Polícia baiana localiza miliciano carioca envolvido em morte de Marielle

Equipes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Companhia Independente de Policiamento Especializado (Cipe) Litoral Norte, do Grupamento Aéreo (Graer) e da Superintendência de Inteligência (SI) da Secretaria da Segurança Pública localizaram, na manhã deste domingo (9), o foragido da Justiça do Rio de Janeiro, Adriano Magalhães da Nóbrega.

Investigado por envolvimento na morte de Marielle Franco, em 2018, o ex-policial militar carioca estava escondido na cidade baiana de Esplanada, a 166 km de Salvador, no sentido Norte do Estado.

O criminoso passou a ser monitorado por equipes da SI da SSP da Bahia, após informações de que ele teria buscado esconderijo na Bahia. Nas primeiras horas da manhã ele foi localizado em um imóvel, na zona rural de Esplanada.

No momento do cumprimento do mandado de prisão ele resistiu com disparos de arma de fogo e terminou ferido. Ele chegou a ser socorrido para um hospital da região, mas não resistiu aos ferimentos. Com o foragido foi encontrada uma pistola austríaca calibre 9mm. Vasculhando outros cantos da casa os policiais encontraram mais três armas, duas delas longas mas de baixa potência.

“Procuramos sempre apoiar as polícias dos outros estados e, desta vez, priorizamos o caso por ser de relevância nacional. Buscamos efetuar a prisão, mas o procurado preferiu reagir atirando”, comentou o secretário da Segurança Pública da Bahia, Maurício Teles Barbosa.

Armas: Adriano não estava preparado para resistir. Uma flaubert 22, uma winchester 38, um revolver 38 e uma pistola Glock.

Queima de arquivo

Para o advogado de Adriano Nóbrega, seu cliente pode ter morrido como ‘queima de arquivo’

Ex-PM morto em Salvador era ligado ao antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj e havia sido deixado de fora da lista dos mais procurados pelo ministro Sergio Moro, mesmo sendo foragido há mais de um ano e com alerta vermelho da Polícia Internacional.

O advogado Paulo Emílio Catta Preta, responsável pela defesa do ex-capitão do Bope Adriano Nóbrega, morto na manhã deste domingo (9) após trocar tiros com agentes policiais na Bahia, afirmou que recebeu uma ligação dele na terça-feira. Na conversa, diz ter tentado fazer com que seu cliente se entregasse, mas Nóbrega não concordou , temendo ser assassinado caso isso acontecesse.

“Ele me disse assim: ‘doutor, ninguém está aqui para me prender. Eles querem me matar. Se me prenderem, vão matar na prisão. Tenho certeza que vão me matar por queima de arquivo’. Palavras dele”, relatou o advogado ao jornal O Globo.

Catta Preta, que defendia Nóbrega desde meados do ano passado, afirmou que nunca havia tido contato direto com ele antes, já que a comunicação se daria por meio de seus familiares. Ele vai pedir apuração rigorosa a respeito da operação na Bahia que terminou com a morte do ex- integrante do Bope.  “Acho que ele já suspeitava que seria morto por queima de arquivo”, disse.

O advogado afirmou ao jornal que conversou na manhã deste domingo com a mulher de Nóbrega, Júlia Mello, que negou que o ex-PM estivesse armado.

Repercussão da morte de Nóbrega

Por meio de seu perfil no Twitter, o deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) ressaltou as ligações de Adriano Nóbrega com a família do presidente da República. “Adriano deveria ser investigado pela relação com os Bolsonaro. A ex-mulher e a mãe do miliciano eram assessoras do Flávio Bolsonaro e estavam no esquema da rachadinha. Flávio deu duas medalhas ao Adriano e Jair o elogiou no Congresso quando ele estava preso.

O líder do PT na Câmara dos Deputados, deputado Paulo Pimenta (RS) também sublinhou a relação destacada por Freixo.

“Adriano da Nóbrega, agora morto, era peça valiosa no esquema criminoso da quadrilha que está no Palácio do Planalto hoje. Foi homenageado por Jair Bolsonaro na tribuna da Câmara, Flávio lhe deu a Medalha Tiradentes e Sérgio Moro o excluiu da lista de mais procurados da Justiça”, postou no Twitter.

Pimenta faz referência ao fato do ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro não ter incluído Nóbrega, foragido da Justiça há mais de um ano, na lista dos criminosos mais procurados do país, divulgada no fim do mês de janeiro. Ele era apontado como um dos líderes do chamado Escritório do Crime, organização criminosa da zona oeste carioca, e  citado nas investigações que apuram a prática da “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual fluminense e hoje senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Instituto Marielle Franco cobra explicações

Embora as investigações relacionadas à morte da ex-vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) e do ex-motorista Anderson Gomes não envolvam o nome de Nóbrega, o perfil do Twitter do instituto que leva o nome de Marielle, fundado por sua família, publicou postagens sobre o episódio. Dada sua posição de destaque entre os milicianos, a entidade acredita que ele poderia prestar informações valiosas sobre os mandantes do crime, que está há 697 dias sem solução.

“Adriano Nóbrega (miliciano chefe do Escritório do Crime, mesmo grupo dos acusados de matarem Marielle) foi assassinado hoje pela polícia no momento da sua prisão. Será que ele poderia ter mais informações sobre quem mandou matar Marielle?”, diz uma das postagens.

“Adriano é ex-capitão do BOPE, onde conheceu um grande amigo e futuro sócio: o famoso Queiroz, do Laranjal dos Bolsonaros. Ele recebeu uma medalha de Flávio Bolsonaro, que também empregou sua mãe e esposa no seu gabinete como assessoras”, diz o Instituto. “Com um ‘currículo’ desses, a primeira coisa que uma investigação séria deveria priorizar era tentar retirar o máximo de informações de Adriano. Mas ele foi assassinado.”

A série de postagens termina com um questionamento:

“Quem se beneficia com sua morte? Faltando quase 1 mês para 2 anos da execução de Marielle e Anderson, por que será que ainda continuamos sem respostas sobre quem mandou matar e por quê?”

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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