Quem comandou o motim no Ceará?

Marina Amaral, codiretora da Agência Pública, em sua newsletter semanal.

“O maior problema que o Brasil enfrenta hoje são as milícias porque são bandidos com farda, carteirinha e porte de arma. O que houve agora no Ceará, a coisa se misturou muito. Pouca gente sabe disso: o Olavo de Carvalho disponibilizou há alguns meses um curso específico para as polícias militares – de graça! Quem é que banca isso? Então eu me pergunto: será isso uma doutrinação? Esse movimento no Ceará será uma coincidência já desse curso? Quando eu chamo a atenção com esse receio de rupturas institucionais [por parte de Bolsonaro], muita gente diz: mas o presidente não tem o apoio das Forças Armadas [para essa ruptura]. Mas não podemos esquecer que são mais de 500 mil policiais militares pelo Brasil e o presidente tem uma linha direta com a polícia, ele goza da simpatia das polícias, eu considero muito temerosa essa situação”.

A declaração bombástica do ex-ministro Gustavo Bebianno foi dada por iniciativa dele no finalzinho do Roda Viva desta semana. Ninguém perguntou sobre o motim recém-encerrado; as perguntas finais tentavam desvendar outra afirmação feita anteriormente pelo atual candidato a prefeito do Rio pelo PSDB: a de que Carlos Bolsonaro estava tentando criar uma Abin paralela no governo (o que já havia sido dito por Joice Hasselmann) chefiada por um delegado da polícia federal, cujo nome Bebianno recusou-se a revelar.

O jornalista Rodrigo Rangel, do Antagonista, aquele site muito amigo de Sergio Moro, perguntou mas não houve réplica: seria ele o atual diretor geral da Abin e desafeto de Moro, o delegado Alexandre Ramagem, curiosamente indicado para o cargo por Carlos Bolsonaro no mesmo mês de julho em que ocorreu o cursinho “grátis” de Olavo aos policiais?

Ramagem se tornou amigo da família ao integrar a segurança da campanha do presidente depois da facada de Juiz de Fora. Bebianno, aliás, que prometeu entrar na Justiça contra “insinuações” de Jair Bolsonaro à revista Veja de que ele estaria envolvido no atentado, também fez uma curiosa revelação sobre o incidente: já havia o “receio” entre os que acompanhavam o candidato de que ele fosse vítima de “uma estocada”. “A impressão que eu tinha é que havia uma premonição; parecia que ele tinha uma percepção de que algo do tipo ia acontecer e ele estava disposto a correr o risco”, disse o advogado no Roda Viva.

Recados e ameaças veladas permearam a entrevista, o que talvez tenha algo a ver com o gesto deplorável da semana – o humorista vestido de presidente, ao lado de Bolsonaro, oferecendo bananas aos repórteres – além da intenção detectada pela imprensa de desviar a atenção do pífio crescimento do PIB.

Quando aparecem revelações sobre milícias reais e digitais (e houve descobertas importantes na CPMI nesta semana), o presidente sempre dá um showzinho para afastar os “fantasmas” da ribalta.

Disse Bebianno: “A família Bolsonaro tem um grande fantasma chamado Adriano da Nóbrega. E a morte do Adriano é estranha, parece uma queima de arquivo. Quem teria interesse em fazer essa queima de arquivo? É muito ruim para o presidente ficar com essa mancha”.

Não é à toa que Bolsonaro tem muito medo de sofrer um impeachment, como também revelou Bebianno. Seria o fim de seu metódico plano de destruição das instituições – como apontou Marcos Nobre em entrevista à Pública – antes da estocada final, com o perdão do trocadilho. Talvez com o apoio dessa “coisa que se misturou muito” no motim do Ceará e que está em “linha direta” com o presidente da República.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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