“Não é o Estado que fiscaliza a imprensa, é a imprensa que fiscaliza o Estado”. Carlos Ayres Britto
“Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar milhões de brasileiros”.
Casa destruída pela enchente no Rio Grande do Sul. Foto: Vinicius Costa
Em entrevista, o agrônomo e membro do Movimento Ciência Cidadã, Leonardo Melgarejo, explica como as enchentes no RS resultam de um modelo predatório de agricultura e incentivos fiscais à destruição ambiental.
As mudanças climáticas já se tornaram um problema ambiental e social no Brasil, que necessita de medidas urgentes por parte dos Estados brasileiros e do governo federal para amenizar o sofrimento de milhares de pessoas que vem perdendo a vida, a moradia, lavouras e destruindo sonhos e perspectivas de vida, construídos em décadas. Também é preciso pensar em como mudar esse modelo de destruição do planeta que vem causando as mudanças climáticas. A exemplo temos a tragédia com temporais e enchentes que atravessa o Rio Grande do Sul, desde o mês de maio.
Até o momento o número de pessoas mortas devidos às enchentes no estado já chega a 177, além de 37 pessoas que estão desaparecidas. Ao todo, mais 2 milhões de pessoas foram afetadas pela inundações no RS. Conforme o balanço da Defesa Civil, o estado ainda conta com 478 municípios afetados pelas fortes chuvas e cerca de 10 mil pessoas continuam em abrigos. Porém, no último fim de semana, pelo menos 19 municípios gaúchos sofreram novos danos em razão de mais enchentes, e nesta segunda (17), a Defesa Civil emitiu novo alerta de chuvas intensas e rajadas de vento no estado.
Entre os dez assentamentos do MST no estado, dois tiveram todas as casas destruídas e perderam as plantações e animais, sendo obrigados a se deslocarem para outros assentamentos. E e outros dois assentamentos tiveram metade de suas casas destruídas, além de outros dois assentamentos com perdas devidos as inundações. Entre as várias perdas das famílias assentadas estão casas, a produção de alimentos plantados e estocados, animais e ferramentas, além de estruturas coletivas, maquinários, matéria prima, produtos para venda das cooperativas e agroindústrias localizadas nesses assentamentos, como por exemplo, toda a produção de Arroz Agroecológico e a área plantada.
Engenheiro agrônomo, doutor em Engenharia de Produção, membro do Movimento Ciência Cidadã e colunista do Brasil de Fato RS, Leonardo Melgarejo explica que as enchentes no RS não surgem do nada, mas são fruto do modelo predatório do agronegócio e da desregulamentação das políticas de fiscalização e de preservação ambiental, entre outros fatores.
“Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo. Os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, que estão nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais.”
Famílias assentadas voltando pra casa após as inundações no RS. Fotos: Rafa Dotti
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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