
Newsletter semanal de Marina Amaral, diretora executiva da Agência Pública
Os que ainda não perderam a confiança nos fatos assistiram, essa semana, à desmoralização completa do governo de Jair Bolsonaro.
Enquanto o general Pazuello, provando saber que agiu de maneira criminosa, mentia à CPI sobre o que disse e fez no Ministério da Saúde, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se tornava alvo de uma ação da Polícia Federal por ordem do Supremo Tribunal Federal.
Além de ter a casa e gabinetes vasculhados, Salles, suspeito de envolvimento em “um grave esquema de facilitação de contrabando de produtos florestais”, segundo o ministro Alexandre de Moraes, teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados.
Na mesma decisão, o ministro do STF registrou que um relatório do Coaf indicou “movimentação extremamente atípica envolvendo o escritório” do qual Ricardo Salles é sócio. Não custa lembrar que Salles já era investigado por suspeita de enriquecimento ilícito pelo Ministério Público de São Paulo por aumentar seu patrimônio cinco vezes durante o período que exercia cargos públicos no governo estadual.
Os crimes de responsabilidade de Pazuello e Salles são de conhecimento público. Sem estabelecer uma política de prevenção e vacinas, trocada pelo “tratamento precoce” e pelo desprezo ao uso de máscaras e às políticas de isolamento social, Pazuello não só impulsionou o número de mortes por Covid-19, que foram de 15 mil para 300 mil em sua gestão, como cruzou os braços diante da crise em Manaus, o que lhe valeu um processo no MPF, ainda em andamento.
E isso não é tudo.
Na véspera de seu depoimento à CPI, a Rede Globo revelou contratos fraudados do Ministério da Saúde para reformar galpões no Rio de Janeiro.
A empresa escolhida por Pazuello, sem licitação a pretexto de urgência na pandemia, já havia se envolvido em um escândalo em um contrato para a Aeronáutica.
Quanto a Salles, não bastasse a taxa recorde de desmatamento da Amazônia e as canetadas para “passar a boiada” – como o infame decreto que liberou 8 mil cargas de madeira ilegal -, seu apoio aos madeireiros infratores provocou uma notícia-crime assinada pelo ex-superintendente da PF no Amazonas.
Com um detalhe importante: além de reincidentes em crimes ambientais, as madeireiras que Salles é acusado de proteger são empresas grandes e com histórico de corrupção.
Para além da carga ideológica que parece justificar as atitudes tresloucadas dos ministros anti-saúde e anti-meio ambiente, a descoberta do “orçamento paralelo” do governo Bolsonaro e as suspeitas que rondam seus ministros mostram que a recompensa do presidente a seus apoiadores parece ser bem mais concreta do que elogios no Twitter.
Ao que tudo indica, as mentiras do presidente e seus ministros servem para encobrir algo que seria inaceitável até para seus apoiadores: a corrupção cada vez mais evidente do governo.
Como aconteceu na ditadura militar, o mito da “linha dura” para evitar a corrupção é a cortina de fumaça para praticá-la.
Em tempo: manifestamos nossa solidariedade ao doutor Conrado Hubner, professor de Direito Constitucional da USP, processado criminalmente pelo Procurador Geral da República, Augusto Aras, por tê-lo chamado de Poste Geral da República. Censura nunca mais!
Autor: jornaloexpresso
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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