Bolsonaro estaria disposto a sacrificar Pazuello. Mas não indicará médica com a qual conversou ontem.

São duas razões muito simples. Parece que no início da noite de ontem, o Presidente da República descobriu dois fatos importantes: o primeiro foi a notícia de que a médica Ludhmila Hajjar é amiga da ex-presidenta Dilma Rousseff. E segundo, que teria recebido um áudio em que a Médica o chama de psicopata.

Deputados do Centrão têm pressionado pela troca de Pazuello, que tem atuação criticada em razão do agravamento da crise sanitária no país causada pela pandemia de Covid-19 e a pressão por sua substituição ocorre em um momento de pico da doença no país.

O Brasil registrou 1.940 mortes pela Covid-19 no sábado (13), totalizando 277.216 óbitos. Com isso, a média móvel de mortes nos últimos 7 dias chegou a 1.824, novamente um recorde. Em comparação à média de 14 dias atrás, a variação foi de +51%, indicando tendência de alta nos óbitos pela doença.

Segundo o Blog da Andreia Sadi, a troca de Pazuello também é defendida por aliados de Bolsonaro para que o governo consiga se preparar politicamente à oposição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que voltou ao tabuleiro eleitoral na semana passada.

Na noite de sábado (13), Bolsonaro se reuniu com Pazuello e mais três militares da ala militar. Participaram do encontro em Brasília, que não constava da agenda de nenhuma das autoridades, os ministros Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Fernando Azevedo (Defesa). Então surgiu o nome de Ludhmila Hajjar.

Na conversa de hoje com Bolsonaro, a médica foi questionada se era a favor do lockdown e ela respondeu que isso seria uma “medida extrema” pois as medidas de prevenção contra a covid-19 podem ser suficientes quando seguidas à risca, como o distanciamento social, o incentivo ao uso de máscara, conforme divulgou o site O Antagonista. A médica tem sido atacada por bolsonaristas radicais, especialmente por assumir postura contrária ao modo como o governo administra a crise de Saúde.

Em seu currículo na plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a cardiologista Ludhmila Abrahão Hajjar informa que é professora associada de cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Nascida em Anápolis-GO, graduou-se em medicina na Universidade de Brasília, em 2000. Ainda de acordo com o currículo, ela também é médica supervisora da área de Cardio-Oncologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora de cardiologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

De acordo com o site DCM, Ludhmila Hajjar tem amizades no meio político que podem irritar bastante Bolsonaro. Ela trabalha na Secretaria Estadual de Saúde de Goiás, do também médico Ronaldo Caiado. Segundo o Goiás24Horas, veículo local, é sabido no meio político que Ludhmila é amiga da ex-presidente Dilma Rousseff e inclusive a aconselhou em seus mandatos.

Mais tarde, O Globo publicou que Ludhmila Hajjar perdeu a preferência na lista de nomes avaliados pelo governo para o cargo. Segundo o jornal, a indicação da médica perdeu força no mesmo dia em que ela foi recebida pelo presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada.

Ao longo deste domingo, chegaram a Bolsonaro informações que circulam nas redes sociais sobre declarações da médica nos últimos anos, incluindo um áudio atribuído a Hajjar em que o presidente é chamado de “psicopata”.

No áudio, recebido por Bolsonaro após se encontrar com a cardiologista no Planalto, a interlocutora defende a eleição do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), para presidente, chamando-o de “corajoso”. No início da pandemia da Covid-19, Caiado determinou medidas de restrição de circulação e confrontou Bolsonaro por declarações em que o presidente minimizava o impacto do vírus.

“Nem sei o que vai acontecer com esse Brasil. Vai pegar fogo. Só sei que quero o Caiado presidente, só isso. Porque ele foi corajoso. Chega. Tem que cair esse JB. É um psicopata”, disse a mulher no áudio enviado ao presidente e ao qual o jornal afirma que também teve acesso.

Nas redes sociais, seguidores do presidente reagiram com críticas à possibilidade de nomeação de Ludhmilla.

A cardiologista também é criticada pela militância bolsonarista por defender posicionamentos que são consenso na comunidade científica, como a inexistência de um “tratamento precoce” eficaz contra a Covid-19, além da adoção de medidas de isolamento social.

Depois da divulgação que a demissão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, estava definida pelo presidente Bolsonaro e que Ludhmila era uma das cotadas para o cargo, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) saiu em defesa da cardiologista.

“Coloquei os atributos necessários para o bom desempenho à frente da pandemia: capacidade técnica e de diálogo político com os inúmeros entes federativos e instâncias técnicas. São exatamente as qualidades que enxergo na doutora Ludhmila”, escreveu Lira.

“Espero e torço para que, caso nomeada ministra da Saúde, consiga desempenhar bem as novas funções. Pelo bem do país e do povo brasileiro, nesta hora de enorme apreensão e gravidade. Como ministra, se confirmada, estarei à inteira disposição”, complementou o presidente da Câmara em outra publicação.

A possível demissão de Pazuello vem sendo discutida por Bolsonaro desde o início do fim de semana, em meio à pressão de parlamentares do Centrão.

Em nota divulgada neste domingo, o Ministério da Saúde disse que “até o presente momento” Pazuello segue à frente da pasta, “com sua gestão empenhada nas ações de enfrentamento à pandemia”. Através de um assessor, Pazuello afirmou, em uma rede social, que não está doente, mas que entregaria o cargo “assim que o presidente solicitar”.

“Não estou doente, não entreguei o meu cargo e o presidente não o pediu, mas o entregarei assim que o presidente solicitar. Sigo como ministro da saúde no combate ao coronavírus e salvando mais vidas”, escreveu o assessor, atribuindo as aspas ao próprio Pazuello.

Não importa se tem competência: para os membros do Governo Fundamentalista importa, sim, se é do Partido e se é subserviente, como Pazuello, um desastre à frente do Ministério da Saúde.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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