Justiça ordena que Prefeitura de Barreiras desocupe prédio ligado ao irmão do prefeito Otoniel em 30 dias

Otoniel Teixeira nepotismo 10022026

Decisão do juiz Maurício Alvares Barra aponta desvio de princípios e impõe multa diária; investigação do portal Caso de Política já havia flagrado irregularidades no CRAS III

Por Luís Carlos Nunes, em Caso de Política

A 1ª Vara de Fazenda Pública de Barreiras determinou, em decisão proferida no dia 4 de fevereiro de 2026, que a Prefeitura de Barreiras desocupe imediatamente o imóvel onde funciona o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS III), localizado no bairro São Pedro. O edifício pertence a Ivan Nascimento Teixeira, irmão do atual prefeito Otoniel Nascimento Teixeira.

Leia a íntegra da decisão

A decisão atende a um pedido de tutela de urgência em Ação Popular movida pelo vereador João Felipe (PCdoB), que comprovou sua legitimidade apresentando prova de capacidade eleitoral e exercício do cargo legislativo. O juiz Maurício Alvares Barra estipulou um prazo de 30 dias para a desocupação, sob pena de multa diária de até R$ 100 mil, valor que será revertido ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos.

Irregularidades e “apagão” na transparência

O caso já vinha sendo acompanhado pela imprensa regional. Em 15 de janeiro de 2026, o portal Caso de Política revelou que a Prefeitura havia firmado uma “rescisão amigável” do contrato nº 214/2023 em 17 de janeiro de 2025, mas o CRAS III continuava funcionando no local. A reportagem evidenciou o que foi classificado como “manobra no papel”, levantando suspeitas de favorecimento a familiares do prefeito.

Além da ocupação irregular, o portal denunciou um apagão de dados no Portal da Transparência de Barreiras, dificultando o acesso a documentos oficiais. O cruzamento de informações com o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA) revelou que, entre 2018 e 2024, a família Teixeira recebeu R$ 281.233,27 em aluguéis pagos pelo erário, um indicativo de que o uso continuado do imóvel poderia gerar prejuízo direto ao patrimônio público.

“CRAS III em funcionamento no prédio de Ivan Nascimento Teixeira mesmo após rescisão oficial. Entre 2018 e 2024, a família Teixeira recebeu R$ 281.233,27 em aluguéis pagos pelo erário; a decisão judicial aponta que a permanência do imóvel sem contrato válido configura risco financeiro e desvirtua os princípios da Administração Pública

A análise investigativa indica que a situação não se trata de uma falha administrativa isolada, mas de um padrão de risco financeiro e legal que afeta a governança local. O cenário evidencia desalinhamento entre o uso de recursos públicos e o respeito às normas de transparência, reforçando a importância do acompanhamento por órgãos de controle e pela sociedade civil.

Fundamentação jurídica

O juiz Maurício Alvares Barra destacou que a ocupação do imóvel sem contrato válido gera risco financeiro imediato à administração pública. Em trecho da decisão:

“A manutenção informal do uso de um bem particular por um ente público, após a rescisão de um contrato, carece de amparo legal e, em princípio, gera obrigação de indenização, representando potencial prejuízo ao erário.”

O magistrado ressaltou ainda que a conduta fere a Lei nº 14.133/2021, que proíbe participação de parentes de agentes públicos em contratações para evitar conflitos de interesse. Segundo ele, a tolerância com essa situação configura desvirtuamento dos princípios da Administração Pública – impessoalidade, moralidade e legalidade, previstos no artigo 37 da Constituição Federal.

Do ponto de vista jornalístico, a decisão evidencia que a permissividade com irregularidades cria um risco sistêmico, prejudicando a confiança da população na gestão pública e reforçando a necessidade de controle social ativo.

Próximos passos

A decisão judicial determina a citação dos réus – o Município de Barreiras, o prefeito Otoniel Nascimento Teixeira e seu irmão Ivan Nascimento Teixeira – para apresentação de contestação em 20 dias. O Ministério Público também foi intimado para acompanhar o caso. A defesa do vereador João Felipe é conduzida por profissionais jurídicos especializados que acompanham todas as etapas da ação.

O magistrado classificou a situação como “aparente irregularidade e risco financeiro”, agravada pelo fato de o locador ser parente direto do chefe do Executivo, reforçando a necessidade de proteção imediata ao interesse público e ao patrimônio da cidade.

Em análise final, o caso de Barreiras representa um alerta sobre os impactos do nepotismo e do descumprimento de normas legais na administração municipal. O acompanhamento jornalístico investigativo evidencia não apenas os fatos, mas também os riscos de prejuízo contínuo ao erário, servindo como referência para futuras ações de controle e fiscalização em outras cidades.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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