
Por Fernanda Canofre, para a Folhapress.
Com uma viagem em cápsulas, que deslizam no vácuo dentro de tubos, uma pessoa pode percorrer cerca de 135 quilômetros entre o aeroporto de Porto Alegre e Caxias do Sul, em menos de 20 minutos, com uma passagem de custo médio de R$ 115, em um sistema que pode alcançar velocidade de até 850 km/hora.
O cenário, à primeira vista futurista, é o que promete a empresa Hyperloop Transportation Technologies. Ele foi apontado como viável por um estudo realizado pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), depois de acordo assinado entre empresa, universidade e o governo gaúcho no início de 2021.
A análise é uma fase bastante inicial do projeto, que não tem ainda licenciamento ambiental para obras ou investidores definidos para abraçar construção e operação do serviço –a empresa calcula que o trecho projetado para ligar Porto Alegre à Serra Gaúcha teria custo de US$ 7,7 bilhões (cerca de R$ 43 bilhões) num cenário de 30 anos.

“Estamos num momento de ampliar o estudo. A gente vai para uma pré-aprovação com licenciamento ambiental, aí sim o projeto vira um projeto executivo para ser investido por algum player. O pré-estudo de viabilidade mostrou números bastante razoáveis e despertou interesse de alguns”, diz Ricardo Penzin, diretor da empresa na América Latina.
Sem autorizaçao para identificar os interessados, ele diz que dois são do Brasil e um é do exterior. As cápsulas poderiam transportar entre 28 e 50 passageiros ou cargas de até 15 toneladas.

“A Hyperloop não constrói e não opera, ela é uma empresa de tecnologia. Na verdade, a gente é um grande agente licenciador, a gente é um grande McDonald’s”, explica ele.
A ideia se baseia na tecnologia conhecida como hyperloop, conceito lançado a partir de um artigo publicado pelo bilionário Elon Musk em 2013. Ela é desenvolvida hoje por pelo menos oito empresas e startups pelo mundo –a própria Hyperloop TT foi criada depois da publicação.
Entre elas está também a Virgin Hyperloop, primeira empresa a testar uma viagem tripulada com pessoas nas cápsulas, em novembro de 2020. No site, a empresa destaca que esse pode ser o primeiro modal de transporte em massa lançado em mais de cem anos. A HyperloopTT estima ter seu primeiro teste tripulado em 2023.
Com o tamanho semelhante a um avião comercial pequeno, sem asas, a cápsula se movimenta por um sistema de levitação magnética, chamado inductrack, em um ambiente de baixa pressão, o que permite que ela opere em alta velocidade com quase zero atrito. O sistema, segundo a empresa, é compatível com a aviação em segurança e sustentabilidade.
O sistema pode chegar a uma velocidade de até 1.200 km/h, mas na rota sendo estudada para o Rio Grande do Sul a máxima atingida deve ser de 850 km/h.
Pelo estudo da UFRGS, o trajeto no projeto piloto gaúcho teria quatro estações: Porto Alegre, Novo Hamburgo, Gramado e Caxias do Sul. O preço das passagens variaria de R$ 30, do trecho mais curto, da capital à cidade da região metropolitana, a R$ 115 pelo trajeto completo.
As passagens de ônibus entre a capital e Caxias hoje custam entre R$ 40 e R$ 60, com tempo de viagem entre duas e três horas.
Christine Nodari, coordenadora do estudo da UFRGS pelo Lastran (Laboratório de Sistema de Transportes), explica que o cálculo foi baseado em estimativa de demandas, valores de tarifa e respostas do público de uma pesquisa de preferência declarada, consulta comum na área de transportes, que pergunta às pessoas quanto estariam dispostas a pagar por aquele serviço.

A empresa destaca ainda que o investimento não conta com qualquer aporte de dinheiro público. A estimativa é de uma receita de US$ 1,5 bilhão para o primeiro ano de operações, em 2026 – a maior parte, mais de US$ 1 bilhão, vindo de receitas não operacionais, como investimentos imobiliários.
“Para não ser subsidiado, o negócio precisa se apropriar desses rendimentos. É nessa premissa que ele é autossustentável”, diz Nodari.
A estimativa é que o investidor comece a ter lucro em cerca de 15 anos, o que, segundo Penzin, diretor da empresa, é “um piscar de olhos” ao falar de infraestrutura.

