Jards Macalé nunca aceitou rótulos. Sua morte, confirmada nesta segunda-feira (17), encerra uma trajetória de 60 anos que nunca coube numa prateleira.
Ele ganhou a fama de “maldito” da MPB, ao lado de Luiz Melodia, Jorge Mautner e Itamar Assumpção, por não se render aos desígnios das gravadoras.
“Venci muita coisa para chegar aos 80. Venci o ódio, a indiferença, a tentativa de exclusão, a ditadura, a pandemia. Eu era dito maldito, taxado de várias coisas. Atualmente, sou o irreverente. Chega de rótulos, sou só um músico que ama a música brasileira, ama o Brasil e ama ser brasileiro”, contou em 2023, em entrevista ao jornal “O tempo”.
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A história na música e as lutas pessoais de Jards Macalé, que morreu nesta segunda-feira (17), aos 82 anos, vítima de parada cardíaca, foram contadas no documentário “Jards Macalé – Um morcego na porta principal”, lançado em 2008.
O temperamento forte do músico foi mostrado no filme, em histórias que entrevistados que conviveram com o músico contaram, como Dori Caymmi.
Ao modificar um acorde numa música de Jards Macalé contra sua vontade, Dori foi surpreendido por um Macalé muito enraivecido, que entrou numa lotação onde ele estava e gritou para todos os passageiros ouvirem que ele o “tinha traído com aquela mulher”, como se os dois tivessem um romance.
O filme, que ganhou o prêmio especial do júri do Festival do Rio de 2008, também contou como ele foi expulso de quatro colégios. O músico ainda mostrou fotos de álbuns de família e trechos de filmes em Super-8 do tempo em que morou em Londres com Caetano Veloso.
Jards Macalé foi preso na ditadura militar
Jards esteve na maior parte dos momentos e lugares onde artistas confrontavam a ditadura, como o show “Opinião”, em 1964. Na ocasião, leu em público a Declaração dos Direitos Humanos, que mencionava tortura e outros temas proibidos pela censura, o museu onde estava, foi cercado pela polícia.
Macalé ainda seria preso, por sete horas, depois de um show em Vitória (ES), do qual participou o veterano sambista Moreira da Silva. Uma prisão que teve momentos hilariantes, diante das tentativas de Moreira de livrar a cara do amigo, aproveitando o fato de que tinha fãs entre os policiais.
