Milho estocado no tempo, no Mato Grosso.


O aperto na oferta global de açúcar que impulsionou os preços a uma máxima de 11 anos está finalmente prestes a diminuir — e isso graças a uma safra que pode parecer não ter nenhuma relação.
Do Bloomberg
A enorme produção de milho do Brasil tornou mais rentável usar o grão para produzir etanol e, com isso, as usinas de cana do país têm procurado produzir mais açúcar e menos biocombustível.
“Quem tem dinheiro hoje ou está gastando com etanol de milho, ou com fabricação de açúcar”, disse Eder Vieito, analista sênior de commodities da Green Pool Commodity Specialists.
A queda dos preços do açúcar seria um alívio bem-vindo para consumidores que lutam contra a inflação dos alimentos. Um indicador da ONU para preços de alimentos e commodities agrícolas registou seu maior ganho em 16 meses em julho, antes de recuar ligeiramente em agosto. O clima extremo tem danificado a cana-de-açúcar na Índia, segundo maior produtor depois do Brasil.
O milho tem respondido por uma fatia maior do mercado de etanol no Brasil, que fica atrás apenas dos EUA entre os produtores globais do biocombustível. O etanol de milho será responsável por quase um quinto de toda a produção do combustível na atual safra, comparado a quase zero há cinco anos. Até 2033, a participação do grão poderá subir para até um terço da oferta total, conforme dados da consultoria Datagro.
“A expansão dos biocombustíveis vai predominantemente ocorrer com etanol de milho”, disse Renato Pretti, diretor de planejamento estratégico da produtora de etanol Cerradinho Bioenergia. A empresa, que utiliza milho e cana-de-açúcar como matérias-primas para combustível, faz parte de um número crescente de usinas que desviam mais cana para produzir açúcar e até investem em novas máquinas para o açúcar.
O aumento da produção de milho no Brasil abre espaço para maiores lucros com etanol, já que as vendas de subprodutos, como ração animal, cobrem a maior parte dos custos de produção do grão. As usinas de cana, por outro lado, recentemente tiveram uma redução de margens na produção de etanol.
O custo de produção do etanol a partir do milho foi 16% menor em comparação com a produção a partir da cana-de-açúcar nos últimos dois anos, disseram analistas do banco BTG Pactual em relatório.
A demanda por etanol, no entanto, tem diminuído à medida que os motoristas preferem a gasolina mais barata. Os preços do biocombustível podem cair para 65% a 68% do preço da gasolina no longo prazo, segundo Willian Hernandes, sócio da consultoria FG/A. Uma queda abaixo de 70% convencerá mais motoristas a mudar para o etanol, mas também limitará os lucros das usinas.
As usinas de cana já fizeram planos para adicionar cerca de 2,5 milhões de toneladas de capacidade para produzir açúcar nas próximas safras, estimou a FG/A. As usinas provavelmente continuarão maximizando a produção de açúcar por pelo menos mais duas safras, disse Murilo Mello, chefe de açúcar para as Américas da Hedgepoint Global Markets.
Os laços políticos do setor sucroalcooleiro podem, em última análise, ajudar a aumentar as margens do etanol. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoia um projeto de lei que aumentará o percentual de etanol misturado à gasolina.
O etanol à base de milho também enfrenta alguns obstáculos. As usinas que utilizam o grão dependem principalmente da biomassa de eucalipto como fonte de energia, e a oferta de madeira está diminuindo no Brasil com a crescente produção de papel e celulose. Isso poderia resultar em menos incentivo para aumentar a oferta de etanol de milho além do que já está planejado, disse Ana Zancaner, analista da Czapp, que pertence à corretora de commodities Czarnikow.
Mas o consenso é que o etanol de milho terá mais alguns anos de expansão. O Brasil tem oito usinas de etanol de milho aumentando capacidade, enquanto outras sete novas usinas estão em construção, disseram analistas do Itaú BBA em relatório de setembro. A oferta da matéria-prima também é abundante: os analistas estimam que o Brasil consumirá um recorde de 13 milhões de toneladas de milho na produção de etanol neste ano-safra, cerca de um décimo dos suprimentos totais.
Essa é uma boa notícia para os produtores de milho no estado de Mato Grosso. Há um potencial significativo para o grão conquistar uma fatia maior do mercado de etanol, segundo o agricultor Zilto Donadello.
“Ainda tem muito chão para indústria de etanol crescer”, disse Donadello.
Nota da Redação:
No Centro Oeste, onde grande parte da safra de milho ainda está estocada a céu aberto, uma saca de 60 kg vale R$35,00. O preço é baixo e não remunera os custos das lavouras de produtividades mais baixas. No entanto, é preciso liberar armazéns para a nova safra de soja, que já começa a entrar em 120 dias. Essa estocagem a céu aberto não é incomum nos Estados Unidos, com o grão resistindo às primeiras precipitações de neve. Com a ressalva de que nos estados do Norte, na fronteira do Canadá, chove muito pouco durante o inverno.
Autor: jornaloexpresso
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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