Setor ainda defende nome ‘mais moderado’ à Presidência, mesmo após nova rodada de pesquisas eleitorais em que o senador aparece consolidado nas intenções de voto.
O agronegócio está resistindo a aderir à potencial candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A expectativa do setor ainda é por um nome “mais moderado” da centro-direita, mesmo após nova rodada de pesquisas eleitorais em que Flávio aparece consolidado. A percepção é compartilhada tanto por parlamentares ligados ao setor produtivo quanto por representantes e lideranças do agronegócio, do campo à agroindústria e aos grandes exportadores.
O setor, que foi um dos principais segmentos econômicos de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, agora mostra cautela em entrar “de cabeça” na campanha do filho Flávio.
Na eleição de 2022, Bolsonaro superou Lula em 77 dos 100 municípios mais ricos do agronegócio, além de obter manifestação declarada de uma série de entidades e empresários do agronegócio, que lideraram as doações de campanha do ex-presidente. No pleito deste ano, o setor pode ser novamente o fiel da balança entre uma candidatura de direita e a candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As ressalvas do setor quanto à candidatura de Flávio vão desde dúvidas se a campanha é competitiva, com capacidade de vencer o presidente Lula, até questionamentos sobre a real “moderação” que Flávio diz ter. Um parlamentar ligado ao agronegócio, ouvido sob reserva, disse que o receio do setor é a reeleição do PT e, por isso, ainda existe a expectativa de uma candidatura que una a direita.
Para uma ala do setor, as pesquisas recentes mostram que há espaço para uma candidatura unificada de direita. Segundo o parlamentar, Flávio vem ganhando apoio do mercado financeiro e está consolidando um caminho do bolsonarismo, mas ainda está aquém de quanto um candidato de centro-direita pode avançar.
Interlocutores do setor apontam incertezas quanto ao pragmatismo a ser possivelmente adotado pelo senador nas relações bilaterais e no comércio exterior. Há também receio de ruptura na continuidade de estratégias de políticas públicas adotadas no governo Lula, como incentivo aos biocombustíveis e abertura de mercados para produtos do agronegócio nacional.
Pelo menos dois nomes do setor produtivo, participantes do governo Bolsonaro com experiência em articulação com o Congresso, não aceitaram colaborar com o programa de governo de Flávio, segundo relatos ouvidos pela reportagem.
Alguns nomes do time de conselheiros de Flávio – como o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida, e as reiteradas menções ao seu irmão Eduardo Bolsonaro como possível ministro das Relações Exteriores – também afastam o setor agropecuário. Um interlocutor do setor de biocombustíveis afirmou que o ex-ministro é conhecido pela “posição refratária” aos combustíveis renováveis e que o período dele à frente da pasta foi de “pesadelo” para a indústria, lembrando o congelamento da mistura obrigatória de biocombustíveis aos óleos fósseis durante a gestão Bolsonaro.
Quanto a Eduardo, cotado para ser eventual chanceler de Flávio, o setor menciona entre os temores a atuação do ex-deputado na escalada tarifária de Donald Trump sobre o Brasil e o desgaste na relação entre Brasil e China, principal importador de produtos agropecuários, durante a gestão Bolsonaro. Um exportador ouvido pela reportagem afirmou que o momento mais conturbado na relação Brasil-China foi no governo Bolsonaro.
Entre os nomes mencionados por lideranças do agronegócio como capazes de unificar a direita e conquistar apoio majoritário do setor estão o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o governador do Paraná, Ratinho Junior, pré-candidato pelo PSD. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, igualmente pré-candidato pelo PSD, também é bem avaliado pelo setor agropecuário, impulsionado pela forte aprovação de sua gestão no Estado. Apesar disso, é apontado como um nome de baixa popularidade em âmbito nacional.
Dois cenários são apontados pelos representantes do agro nas eleições deste ano. Em caso de confirmação da candidatura de Flávio, o segmento produtor tende a aderir à sua campanha, enquanto empresários agroindustriais e exportadores devem manter um apoio tímido à reeleição de Lula, repetindo a divisão vista em 2022. Um experiente parlamentar afirmou que o agro mais dinâmico deve seguir com Lula, enquanto o mais tradicional e mais radical, com Flávio.
Já em caso de uma candidatura da terceira via, com Tarcísio e Ratinho entre os citados, a tendência é de migração quase majoritária do setor. Um executivo do setor exportador afirmou que se houver terceira via unificada em uma campanha de centro, o agro empresarial, focado em negócios, mais pragmático e menos ideológico, vai apoiar fielmente este nome em detrimento de Lula.
Apesar de o governo Lula ter buscado uma reaproximação, a chamada reconstrução de pontes com o agronegócio e de anunciar recordes de investimentos no setor, temas como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tentativas de aumento de impostos ligados à atividade agropecuária e a demarcação de terras indígenas mantêm o setor distante da sua reeleição.
Procurada, a equipe do senador Flávio Bolsonaro não respondeu até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Chapa Tarcísio-Tereza é ‘sonho de consumo’ para agro
O chefe do Executivo paulista é citado como o “favorito” para o agronegócio. Lideranças do setor avaliam que Tarcísio seria o único nome capaz de angariar apoio horizontal do setor, de produtores a exportadores e indústria.
Nomes de peso da bancada agropecuária já acenaram ao governador paulista que não descartaram a sua candidatura, apesar das consideradas “chances remotas”.
Nos bastidores, a interpretação é que o jogo permanece aberto, mas fortemente condicionado à vontade de Bolsonaro, que segue como fiador, e potencial veto, das candidaturas no seu campo político. Interlocutores ouvidos pelo Estadão/Broadcast dizem nutrir a expectativa de que uma possível prisão domiciliar de Bolsonaro “possa mudar o cenário”.

