
Newsletter semanal da Agência Pública, por Marina Amaral, co-diretora
Aproveitando a onda de autocrítica da imprensa – provocada pela Vaza Jato -, seria bom rever determinadas coberturas, em especial a da reforma da previdência e a das universidades federais, mais recente.
A primeira, que surpreendeu mais pelos bastidores políticos do que pelo resultado, sempre foi apresentada pelos grandes veículos como intrinsecamente positiva, e peça fundamental para o país sair do desemprego via crescimento econômico – o que está ainda por ser provado.
Não vamos esquecer que a terceirização e a reforma trabalhista prometeram cumprir a mesma missão. E falharam, eternizando a precarização do emprego (e são exatamente os que estão nessa condição os que mais sofrerão com a reforma da previdência).
Outro consenso na mídia, que contamina a informação, é em relação à privatização – sempre bem-vinda, seja do que for.
A reforma das universidades federais, de autoria de um ministro que já pregou sua extinção, rendeu manchetes acríticas, a maior parte delas destacando a economia de que isso representaria para o Estado.
Os reitores – críticos às propostas – pouco foram ouvidos e os bons resultados das universidades federais, ignorados (para ficar em um exemplo: três das cinco melhores universidades brasileiras são federais).
Uma das reportagens, por exemplo, destacava que os recursos das federais cresceram 123% em 18 anos – dado que não faz o menor sentido, uma vez que as universidades hoje tem 144% mais alunos do que tinham então, como informa, no texto, a mesma reportagem.
O dado quantitativo também não revela outro fator essencial: a maior parte das universidades federais criadas nesse período (18) foram fora das capitais, o que trouxe oportunidade para os que vivem no interior e renovação à cultura acadêmica, que se beneficia com a diversidade de docentes e futuros mestres.
Setenta por cento dos estudantes das federais são de baixa renda, invertendo a pirâmide que prevalece no ensino superior.
Economizar recursos públicos não é sempre positivo como parece crer a mídia em geral. O importante é como esses recursos são direcionados, a quem beneficiam, que desenho de país projetam.
A desigualdade, mais do que a pobreza, é o maior entrave ao nosso desenvolvimento, concordam os economistas – do FMI ao Banco Mundial. E todos apontam a educação como a saída para o desemprego que o governo diz combater.
Não há porque saudar logo de cara projetos criados em gabinetes governamentais sem a consulta à comunidade universitária – dos reitores aos estudantes.
A experiência com a administração feita por OSCs na área da saúde não recomenda a aventura proposta para a área da educação. Quanto à aplicação de uma “lei Rouanet” das universidades, o que continuaria representando um gasto público via renúncia fiscal, certamente traria desigualdade entre cursos e localidades beneficiadas. Isso, em um primeiro olhar.
Há outro motivo para desconfiar da proposta. O ministro Weintraub declarou-se inimigo das federais desde sua ascensão ao cargo – para eles redutos de “marxismo cultural” e “balbúrdia”.
Se a imprensa quer contribuir com a qualificação do debate democrático, há de ser crítica e investigativa antes de se curvar automaticamente diante de qualquer oferenda ao deus Mercado.

E ainda esqueceram de informar que a inflação pelo IPCA no período de 2000a 2018 foi de 220,61%, ou seja, os tais recursos em valores reais são menores que o de 2000. E que o número de artigos publicados são cinco vezes maio. Reportagem maldosa e claramente tendenciosamente.