Por Marina Amaral, codiretora da Agência Pública
Desde a deposição do presidente Evo Morales pelas Forças Armadas, os grandes veículos de comunicação, mesmo aqueles que qualificam o presidente da Venezuela de ditador sem muita cerimônia, ainda não tiveram a coragem de chamar claramente de golpe o que acontece na Bolívia. A versão predominante sobre a “crise na Bolívia” – uma dessas palavrinhas ônibus em que cabe tudo – é de que “encurralado pelo levante popular” e “abandonado pelo Exército e pela polícia”, Morales escolheu renunciar.
Ora, não é bem assim. O comandante das Forças Armadas bolivianas, Williams Kalima, disse em coletiva de imprensa no dia 10 de novembro: “sugerimos ao presidente do Estado que renuncie a seu mandato presidencial permitindo a pacificação e a manutenção da estabilidade da Bolívia”. Isso depois que a prefeita de Vinto, Patrícia Arce, foi barbarizada, casas de políticos do MAS foram queimadas, e comboios de agroboys, munidos de tacos de beisebol e correntes, agrediram indígenas, principalmente mulheres, enquanto o Exército e a polícia cruzavam ostensivamente os braços.
O que se seguiu depois da partida de Evo para o exílio no México apenas clareou os fatos. Expulsos os líderes do Congresso, que eram do MAS – partido maciçamente eleito para o Parlamento -, a segunda vice-presidente do Senado, de Bíblia na mão, se autodeclarou presidente em um Congresso sem quórum. Os protestos daqueles que não reconheciam sua legitimidade no cargo foram reprimidos brutalmente pelas forças oficiais, beneficiadas por um decreto do governo interino que exime de responsabilidade penal os militares e policiais que “cometam excessos”, sob a alegação de legítima defesa ou em “situação de necessidade”.
O decreto, condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, foi publicado no dia 15 de novembro, mesmo dia em que 9 pessoas foram mortas – não durante “confrontos”, como qualifica a mídia, mas durante uma marcha pacífica em Cochabamba em que foram atacados pelo Exército – exames preliminares comprovam que elas foram assassinadas por armas pesadas. De lá para cá pelo menos mais 22 pessoas foram mortas, incluindo oito operários de uma refinaria de La Paz, somando 32 vítimas de acordo com a Defensoria Pública. Quase todas indígenas e contrárias ao governo golpista.
Esses são os fatos. Julgue, você, leitor, se isso é ou não um golpe. Certo é que as repercussões no Brasil, onde o governo e elite se identificam com os golpistas e dedicam aos nossos indígenas e negros o mesmo ódio racista que ocorre hoje na Bolívia, um país com mais de 60% de indígenas, serão as piores possíveis. Arrisco a dizer que já começaram, com ruralistas enrolados em bandeiras verde-amarela invadindo debates de ribeirinhos e indígenas sobre a Amazônia. E, por aqui, o golpe já aconteceu.
Autor: jornaloexpresso
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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