Carnaval do Futuro: Prefeitura de Barreiras “viaja no tempo” e oficializa folia para o ano de 2926.

Por  Luís Carlos Nunes, no portal Caso de Política

Barreiras Folia 2026 24012026

Em documentos oficiais publicados com fé pública, a prefeitura credenciou empresas de trios elétricos para atuar no inédito, ousado e longevíssimo “Barreiras Folia 2926”. Não se trata de erro de leitura, ironia editorial ou provocação carnavalesca: é erro institucional carimbado, assinado e publicado.

A falha técnica, que mais parece roteiro descartado de ficção científica, aparece com admirável persistência nas páginas 5, 6 e 7 do Diário Oficial. Nas Atas de Credenciamento de empresas como Leonardo Feitosa de Castro Ltda, Maria Eduarda Ribeiro dos Santos e Som di Truck Eventos e Notícias Ltda, a Comissão de Credenciamento da Secretaria de Cultura e Turismo atesta que os veículos estão aptos para desfilar entre os dias 13 e 17 de fevereiro do ano de 2926. O erro se repete com tanta convicção que deixa de ser acidente e passa a parecer método.

O contraste entre o discurso e a digitação

Enquanto o secretário de Cultura, Gulla, e o vice-prefeito Túlio Viana detalhavam à imprensa um carnaval “moderno”, “integrado” e “bem planejado” para 2026, os digitadores da prefeitura já aparentavam viver em uma realidade paralela, talvez com carros voadores, colonização de Marte e trios elétricos movidos a energia quântica.

A gafe documental escancara uma fragilidade constrangedora: a gestão que se vende como “Capital do Presente e do Futuro” decidiu levar o slogan ao pé da letra – ignorando o detalhe inconveniente de que o cidadão barreirense ainda pretende pular o carnaval nesta encarnação.

O slogan “Chama que Contagia”, aliás, parece ter contaminado também a redação oficial com uma febre futurista. A “precisão” das atas é tamanha que especifica placas, chassis e dados técnicos de veículos que, até 2926, provavelmente já terão sido desmontados, reciclados ou exibidos em museus intergalácticos de arqueologia automotiva.

A festa no mundo real (ou quase)

No lançamento oficial realizado na quinta-feira (22), o tom era de celebração pelo impacto econômico do evento e pela projeção de Barreiras como polo do MATOPIBA. Foram anunciadas mais de 40 atrações, incluindo Xanddy Harmonia, Zé Neto & Cristiano e Igor Kannário.

O prefeito Otoniel Teixeira destacou o carnaval como “vetor de aquecimento da economia”, mas deixou escapar um pequeno detalhe jurídico: segundo o Diário Oficial do próprio município, os trios elétricos só estariam legalmente autorizados a ligar o som em 2926.

Diante disso, empresários e foliões agora vivem um dilema cruel: comprar o abadá para 2026 ou já investir em criogenia, cápsula do tempo ou reencarnação assistida para garantir presença no evento oficialmente reconhecido pela administração municipal.

Afinal, conforme o rigor documental das atas assinadas pelos membros da comissão – André Cordeiro Vasco Miranda, Naggila Kalliny Rodrigues dos Santos e Cristiano Barbosa da Silva -, a validade legal do carnaval está assegurada com tranquilidade… para daqui a 900 anos.

Estrutura e vocações (terrestres, por enquanto)

No plano terrestre – aquele ainda preso ao calendário humano de 2026 -, a prefeitura anunciou três circuitos: Zé de Hermes (cultural), Aguinaldo Pereira (trios) e Rio de Ondas (ecológico).

Resta saber se, até a chegada do carnaval oficialmente autorizado de 2926, o Rio de Ondas ainda terá água, se os blocos tradicionais do Centro Histórico ainda existirão ou se tudo isso já terá sido devidamente catalogado como patrimônio arqueológico da antiga civilização barreirense.

O calendário confirma: erraram o século, não os dias

Para surpresa geral, o calendário gregoriano coopera com a ficção administrativa. O mês de fevereiro de 2926 segue seu curso tradicional, e as datas oficialmente publicadas caem exatamente assim:

13 de fevereiro de 2926 – quarta-feira de CINZAS

14 de fevereiro de 2926 – quinta-feira

15 de fevereiro de 2926 – sexta-feira

16 de fevereiro de 2926 – sábado

17 de fevereiro de 2926 – domingo

O detalhe inovador – e possivelmente revolucionário para a história da folia – é que o carnaval de Barreiras passaria a começar oficialmente na quarta-feira de cinzas, rompendo com séculos de tradição cultural, religiosa e calendárica. Um avanço civilizatório que só poderia mesmo surgir… em 2926.

Por que a publicação não tem valor legal (nem nesta vida)

Apesar do entusiasmo futurista da Prefeitura de Barreiras, o erro material registrado no Diário Oficial empurra o ato administrativo direto para o limbo jurídico – aquele mesmo onde repousam licitações impossíveis e promessas de campanha eterna. Ao oficializar um carnaval para o ano de 2926, o documento erra um detalhe elementar: o tempo.

No Direito Administrativo, atos públicos precisam existir no mundo real para produzir efeitos. Quando a própria publicação desloca o evento nove séculos à frente, ela se torna juridicamente inexequível. Não há como empenhar recursos, credenciar trios elétricos ou fiscalizar contratos em um calendário que sequer foi inventado.

Traduzindo para o barreirense comum: ninguém pode ser legalmente contratado, pago ou cobrado por um evento que só ocorrerá quando o Brasil talvez já seja uma federação galáctica, ou invadido por Trump passando a ser o 51º estado estadunidense – ou quando o carnaval tiver sido substituído por festas holográficas com DJ robô.

Em linguagem técnica – e com um mínimo de apego à realidade – o ato publicado padece do que o Direito chamaria de inexistência jurídica por excesso de imaginação. Falta-lhe um requisito básico: acontecer antes do fim da civilização conhecida. Sem retificação formal no Diário Oficial, o documento não produz efeitos, não obriga ninguém e não autoriza nada. É um ato administrativo válido apenas no multiverso, inaplicável no foro terrestre de Barreiras.

 

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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