O verdadeiro “causo” da goiabeira

Os gaúchos contam, há muito tempo, um “causo” engraçado, que ilustra bem que a virtude e os bons sentimentos podem ser sempre relativizados.

Diz o narrador que um gauchão bem apessoado chegou a um baile típico, o fandango como chamamos, numa cidade que não conhecia. Durante um bom período da noite ficou observando a festa, na esperança de encontrar uma moça solteira que fosse do seu agrado.

E parece que estava com sorte. A moça mais linda não foi convidada para dançar a noite inteira. Apenas observava com graça a festa.

Lá pelas tantas, o gauchão tomou coragem e se aproximou da mesa da prenda mais linda. E fazendo uma mesura, convidou-a para dançar.

A moça, educadamente, rejeitou o pedido, mas convidou-o a sentar a sua mesa. E também com muita educação explicou que estava impedida de dançar, pois era amputada das duas pernas, o que o traje típico não deixava entrever.

O gauchão deu-se para os diabos. Ficou envergonhado com a sua falta de tato, mas embevecido pela bela estampa da prenda, permaneceu na mesa, conversando de maneira animada para amenizar os danos da sua gafe.

No fim do baile, perguntou à moça se poderia leva-la para casa. A moça aceitou a carona e enlaçada pelos braços fortes do gauchão acabou no seu carro, onde as carícias ficaram mais ousadas. Chegando em casa, o gauchão a colocou na forquilha de uma goiabeira, onde apaixonados, acabaram transando.

Ao final do ato, o gaúcho a tomou nos braços e a levou para dentro do seu lar, onde a esperavam ansiosos o Pai e a Mãe.

Recolhido ao pequeno hotel onde se hospedava, a consciência lhe doeu. Como poderia ter se aproveitado de uma deficiente? Seu ato, no seu entendimento, tinha sido de uma baixeza moral sem precedentes. Ao acordar no outro dia, um domingo ensolarado, só pensava em remediar seu erro.

Foi até a casa da moça e pediu um particular com o Pai, narrou-lhe a história e, como reparação do ato danoso, pediu a mão da moça, em casamento, e que fosse com trâmite rápido para aplacar a sua consciência.

O Pai da moça aceitou seu pedido, ressaltando seus princípios de hombridade. E para minimizar sua culpa, asseverou:

-Não se preocupe, meu filho. Você é um rapaz bem-intencionado. Bem melhor que os outros que comem e largam minha filha na goiabeira. Nesses tempos invernosos é um verdadeiro sacrifício para mim ter que ir busca-la no colo, no meio do barro, em cada sábado de fandango.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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