Veríssimo, o gênio, sobe para o céu dos socialistas.

Luiz Fernando enfrentando a sua Stúdio 44 na redação de ZH

Luís Fernando Veríssimo era uma pessoa muito econômica. Falava pouco, fazia gestos discretos e até digitava as barulhentas Olivetti Studio 44 da redação sem alarde. Escrevia uma frase e contemplava o papel, as laudas de papel jornal que usávamos na redação de Zero Hora, com um rigor parnasiano em busca da palavra certa. 

Entrou junto comigo na ZH, eu repórter, segundanista na faculdade; ele redator ou copy desk, como se dizia na época. Ele entrado nos 30 anos, eu um garoto recém completando os 20. Fomos colegas durante anos na ZH e não trocamos mais que meia-dúzia de palavras. Falava baixinho, quase inaudível.

Vinha até a minha mesa e pedia licença para destacar duas laudas de meu bloco, que deveria ter mais de 200 páginas, colados com uma tinta vermelha que as mantinha unidas.

Nessa época eu já era redator e tinha a missão de passar pelo meu crivo as indecifráveis matérias das editorias de geral, economia, polícia, internacional e nacional. Com dois dedos indicava que precisava de duas laudas para escrever a sua crônica diária, a mais lida pelos seus próprios colegas. Luiz Fernando era uma presença quase espectral na Redação. E todos respeitavam o seu momento criativo, apesar do ruído ensurdecedor ao redor, de quase uma centena de máquinas de escrever barulhentas.

Eu, cruzaltense, conterrâneo de seu pai, era amigo de seu primo, Luiz Carlos Veríssimo, filho de Ênio Veríssimo, também pessoas muito simpáticas e amistosas.

Era colorado doente, assim como seus amigos Pilla Vares e Marco Aurélio Garcia, intelectuais socialistas. também colegas de redação, e só com eles conversava brevemente na redação.

Era tão econômico que até as suas famosas tirinhas, da série As Cobras, tinham poucos traços e sempre contavam uma grande história:

#as cobras from Depósito de Tirinhas

Luís Fernando hoje se transforma na minha mais plácida lembrança dos perigosos anos 60-70, onde colegas da redação costumavam ser conduzidos por homens de preto, a serviço da mais cruenta ditadura. A redação de ZH, na época, era uma fauna completa de feras, entre as quais comunistas mal humorados e colaboradores do regime. E certamente a mais mansa e pacífica era Luís Fernando.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

Uma consideração sobre “Veríssimo, o gênio, sobe para o céu dos socialistas.”

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