Eles são os homens de bem. Artigo de Ruy Castro.

Quem conhece o teatro, romances e contos de Nelson Rodrigues sabe que seus personagens são uma galeria de adúlteros, incestuosos, assediadores, assassinos, suicidas e outros graves transgressores das normas de convívio. Por causa disso, Nelson foi censurado, teve peças e livros proibidos, sofreu ameaças físicas e foi chamado de tarado e pornográfico. Quem são esses personagens? Marginais, presidiários, prostitutas, pobres, destituídos, aqueles de quem a sociedade espera esses “desvios”?

Não. Os tarados de Nelson são advogados, juízes, médicos, políticos, padres, pais de família, até mães de família. Todos “homens de bem” —inatacáveis, detentores do monopólio das virtudes, aqueles sobre quem não resta a menor dúvida. Daí Nelson botar na boca de alguém em seu romance “Asfalto Selvagem”: “O homem de bem é um cadáver mal informado. Não sabe que já morreu”.

Nelson pode ter se enganado. O “homem de bem” ainda é uma realidade. Ele tem um “nome a zelar”: venceu na vida, é casado, fiel, não tem filhos gays, é sócio de clubes, paga o que deve em dia, vai à Disney com a família, é patriota, religioso e fã de cantores sertanejos.

“Homens de bem”, ou que assim se consideram, são também os seguidores sinceros de Bolsonaro. Isso é a aproximação de “homens de bem” como os irmãosBrazão, Fabrício Queiroz, Ronnie Lessa, Roberto Jefferson, Daniel Silveira, Allan dos Santos, Eduardo Pazuello,Braga Netto, Augusto Heleno, padre Kelmon. Uns, acusados ​​de tentativa de golpe; outros, de fraude e corrupção; e ainda outros, de assassinato, mesmo.

Publicado na Folha.
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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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