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Imagine pagar R$ 500 por um curso online que promete te ensinar a “se posicionar como cristão” na política, mas, na verdade, te conduz por um caminho de ideias radicais, alinhadas à extrema direita.
Agora, imagine que esse curso é promovido por Nikolas Ferreira, o deputado federal mais votado do Brasil em 2022, e que sua empresa, a Destra Cursos LTDA, gastou quase R$ 750 mil em anúncios no Facebook e Instagram para atrair você.
Essa é a história que uma investigação do Intercept Brasil trouxe à tona, e ela levanta perguntas sérias sobre como fé, política e dinheiro se misturam nos bastidores do poder.
A Destra Cursos, fundada em 2020, não é apenas uma plataforma de ensino online. Segundo o jornalista Paulo Motoryn, autor da matéria, ela funciona como um “funil de radicalização”, usando a religião como isca para atrair jovens cristãos e transformá-los em militantes de uma agenda ultraconservadora.
Entre abril de 2024 e abril de 2025, a empresa investiu R$ 745,3 mil em mais de 3.300 anúncios na Meta, dona do Instagram e Facebook, para promover seus cursos. O resultado? Uma receita estimada em mais de R$ 30 milhões, considerando os 60 mil alunos declarados pela empresa e o preço de R$ 500 por assinatura.
Mas o que esses cursos ensinam? Motoryn, que pagou R$ 497 para acessar a plataforma, descreve uma estrutura dividida em módulos como “Formação Destra”, “Destra Originais” e “Destra Front”, este último liderado pelo próprio Nikolas.
O conteúdo mistura pregações religiosas com discursos que apresentam a política como uma “guerra espiritual” contra o feminismo, o socialismo e outros “inimigos da família”.
A Destra, criada durante a campanha municipal de 2020, já prestou serviços de marketing para aliados de Nikolas, como Bruno Engler, que pagou R$ 68 mil à empresa. A plataforma, reformulada em 2022, se tornou um “streaming ideológico”, com Nikolas como garoto-propaganda e professor, ensinando jovens a “destruir narrativas da esquerda”.
A estratégia de Nikolas não é só empresarial, é política. Com 16,9 milhões de seguidores no Instagram e 4,6 milhões no X, ele usa sua influência para promover a Destra enquanto fortalece sua base bolsonarista.
Só em 30 dias, a Destra gastou R$ 102 mil em anúncios para o curso “O Cristão e a Política”, hospedado em um site com o nome do deputado.
Essa mistura de mandato parlamentar e negócios privados já gerou consequências: outra reportagem do Intercept Brasil inspirou o projeto de lei 672/2024, apelidado de “Lei Anti-Nikolas”, que proíbe deputados de lucrarem com redes sociais durante o mandato.
Por outro lado, é importante esclarecer que não há evidências de que os R$ 750 mil investidos na Meta sejam dinheiro público, como algumas postagens nas redes sociais sugeriram.
O AFP Checamos confirmou que a investigação do Intercept não faz essa alegação, e o próprio Motoryn negou ter investigado a origem dos recursos. Ainda assim, a falta de transparência de Nikolas, que declarou “profissão não informada” na Câmara, alimenta suspeitas sobre como ele concilia seu papel de deputado com o de empresário.
A Destra, com sede em Goiânia e sócios como Ivens Henrique Grahl Ribeiro e Arthur Torres de Assis, opera em um mercado lucrativo, mas controverso. Seus cursos, com nomes como “For The Nations” (que ensina inglês com vocabulário cristão) e o futuro “Le Circle” (que remete a um grupo ultraconservador europeu), mostram uma ambição global de mobilizar cristãos conservadores.
Mas, para críticos, o que Nikolas vende não é só educação: é uma narrativa que transforma fé em arma política, lucrando enquanto polariza.
Essa história não é só sobre Nikolas ou a Destra. Ela escancara como as redes sociais, financiadas por big techs como a Meta, podem amplificar discursos radicais em troca de dinheiro.
E, enquanto a extrema direita se organiza para 2026, como o Intercept Brasil alerta, fica o questionamento: até onde vai a linha entre liberdade de expressão, negócio e manipulação?
Do Urbs Magna.
Autor: jornaloexpresso
Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril
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