Robôs levantaram hashtag que acusa China pelo coronavírus

 

Fonte: Agência Pública

Embora ministro Ernesto Araújo tenha sugerido mediar conflito, rede bolsonarista impulsiona twitter contra China

Por Texto: Ethel Rudnitzki, Laura Scofield | Infográficos: Bruno Fonseca

A pandemia de coronavírus, que já infectou mais de 250 mil pessoas no mundo, também viralizou nas redes sociais. O assunto ocupa os assuntos mais comentados do Twitter – Trending Topics – há mais de uma semana, entre postagens de atualizações sobre a doença, piadas sobre a quarentena e disseminação de boatos.

Segundo levantamento feito pela Agência Pública, a hashtag #VirusChines, que chegou aos Trending Topics no Twitter ontem (19 de março), contou com o auxílio de robôs e foi coordenada por influenciadores virtuais.

Tudo começou quando, no dia 18 de março, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho zero três do presidente, retuitou postagem de Rodrigo da Silva, fundador do portal Spotniks, que culpa o governo chinês pela pandemia do coronavírus. “A culpa é da China e liberdade seria a solução”, acrescentou.

Tuíte de Eduardo Bolsonaro que acusa governo chinês pelo coronavírus

Menos de 12 horas depois, a Embaixada da China no Brasil repudiou o posicionamento do zero três. “As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares”, respondeu o órgão em sua conta oficial de Twitter.

O embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, também respondeu ao deputado “Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial”, tuitou marcando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, a Câmara dos Deputados e o presidente da Casa, Rodrigo Maia.

  • Embaixada chinesa repudiou postagem de Eduardo Bolsonaro
  • Embaixador da China no Brasil também se pronunciou pelo Twitter

O ministro das Relações Exteriores se pronunciou em favor do deputado Eduardo Bolsonaro, mas ressaltou que as opiniões do zero três não refletem a posição do governo brasileiro. Para amenizar as tensões, o presidente Jair Bolsonaro tentou entrar em contato com o presidente chinês, mas não foi atendido.

Enquanto o Itamaraty tentava reduzir as tensões com a China, redes bolsonaristas levantaram a #VirusChines. Em questão de horas – durante a madrugada do dia 19 de março – a hashtag chegou aos Trending Topics no Brasil.

Agência Pública levantou e analisou todas as postagens com a #VirusChines das 9h às 17h50 do dia 19 – período no qual a tag ficou entre os assuntos mais comentados incessantemente. Foram 94 mil tuítes e retuítes – uma média de 3 por segundo –, nos quais foram constatadas evidências de manipulação algorítmicas com o uso de contas automatizadas.

Além disso, a reportagem descobriu que o uso das hashtags também foi organizado pelo Whatsapp. Em pelo menos 16 grupos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro foram enviadas mensagens pedindo que os membros tuitassem e retuitassem a #VirusChines durante o dia.

  • Mensagem encaminhada por Whatsapp a grupos bolsonaristas
  • Grupos de Whatsapp receberam chamado para #viruschines

A mensagem retuitada por Eduardo Bolsonaro que deu origem à polêmica também foi compartilhada em grupos de Whatsapp como forma de corrente.

Mensagem que culpa governo chines pelo coronavírus foi compartilhada por Whatsapp

Influenciadores impõem narrativa

Grande parte das mensagens de Whatsapp que pediam que as pessoas “subissem a tag” estavam acompanhadas de um tuíte de Leandro Ruschel, influenciador bolsonarista que acumula mais de 370 mil seguidores no Twitter.

Ruschel foi um dos primeiros a usar a hashtag ainda no dia 18 de março, menos de 1 hora depois do posicionamento do embaixador chinês. “Vamos aproveitar a liberdade que o Partido Comunista Chinês nega ao seu povo, para reafirmar: #VirusChines!”, publicou. A postagem teve mais de 3,8 mil retuites e 13 mil curtidas.

Influenciador bolsonarista foi um dos primeiros a postar a tag #viruschines

Ele fez outras 18 publicações com a hashtag – a grande maioria durante a madrugada do dia 19 de março. Às 1h43 da manhã ele comemorou “#VirusChines subindo nos TT’s”. Das 9h às 17h50, período monitorado pela reportagem, Ruschel só publicou 3 vezes com a tag, mas foi mencionado ou retuitado mais de 7,2 mil vezes por perfis que publicaram a #VirusChines.

Veja a matéria na íntegra clicando aqui.

 

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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