Pedido ainda deverá ser julgado pelo TSE Foto: Paulo Sergio/Câmara dos Deputados
A Procuradoria-Geral Eleitoral pediu ao TSE a cassação do mandato do deputado federal Neri Geller, do PP do Mato Grosso. O parecer foi entregue em 10 de março. O parlamentar é acusado de realizar doações de campanha irregulares, em 2018, que teriam beneficiado ao menos 11 postulantes ao Legislativo mato-grossense. Desses, quatro foram eleitos.
De acordo com o pedido, naquele ano Geller repassou 1,3 milhão de reais aos candidatos. Dos onze beneficiários, apenas três faziam parte da mesma coligação do deputado. A legislação eleitoral permite que candidatos da mesma coligação façam transferências de recursos de campanha entre si, mas proíbe a prática com pessoas de outros grupos políticos.
No mesmo período, o deputado do agronegócio recebeu dinheiro da Seara e da Bunge Alimentos, em operações consideradas atípicas e suspeitas pelo COAF e pelo Ministério Público.
Para a PGE, a manobra de Neri Geller tinha como objetivo comprar apoio político dos candidatos que não integravam sua coligação.
Caixa 2
Há ainda suspeitas de que as doações de Neri Geller tenham sido feitas com caixa 2, para ocultar a participação de empresas na campanha. A legislação eleitoral proíbe que grupos privados financiem candidatos diretamente.
A investigação apontou uma série de movimentações suspeitas envolvendo a Seara Alimentos e a Bunge Alimentos, ambas empresas ligadas ao agronegócio de Mato Grosso. A PGE afirma que a conta bancária do filho de Neri Geller, então com 18 anos, serviu para esconder a procedência do dinheiro.
Durante o período crítico da campanha eleitoral, de 20 de julho a 7 de outubro, a conta de Marcelo Geller movimentou mais de R$ 7 milhões. A maior parte desse dinheiro foi depositada pelo deputado, que posteriormente recebia de volta quase todas as quantias.
Um relatório do COAF citado no documento mostra uma série de depósitos feitos pelas empresas. Totalizaram quase 1,7 milhão de reais nas contas de Neri, após a passagem pela conta de Marcelo, o filho.
Segundo a PGE, Geller argumentou que o montante referia-se a operações comerciais que realizou com esses grupos. Mas os valores não condizem com a declaração de impostos do filho do deputado, nem com os vencimentos que o parlamentar acusou ter recebido.
“O cenário expõe um estado de dolosa confusão patrimonial entre as contas do candidato representado e seu filho Marcelo, então, com 18 anos de idade, e com notória incapacidade financeira. Nota-se, em paralelo, uma constante e volumosa injeção de recursos de pessoas jurídicas, no período crítico eleitoral, sempre em datas e valores próximos”, afirma a PGE.
Para a Procuradoria, “há, portanto, sim, um conjunto probatório firme a indicar irregularidades no aporte de recursos de pessoas jurídicas na conta do candidato em período eleitoral, merecendo realce o fato de que os documentos apresentados não dão suporte à assertiva de normalidade das transações”.
O Bastidor procurou Neri Geller e as empresas citadas na reportagem. A JBS, dona da Seara Alimentos, informou que, em 2018, recebeu 2,7 mil toneladas de milho de Neri Geller. A Bunge não retornou o contato.
Neri Geller e o agronegócio
O deputado federal é considerado no Mato Grosso e em Brasília como um dos principais aliados do ex-ministro e ex-senador Blairo Maggi. A proximidade dos dois é tamanha que ambos discutem a formação de uma aliança política regional para a disputa das eleições deste ano.
Blairo Maggi é dono da Amaggi, uma das maiores produtoras de soja do mundo. Ele também preside a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). A entidade tem entre os sócios a Bunge Alimentos.
A Seara faz parte do grupo J&F, comandada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, que tem no setor de carnes grandes investimentos em Mato Grosso.
Autor: jornaloexpresso
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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