequena área de 120 hectares, criando porcos e galinhas. Como filho mais velho, lembro, ainda do seu semblante iluminado, quando passei no vestibular para a faculdade de jornalismo.

O ônibus me deixou a uma légua da fazendinha e quando menos espero vejo o Velho numa Chevrolet mod. 1948, entrando na esquina  da estrada velha do Faxinal. Não o cumprimentei. Apenas informei: “Passei, Pai”. E o seu sorriso e o seu abraço foi a maior recompensa que tive em toda a minha vida.

Durante 4 anos, eu e meu Pai, passamos por apertos para a obtenção do diploma, apesar do salário que eu ganhava, nem sempre pontual, já na redação da Zero Hora, a partir do 2º ano da faculdade.

Ainda na faculdade, sobreveio a regulamentação da profissão e como ainda não era formado, ganhei um registro provisório no Ministério do Trabalho, de número 216/RS. Anos depois, atualizei o registro com o diploma e ganhei o registro definitivo no Ministério.

Pois bem: um deputado federal desempregado conseguiu, num cursinho realizado por um tal Sindicato de Salvador, neste final de semana em Luís Eduardo Magalhães, um registro no Ministério do Trabalho. Fez em duas horas o que eu levei 16 anos para fazer, a maior parte desse tempo sustentado pela generosidade do seu Ubirajara.

O Deputado dispensou os 16 anos de estudo, incluindo 4 de faculdade, e mais 45 anos de exercício da profissão e resolveu ser jornalista porque perdeu as sinecuras do Legislativo.

Que facilidade! Ou melhor: que barbaridade!

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

Uma consideração sobre “Como ser jornalista num cursinho ligeiro de duas horas”

  1. Lembra do que postei no Face, Sampaio? A questão é acima do “saber fazer”. Ela é de responsabilidade social. É preciso denunciar e combater isso. Só quem sabe o que é passar por quatro anos estudando, enfrentando bibliotecas precárias, instalações nem sempre favoráveis, ausência de professores (e outros nem tão bem preparados), além da proibição do estágio, baixos salários, exploração na carga horária e riscos durante uma reportagem, sabe o que é ser jornalista.

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