Artigo de Marcos Augusto Gonçalves, na Folha
Entrevista de empresário à Folha expõe espírito reacionário que pode se aproveitar da impopularidade e de erros do petista.
A entrevista do empresário Ricardo Faria, 50, o assim chamado “rei do ovo”, publicada por esta Folha no último dia 15, foi um serviço prestado à exposição da estreiteza ordinária e triunfante de um tipo de empreendedor ornado com plumagem liberal que se compraz em papagaiar preconceitos contra os mais pobres, espírito antissocial e falsidades socioeconômicas.
Não se discute que possa ser esperto e muito bem-sucedido em sua atividade. Mantém residência fiscal no paraíso uruguaio e a sede de sua empresa num equivalente europeu, Luxemburgo.
O cartão de visitas das patacoadas proferidas pelo empreendedor foi a declaração a respeito do Bolsa Família. O benefício seria um empecilho à contratação de mão de obra no Brasil, uma vez que “as pessoas estão viciadas” e “presas” ao programa, o que impediria levá-las a “treinar e conseguir dar uma vida melhor”.
Em breve texto publicado depois da entrevista, o jornalista Fernando Canzian separou a gema da clara e colocou as coisas em prato limpo: a declaração de que as os mais pobres estariam viciados em Bolsa Família e não querem trabalhar “não encontra respaldo nos números do mercado de trabalho”.
Mesmo com aumento no valor do benefício, o desemprego hoje é menor do que há dez anos. Além disso, explica o texto, “a análise por quintos da distribuição de renda domiciliar per capita entre 2019 e 2023 revela que o desemprego caiu em todas as faixas, mas sobretudo entre os mais pobres”. De quebra, a renda do trabalho dos ocupados também subiu em todas as faixas, sobretudo nas de menor poder aquisitivo.
Desnecessário dizer que o “rei do ovo” quer reduzir o Estado ao mínimo, mas precisa de gente lá para ajudá-lo com as proverbiais facilidades que setores empresariais usufruem nesse inferno fiscal brasileiro. Assim, disse que investe em Bolsonaro e similares, mas achou que pegaria mal comentar uma reunião fechada que teve com Lula.
Não resta dúvida de que o governo herdou e criou problemas na política de ajuste das contas públicas. Vai se transformando em erro político cada vez mais exasperante a convicção de Lula, em crise de popularidade, de que é melhor brigar com “a elite” e manter gastos mal calculados, sem sustentação e com reflexos péssimos nos juros. Não adianta repetir que se todos os benefícios fiscais fossem extintos e as emendas parlamentares, reduzidas, seria possível melhorar as coisas.
Isso não vai acontecer, talvez em dose minúscula. Falta realismo político. A vitória contra a ameaça da extrema direita, ainda viva e forte, será apertada em 2026, se vier. Para alcançá-la seria prudente conquistar alguma boa vontade no campo empresarial e do mercado. Lula, porém, mostra-se defasado, insiste em anacronismos e lida com horizonte curto.
Sim, o Congresso é torpe e o antipetismo grassa. Nesse quadro, a teimosia fiscal do petista, guardadas as proporções, pode ser, em termos de efeito eleitoral negativo, a sua pandemia, roubando-lhe um apoio não tão largo, mas que contribuiria para uma vitória em 2026.
Os reis do ovo da serpente estão aí, a propagar um palavrório tosco que se anuncia como ideais liberais em economia, mas vem com um pacote político de apoio a tendências e personagens reacionários e antidemocráticos.
Da Folha de São Paulo.
Como dissemos ontem, num grupo que debate política, a conspiração contra o Governo Lula tem tamanhos desproporcionais com o golpe parlamentar que apeou Dilma Rousseff do poder. Estão reunidos agora os farialimers, a banca rentista e os fundos abutres, a direitona tosca e fundamentalista, o Banco Central, o Partido da Imprensa Golpista (PIG), o Parlamento corrupto e uma grande ala de ressentidos que desejava o “AI 5” e a intervenção militar. Apelaram, então, até pro esotérico, rezando e cantando para pneus e procurando se comunicar com extra-terrestres, sem prejuízo da instalação de uma ABIN paralela.
A parceria financiadora do golpe ainda está intacta, desejando a anistia das dívidas e dos chefetes covardes da tentativa de golpe. Acreditam que a maioria no Parlamento desembocará numa ampla, geral e irrestrita anistia, mesmo que percam as eleições majoritárias. Não acreditam na separação dos poderes e no sistema de freios e contrapesos e desejam se afastar dos preceitos básicos da Constituição Libertária de 1988, tão duramente elaborada, depois de 21 anos de ditadura.
O País se encontra de novo numa encruzilhada deserta da democracia. E só a resistência das camadas mais vulneráveis da Nação vai evitar que o País se assemelhe a uma Argentina, agora às portas de um intervenção do FMI e dos yankees, ou da própria confusão institucional que se estabeleceu na Matriz, os Estados Unidos da América.

