Mais de 1,5 mil espécies de animais sofrem com ingestão de microplásticos; cientistas buscam entender efeitos no corpo humano.
Tempestade traz plástico e microplástico para areias de praia da Itália: mundo produz cerca de 400 milhões de toneladas de plástico por ano Foto: Alfonso Di Vincenzo/Getty Images
Olhe ao seu redor. Das embalagens do delivery à caneta sobre sua mesa, passando por partes do seu celular, é plástico por todo lado. Esse incrível material, feito geralmente a partir de petróleo, além de prático, promove uma sensação de assepsia mais que bem-vinda em tempos pandêmicos.
Mas há um imenso desafio no uso desvairado do plástico. A maior virtude do material é também seu maior defeito: ele é descartável. E seu descarte é feito de forma incorreta na maior parte do tempo. Falando apenas de Brasil, o quarto maior produtor de lixo plástico no mundo, atrás dos Estados Unidos, China e Índia: são 11,3 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente por aqui, mas apenas 1,28% disso foi reciclado. No mundo, são aproximadamente 400 milhões de toneladas anuais, com reciclagem de menos de 10%.
Então, é preciso falar sobre os microplásticos, os fragmentos do material que podem ser microscópicos ou chegar a até 5 milímetros. Ingeridas por animais, essas partículas acabam entrando na cadeia alimentar. Desprendidas das embalagens, elas grudam em partículas poluentes. E chegam, claro, ao ser humano. Você pode não perceber, mas está comendo e inalando plástico.
Não adianta simplesmente vilanizar o plástico. “É um material fantástico. Leve, durável, não sofre influência de microorganismos no curto e médio prazo. Isso o torna ideal para, por exemplo, estocar alimentos”, pontua à CNN o biólogo Magno Botelho Castelo Branco, especialista em ecologia ambiental e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “O advento do plástico também serviu para reduzir a pressão sobre outros recursos naturais, como a madeira e o marfim dos elefantes.”
Mas cientistas buscam entender agora os efeitos desse material no corpo humano e no meio ambiente. E os primeiros resultados de estudos não são positivos.
Humanos plastificados
Por mais que as estimativas indiquem que uma pessoa possa engolir o equivalente a um cartão de crédito por ano em microplásticos, grande parte disso acaba saindo pelo intestino ou pela uretra. O que não significa que os especialistas em estudos toxicológicos não estejam interessados nos efeitos adversos que as partículas – que podem ser lançadas no meio ambiente a partir dos desgastes dos pneus, por exemplo, ou pelo uso da máquina de lavar – podem ter no corpo humano. Na verdade, as pistas que já existem e mostram uma realidade que merece atenção.
Idosa recebe carinho de parente com luvas plásticas para evitar contágio da Covid-19. Não adianta ‘vilanizar’ o plástico. Ele polui, mas também é útil, especialmente em tempos de pandemiaFoto: Antonio Masiello/Getty Images
Estudos atestam cada vez mais como os microplásticos se relacionam, de forma até bastante íntima, com o corpo humano. Dados publicados em várias partes do mundo mostram as partículas presentes na água da torneira, na atmosfera de Londres, no leite materno e na urina dos bebês.
No caso das crianças, as pesquisas estimaram que o processo usado para esterilizar as mamadeiras acaba desprendendo milhões de partículas de microplásticos e trilhões de estruturas ainda menores, os chamados nanoplásticos, com dimensões menores do que um fio de cabelo. Os dois tipos de estruturas são engolidas com o leite.
O sistema respiratório pode ser afetado também. “Sabemos por estudos ocupacionais, em que funcionários são expostos a concentrações de fibras plásticas, que existe nesses casos um efeito deletério sobre a saúde pulmonar”, afirma Luís Fernando Amato-Lourenço, pesquisador ligado à Faculdade de Saúde Pública da USP. A pressão dos plásticos sobre o sistema respiratório dos trabalhadores se revela em manifestações inflamatórias e doenças intersticiais, que afetam o pulmão a ponto de causar falta de ar, tosse e até fibrose do tecido pulmonar.
