Brasil caminha rumo ao trilhão em investimento produtivo estrangeiro.

Beneficiado pela economia verde, país põe no radar a meta de US$ 1 trilhão em participação no IED

Por Diego Viana — Para o Valor, de São Paulo

A palavra mágica para reengrenar o desenvolvimento e atrair novos capitais para o Brasil é “powershoring”. O anglicismo, que vem sendo crescentemente empregado após a pandemia, designa a tendência de aplicar recursos em regiões do mundo com fácil acesso a energias limpas e renováveis. Nesse campo, o Brasil está em posição privilegiada, graças à sua matriz energética majoritariamente renovável, sobretudo na geração de eletricidade, e dá ao governo a esperança de ver a participação estrangeira no investimento produtivo alcançar a marca de US$ 1 trilhão.

 

“Não existe país melhor para o powershoring do que o Brasil. Não só por causa da matriz já existente, com as usinas hidrelétricas, eólicas e solares, mas também com as novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas agora”, afirma Morgan Doyle, gerente de países do Cone Sul do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “Com os biocombustíveis, o Brasil pode ser um grande polo para a aviação sustentável, por exemplo.”

Doyle foi um dos participantes do 7º Fórum Brasil de Investimentos, que reuniu representantes do governo, do setor privado e de organismos internacionais em São Paulo em outubro. Organizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e pelo BID, o evento enfatizou os potenciais do país em setores ligados à transição para a economia sustentável, com enfoque nas metas nacionais dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

A aposta no powershoring é apenas uma das dimensões da expectativa geral de que a transição econômica global seja a chave de um novo ciclo de desenvolvimento no Brasil. Mais especificamente, como enfatizou o vice-presidente de República e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, os mercados de baixo carbono e impacto ecológico estão entre as maiores prioridades das políticas que pretendem reverter o processo de desindustrialização que o país vem sofrendo desde a década de 1980, em particular o plano Nova Indústria Brasil.

Elementos como a descarbonização, o uso de materiais biodegradáveis e a recuperação de florestas com atividades bioeconômicas são repetidamente citados como trunfos brasileiros no posicionamento da economia mundial do século XXI.

Não existe país melhor para o powershoring do que o Brasil”

— Morgan Doyle

Outro grande trunfo é o perfil pacífico do país, de acordo com o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana. “Há muitos sinais de turbulência no mundo, como guerras e protecionismo. Diante de tantas incertezas, o Brasil é um porto seguro”, afirma.

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloízio Mercadante, bate na mesma tecla. “Somos um dos poucos países da ONU que se relacionam bem com todos os demais e isso é muito atraente para o investidor, porque representa estabilidade.”

Viana estima que se aproxima uma “era trilionária”, em que o estoque de investimento estrangeiro no país atingirá US$ 1 trilhão. Em sua projeção, o número deve ser alcançado em 2026. Atualmente, o estoque está em cerca de US$ 800 bilhões. “Só o que falta é recuperar o grau de investimento, que vai destravar muitas possibilidades.”

A principal novidade anunciada no evento é a criação de um portal no estilo “one stop shop”, ou seja, um espaço digital unificado em que as empresas interessadas em investir no Brasil podem resolver dúvidas, emitir licenças e realizar outras tarefas burocráticas. O portal se chamará “Janela Única de Investimentos do Brasil” e conta com um aporte inicial de US$ 400 mil do BID. Além da parceria com o Ministério do Desenvolvimento (MDIC), o banco também se propõe a firmar acordos com governos estaduais, a fim de desenvolver as competências necessárias para guiar os investidores estrangeiros. A entrada de capitais produtivos ainda está muito concentrada em poucos Estados, sobretudo São Paulo.

O Brasil deve se tornar um dos 4 maiores hubs de data centers no mundo”

— Marcos Peigo

Outra aposta é o modelo de “blended finance” do programa Eco Invest, pelo qual o governo pretende atrair capital privado nacional e estrangeiro para investimentos verdes. De acordo com Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional, o primeiro leilão do programa alavancou R$ 7 bilhões de recursos públicos e R$ 35 bilhões privados. Luciana Nicola, diretora de relações institucionais e sustentabilidade do Itaú Unibanco, acrescenta que as necessidades de financiamento da economia sustentável são calculadas na casa dos trilhões de reais e só podem ser atingidas por meio da combinação entre instrumentos públicos e privados. “A parceria permite olhar projeto a projeto, principalmente em áreas ainda pouco avançadas no Brasil, como a economia circular e a gestão de resíduos. Não tem transição sem avançar nesses campos”, afirma.

Em vários painéis do encontro foi abordado o tema da recuperação de terras degradadas, tópico da próxima etapa do programa. Segundo o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, a soma desses territórios no Brasil é, hoje, semelhante à daqueles que estão gerando produtos agropecuários. Em outras palavras, é possível expandir ainda mais as safras sem avançar sobre áreas protegidas.

Segundo Nicola, do Itaú, há demanda de mais de R$ 10 bilhões para investir na recuperação das áreas degradadas, que garantem a segurança alimentar e reforçam a captura do carbono no solo. “Mas é importante que essas iniciativas sejam feitas em parceria com os pequenos produtores, que produzem alimentos e preservam a vegetação. O agronegócio poderia ser um emissor negativo de carbono.”

Outra aposta é o combustível de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês). Palmeiras como a macaúba têm alta concentração energética e são cultivadas na Bahia e no norte de Minas Gerais, lembra Marcelo Soares, head do HSBC Corporate Banking no Brasil. Ricardo Mussa, CEO da Raízen, acrescenta que a biomassa ainda é mal aproveitada no Brasil. Com a eletrificação das usinas, o bagaço da cana-de-açúcar poderá ser empregado na produção de etanol por meio de eletrólise, aumentando em 50% a produção, em sua estimativa. Esse caminho também seria capaz de expandir a produção de SAF e diesel verde (HVO).

O Brasil tem potencial de se tornar um exportador indireto de energia também em setores digitais. Essa é a aposta de Tânia Cosentino, CEO da Microsoft Brasil, e Marcos Peigo, co-fundador da Scala Data Centers. A Microsoft planeja investir R$ 15 bilhões nos próximos três anos. “Tenho certeza de que o Brasil pode se tornar um líder em inteligência artificial verde”, diz Cosentino. Peigo trabalha com números ainda maiores. “Com a energia e o mercado consumidor que tem, além de uma boa regulamentação que está sendo estudada agora no Congresso, o Brasil deve se tornar um dos quatro maiores hubs de data centers no mundo. Isso pode se traduzir em investimentos de US$ 200 bilhões em dez anos.”

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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