“Não é o Estado que fiscaliza a imprensa, é a imprensa que fiscaliza o Estado”. Carlos Ayres Britto
“Militares querem o aparelhamento do Estado”
De João Pedro Soares, para a dw.com.
Para antropólogo que estuda Forças Armadas, ameaças golpistas são parte de estratégia para barganhar poder e verbas. Generais, longe de estarem sendo arrastados para crise com Justiça Eleitoral, são protagonistas da ação
O impasse criado entre comandantes das Forças Armadas e ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um ambiente de tensão. Representados na Comissão de Transparência Eleitoral, os militares sugeriram, sem provas, que as urnas eletrônicas teriam problemas de segurança.
Para o antropólogo Piero Leirner, que pesquisa o meio militar há mais de três décadas, trata-se de mais uma “esticada de corda” das Forças Armadas. O especialista ressalta que o objetivo final não é claro. Porém, Leirner acredita que a ameaça recorrente à democracia sirva para barganhar maior presença no Estado.
DW Brasil: Como você enxerga a gravidade da tensão criada entre as Forças Armadas e o TSE?
Piero Leirner: A situação, por si, é muito grave, mas a reboque de um conjunto maior de elementos, em que as Forças Armadas definitivamente se imbricaram no processo político. Isso não vem de agora. Muito mais grave é eles terem deixado o Bolsonaro fazer campanha eleitoral dentro de instalações militares – da Aman por exemplo – desde 2014. Já evidencia que eles estavam tomados há muito tempo por uma ação política que visava a alguma coisa: um processo de aparelhamento do Estado. Isso é cada vez mais claro.
Existe um padrão nisso. Todo ano, tem uma hora em que começa uma tensão com as Forças Armadas. Elas brotam, entram no cenário, a imprensa toda discute, depois amansa, até brotar de novo. Cria-se uma alergia dentro do sistema político, que aparentemente agora subiu um pouco mais. A gente precisava ver exatamente aonde se quer chegar, porque não está muito claro para ninguém.
Considerando o histórico dos militares na política brasileira, a participação das Forças Armadas no processo eleitoral é apropriada?
Do ponto de vista global, é completamente anômalo as Forças Armadas de um país estarem envolvidas em processos eleitorais. Mais anômalo ainda é que elas vejam nisso um tema de segurança nacional. O que estão entendendo por segurança nacional, quando atrelam essa questão à votação? Assim, transformam a gente em uma espécie de república de bananas, sempre passando uma imagem subliminar de que só os militares garantem a normalidade democrática do país.
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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