O grupo de Amato-Lourenço, liderado pela professora Thais Mauad, acaba de demonstrar, de forma inédita em nível mundial, que os microplásticos podem atingir o tecido pulmonar humano. Micropartículas menores que 16,8 micrômetros (1 micrômetro equivale a 0,001 mm) estavam em 13 das 20 amostras de pulmão, frutos de biópsias realizadas com ex-moradores de São Paulo.
Segundo Amato-Lourenço, é importante lembrar que no pulmão os plásticos são duplamente bioresistentes. “As partículas podem ficar presas por um longo período no local. O organismo reconhece o plástico como algo estranho, mas tem dificuldade de se livrar dele. Quanto maior a quantidade inalada, maior tende a ser o problema na saúde”, afirma o pesquisador.
Além de serem criados pelo desgaste e decomposição das formulações plásticas existentes, os microplásticos podem ser adicionados de forma intencional a produtos da vida cotidiana, como cosméticos e substâncias abrasivas de limpeza, conforme explicou o pesquisador norueguês Dick Vethaak, da Deltares & VU University, em um artigo na Science em fevereiro.
Essas pequenas partículas plásticas podem ter várias formas, como esferas, fragmentos, fibras, espuma e filmes. “No meio ambiente, o microplástico se liga a outros poluentes também, como compostos orgânicos que saem do escapamento dos veículos, metais pesados, entre outros. Além da partícula de plástico, portanto, nós inalamos também poluentes agregados a ela”, diz Amato-Lourenço.
Outro avanço científico importante, também perseguido pelos grupos debruçados sobre o tema, é tentar entender até que ponto a dose de microplástico recebida pelo corpo humano pode se transformar em veneno, afirma Dick Vethaak. “Embora se espere que a poluição do plástico e a exposição a partículas de plástico continuem a aumentar globalmente, ainda não sabemos o quanto disso penetra realmente em nossos corpos”, diz o pesquisador radicado em Amsterdam.
Ao ser ingerido ou inalado, além de poder ser absorvido por vários órgãos e danificar as células ou deflagrar reações inflamatórias ou imunológicas, as pequenas partículas plásticas podem servir ainda de fonte para outros seres indesejados. “Elas podem abrigar micróbios e germes nocivos para resistência a antibióticos ou liberar compostos químicos, levando-os diretamente para o nosso corpo”, afirma o pesquisador holandês.
À deriva num mar de plástico
Em artigo publicado pela revista científica Science Advances em julho de 2017, os pesquisadores Roland Geyer, Jenna R. Jambeck e Kara Lavender Law fizeram a assombrosa soma: no total, o ser humano já produziu 8,3 bilhões de toneladas do material. Em outras palavras, todos os anos a humanidade coloca em circulação mais plástico do que o peso somado de todos os seres humanos vivos juntos.
Os cientistas concluíram que desse imenso total, 2,5 bilhões de toneladas correspondem ao plástico em uso — nunca descartados nem reciclados. Quase 5 bilhões foram descartados como lixo. E apenas 600 milhões estão num ciclo de reciclagem, ou seja, depois de inutilizados, voltam como outros produtos.
Plástico não é uma coisa só e isto é bastante óbvio. Basta ver a diferença entre uma sacola de mercado, um cano de PVC, o botão da sua camisa e o acetato da armação dos seus óculos.
Os tempos de deterioração variam também e as estimativas mais recorrentes calculam que sejam necessários 400 anos, em média, para que o material seja completamente absorvido pela natureza.
Essa permanência no ambiente leva o plástico a ser ingerido por animais e humanos. Principal autor de um estudo recém-publicado pela revista Science, o biólogo Robson Guimarães dos Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas, afirma que já há registros de ingestão de plásticos por mais de 1,5 mil espécies de animais, “de minhocas a elefantes, de zooplânctons a baleias”. “O plástico está contaminando diversos ramos da árvore da vida”, diz ele à CNN.

