Irrigação de milho alimentada por águas subterrâneas em Kabwe, Zâmbia. Mark Hughes.
Pesquisadores mediram o nível das águas subterrâneas de 170 mil poços em mais de 40 países.
Muitas partes do mundo estão registrando um rápido esgotamento das reservas subterrâneas de água das quais milhões de pessoas dependem para beber, irrigar e fazer outros usos, de acordo com uma nova pesquisa que analisou milhares de medições do nível das águas subterrâneas de 170 mil poços em mais de 40 países.
É o primeiro estudo que mostra o que está acontecendo com os níveis das águas subterrâneas em escala global, de acordo com os pesquisadores. A iniciativa ajudará os cientistas a compreenderem melhor o impacto que os seres humanos têm neste valioso recurso subterrâneo, seja através da utilização excessiva ou indiretamente por mudanças nas chuvas ligadas às alterações climáticas causadas pela humanidade.
As águas subterrâneas, contidas em fissuras e buracos em estruturas rochosas permeáveis conhecidos como aquíferos, são uma tábua de salvação para as pessoas, especialmente em partes do mundo onde as chuvas e as águas superficiais são escassas, como o noroeste da Índia e o sudoeste dos Estados Unidos.
As reduções dos níveis das águas subterrâneas podem dificultar o acesso das pessoas à água doce para beber ou para irrigar as plantações, resultando na subsidência de terras, que traz diversos problemas ambientais.
“Este estudo foi movido pela curiosidade. Queríamos compreender melhor o estado das águas subterrâneas globais, analisando milhares de medições do nível das águas subterrâneas”, diz a coautora do estudo Debra Perrone, professora associada do Programa de Estudos Ambientais da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, em um comunicado à imprensa sobre o estudo publicado na revista Nature nesta quarta-feira (24).
Os autores descobriram que os níveis das águas subterrâneas diminuíram, entre 2000 e 2022, 71% em 1.693 sistemas aquíferos incluídos na pesquisa, com os níveis das águas subterrâneas diminuindo mais de 0,1 m por ano em 36%, o que corresponde a 617 dos locais analisados.
O Aquífero Ascoy-Soplamo, na Espanha, teve a taxa de declínio mais rápida nos dados compilados – uma redução média de 2,95 m por ano, disse o coautor do estudo Scott Jasechko, professor associado da Escola Bren de Ciência e Gestão Ambiental, da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara.
“Fiquei impressionado com as estratégias inteligentes que foram postas em prática para lidar com o esgotamento das águas subterrâneas em vários lugares, embora estas histórias de ‘boas notícias’ sejam muito raras”, afirmou Jasechko, por e-mail.
Para compreender se as reduções observadas no século 21 estavam acelerando, a equipe também acessou dados sobre os níveis das águas subterrâneas de 542 dos aquíferos no estudo no período entre 1980 e 2000.
Foi então que descobriram que o declínio dos níveis das águas subterrâneas acelerou nas primeiras duas décadas do século 21 em 30% desses aquíferos, ultrapassando as reduções registadas entre 1980 e 2000.
“Estes casos de declínio acelerado do nível das águas subterrâneas são duas vezes mais prevalentes do que o esperado diante de flutuações aleatórias na ausência de quaisquer tendências sistemáticas em qualquer período de tempo”, observou o estudo.
Donald John MacAllister, hidrólogo do British Geological Survey, que não esteve envolvido na pesquisa, disse que se trata de um conjunto de dados realmente “impressionante”, apesar de algumas lacunas.
“Penso que é justo dizer que esta compilação global de dados sobre águas subterrâneas não havia ainda sido feita nesta escala”, diz MacAllister. “A água subterrânea é um recurso extremamente importante, mas um dos desafios é que, por não podermos vê-la, ela fica fora da mente da maioria das pessoas. O nosso desafio é lembrar os tomadores de decisão de que temos este recurso e que temos que cuidar dele para desenvolvermos resiliência e nos adaptarmos às alterações climáticas”, finalizou o hidrólogo.
Katie Hunt da CNN
No Brasil, estima-se que existam 27 aquíferos, com destaque para os dois maiores e mais importantes: o Guarani, situado no Centro-sul e que se estende por outros países e o Alter do Chão, localizado na região Norte. No Oeste baiano somos servidos pelo Aquífero Urucuia, de uso intenso em grandes áreas irrigadas.
O problema maior dos aquíferos é a inutilização dos cones de reposição das águas subterrâneas. A atividade humana, desmatamento, aração para lavouras e pastagens, alteram a capacidade dos cones de terras permeáveis que abastecem o arenito onde a água se deposita.
Segundo Márcia Cristiane Kravetz Andrade, Mestre em Ciência e Tecnologia Ambiental, Doutoranda em Sustentabilidade Ambiental Urbana e Tutora dos cursos de Pós-Graduação na Área de Meio Ambiente da UNINTER, um dos biomas do país, o Cerrado, abrange cerca de 25% do território brasileiro. É uma região de ampla biodiversidade, com mais de 6 mil espécies de árvores e 800 espécies de aves. Com um papel extremamente importante na formação de nascentes de rios, o Cerrado contribui com aproximadamente 40% da água doce do país. Porém, o bioma tem enfrentado um aumento alarmante de 44% de desmatamento, atingindo uma área de 7.852 km², segundo dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Essa situação representa o maior índice de desmatamento desde o início do monitoramento, em 2018, ameaçando a biodiversidade e a oferta de água do país.
Alvo de expansão agropecuária (atividades agrícolas, pecuárias e silviculturas), o Cerrado enfrenta o desmatamento para a abertura de novas áreas para essas atividades, levando a preocupações ambientais e planos de conservação. Essa destruição pode comprometer o aumento das emissões de carbono para a atmosfera, perdas de solo por erosão, como consequência o assoreamento de corpos hídricos, afetando a capacidade do bioma em reter água, podendo resultar em escassez hídrica. Isso é um fator problemático em um país dependente da água, não apenas para a segurança alimentar, mas também para a segurança energética.
Autor: jornaloexpresso
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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