Não falha: Candidato a prefeito é multado por desmatar floresta amazônica com fogo nas eleições

Siwal Sant Ana Soares, candidato em Colniza com apoio de Eduardo Bolsonaro, foi multado em R$ 5 milhões pelo Ibama.

Por Bianca Muniz, Matheus Santino | Edição: Bruno Fonseca, da Agência Pública

Em plena campanha eleitoral, no município que registrou a maior quantidade de focos de incêndio de Mato Grosso neste ano, um candidato a prefeito foi multado por desmatar a floresta Amazônica usando fogo.

O político no caso é Siwal Sant Ana Soares, mais conhecido como Walzinho, candidato a prefeito de Colniza pelo Partido Liberal (PL) e ex-vereador na cidade, entre 2016 e 2020. Em agosto e setembro deste ano, Colniza, no norte de Mato Grosso, registrou mais de 1,8 mil focos de queimada. O município, localizado a mil quilômetros de Cuiabá, foi o que mais queimou no estado durante esse período.

Combater as queimadas na região, que aumentaram a procura por serviços de saúde pela população, poderia ser uma das prioridades nas propostas dos candidatos à prefeitura – mas na prática a história é outra.

Walzinho foi multado após quatro infrações ambientais, ocorridas entre os dias 18 e 20 de setembro em áreas pertencentes ao bioma amazônico. Segundo os dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), as infrações ocorreram em Colniza e na vizinha Aripuanã. Ao todo, elas somam R$ 5 milhões.

Segundo a reportagem apurou, a multa de valor mais alto ocorreu na fazenda Leopardo, em Aripuanã. De acordo com o Ibama, foi destruída uma área de 427,7 hectares de floresta nativa da Amazônia, sem autorização e com uso de fogo, o que resultou em uma multa de R$ 3,2 milhões. A outra multa na cidade ocorreu em zona rural e foi de R$ 236 mil. Nesse caso, o candidato também foi enquadrado por desmatamento de floresta nativa, dessa vez por 47,2 hectares.

Por que isso importa?

  • A quantidade de queimadas em 2024 tem afetado a saúde de brasileiros em diversos estados e contribuído para a devastação de biomas como o Pantanal e a Amazônia.

  • Colniza é o município com mais focos de calor em Mato Grosso, que é o estado com mais focos neste ano.

Já na cidade em que concorre ao cargo de prefeito, Siwal foi penalizado duas vezes por desmatamento na estância Chuvisco. No caso mais grave, a descrição da infração mostra que foram aproximadamente 296 hectares desmatados, com claros indícios de que a área está sendo preparada para ser usada como pasto. “É uma área grande em uma região onde a atividade agropecuária vem se estabelecendo sem as devidas licenças necessárias”, diz a descrição da multa. A outra multa em Colniza, de R$ 394 mil, envolve explorar mais de 78 hectares de floresta nativa sem autorização.

A cara do criminoso diante de sua obra prima, a destruição da floresta amazônica.

Relatórios gerados pela Agência Pública por meio do portal de Consulta de Atuações Ambientais e Embargos do Ibama mostram que, além das quatro áreas onde atividades com possível dano ambiental foram proibidas, Siwal tem seu nome indicado como responsável em outras dez áreas, em Colniza e Aripuanã, entre 2018 e 2024, todas decorrentes de infrações por desmatamento. Duas áreas embargadas em 2022 ficam próximas ou no interior da reserva extrativista Guariba-Roosevelt. O local foi alvo de uma operação do Ibama entre julho e agosto de 2024, que buscou combater crimes ambientais.

Pública procurou Siwal através do PL de Mato Grosso, questionando qual a ligação do candidato com as fazendas e o que aconteceu com a propriedade e os animais que declarou nas eleições de 2016. Não houve resposta até o momento da publicação.

Candidato declarou fazenda de quase meio milhão em 2016

Apesar de aparecer como responsável por essas áreas nos autos de infração, não há registros de que Siwal seja dono dessas fazendas. A consulta de imóveis no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) do Incra não mostra o político como titular de terras de nome Chuvisco ou Leopardo. O mesmo acontece no Cadastro Ambiental Rural (CAR) das duas cidades.

Além das áreas embargadas pelo Ibama, Siwal tem ao menos seis outros embargos pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, em resposta a infrações ambientais como desmatamento em área preservada e corte de vegetação.

No portal do Divulgacand, que disponibiliza publicamente dados sobre receitas, despesas e outras informações das candidaturas, o candidato declarou apenas uma casa na rua das Pedras, no valor de R$ 150 mil – diferentemente da eleição de 2016, quando foi eleito vereador de Colniza. Naquele ano, Siwal tinha declarado uma propriedade rural no valor de R$ 450 mil com área aproximada de 246 hectares e 180 cabeças de gado no valor total de R$ 210 mil, além de um automóvel de R$ 50 mil.

Apoio de Bolsonaro e propostas para o agro

Em outubro de 2023, em entrevista para a Rádio Chapéu, do gabinete do deputado estadual Gilberto Cattani (PL-MT), Siwal foi apresentado como presidente do PL em Colniza. Nas redes sociais, ele se vende como “o candidato do Bolsonaro”, apesar de não ter registros ou fotos com o ex-presidente. Dentre as poucas postagens no instagram do candidato durante o período eleitoral, destaca-se um vídeo dos deputados federais Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Coronel Fernanda (PL-MT), em que os dois mostram apoio a Walzinho.

Nota da Redação:

Por obra e graça dos invisíveis, o marginal incendiário sofreu uma acachapante derrota em Colniza, conforme relata o G1. Hora de executar a dívida da multa e conduzir o piromaníaco à prisão, depois do devido processo legal.

 

 

 

 

 

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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