“Militares querem o aparelhamento do Estado”

De João Pedro Soares, para a dw.com.

Para antropólogo que estuda Forças Armadas, ameaças golpistas são parte de estratégia para barganhar poder e verbas. Generais, longe de estarem sendo arrastados para crise com Justiça Eleitoral, são protagonistas da ação

Braga Netto, Augusto Heleno e Jair Bolsonaro. Para antropólogo, presidente está alinhado com os propósitos dos militares - e não o contrário

© picture-alliance/AP/B. PradoBraga Netto, Augusto Heleno e Jair Bolsonaro. Para antropólogo, presidente está alinhado com os propósitos dos militares – e não o contrário

O impasse criado entre comandantes das Forças Armadas e ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um ambiente de tensão. Representados na Comissão de Transparência Eleitoral, os militares sugeriram, sem provas, que as urnas eletrônicas teriam problemas de segurança.

A hipótese foi descartada pelo TSE, mas deixou dúvidas sobre a postura que as Forças Armadas irão adotar nas eleições. Em meio às falas golpistas do presidente Jair Bolsonaro, o questionamento à transparência das urnas pelos militares levanta novas dúvidas sobre a estabilidade democrática do Brasil.

Para o antropólogo Piero Leirner, que pesquisa o meio militar há mais de três décadas, trata-se de mais uma “esticada de corda” das Forças Armadas. O especialista ressalta que o objetivo final não é claro. Porém, Leirner acredita que a ameaça recorrente à democracia sirva para barganhar maior presença no Estado.

DW Brasil: Como você enxerga a gravidade da tensão criada entre as Forças Armadas e o TSE?

Piero Leirner: A situação, por si, é muito grave, mas a reboque de um conjunto maior de elementos, em que as Forças Armadas definitivamente se imbricaram no processo político. Isso não vem de agora. Muito mais grave é eles terem deixado o Bolsonaro fazer campanha eleitoral dentro de instalações militares – da Aman por exemplo – desde 2014. Já evidencia que eles estavam tomados há muito tempo por uma ação política que visava a alguma coisa: um processo de aparelhamento do Estado. Isso é cada vez mais claro.

Existe um padrão nisso. Todo ano, tem uma hora em que começa uma tensão com as Forças Armadas. Elas brotam, entram no cenário, a imprensa toda discute, depois amansa, até brotar de novo. Cria-se uma alergia dentro do sistema político, que aparentemente agora subiu um pouco mais. A gente precisava ver exatamente aonde se quer chegar, porque não está muito claro para ninguém.

Considerando o histórico dos militares na política brasileira, a participação das Forças Armadas no processo eleitoral é apropriada?

Do ponto de vista global, é completamente anômalo as Forças Armadas de um país estarem envolvidas em processos eleitorais. Mais anômalo ainda é que elas vejam nisso um tema de segurança nacional. O que estão entendendo por segurança nacional, quando atrelam essa questão à votação? Assim, transformam a gente em uma espécie de república de bananas, sempre passando uma imagem subliminar de que só os militares garantem a normalidade democrática do país.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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