A República da Desinformação e o reino das fake news

Por Sérgio Alarcon*

Existe um método político degradante que já vimos funcionar no Brasil – e que continua sendo usado. Ele é simples: multiplicar suspeitas até que a suspeita vire verdade social, mesmo quando não existe prova concreta.

Funciona assim.

Primeiro aparece um vazamento, uma “informação de bastidor”, uma hipótese levantada por “fontes”. Muitas vezes o processo está em sigilo, o que significa que ninguém pode verificar nada. Ainda assim, a manchete surge: “PF avalia prisão”, “investigação pode avançar”, “delegados defendem medida dura”.

Note o truque: não há fato. Há apenas a possibilidade de um fato.

Mas a possibilidade vira notícia. E a notícia vira narrativa.

Foi exatamente assim que se consolidou, durante anos, um ambiente de acusação permanente em torno da operação criminosa e impune chamada Operação Lava Jato – um dos maiores crimes já cometidos contra o Brasil e os brasileiros. Na Lava Jato eram comuns os vazamentos seletivos, as hipóteses apresentadas como fatos políticos e uma cobertura midiática que frequentemente transformava suspeita em culpa presumida. Com sonoplastia igual à dos vídeos infames do Chupetinha (esse neofascista não existe à toa).

O resultado foi a criação de um tribunal paralelo: o tribunal da opinião pública.

Nesse tribunal, o processo não precisa terminar. A acusação já cumpriu sua função quando consegue produzir dano nas reputações e deslegitimação política.

Esse mecanismo também dialoga com outra técnica amplamente usada na política desde a infame eleição de 2018: acusar permanentemente o adversário para encobrir ou relativizar os próprios problemas.

Quando o governo Lula descobriu a corrupção no INSS – que governos como o do golpista Temer e do presidiário também golpista Jair ajudaram a transformar em negócio empresarial – a turma ligada à organização criminosa chefiada pelo presidiário citado correu para criar a farsa de uma CPMI.

É uma estratégia recorrente dos lumpesinos do Congresso: produzir uma torrente contínua de acusações, teorias e escândalos narrativos. Essa a função, por exemplo, de terem colocado Lulinha no meio dessa barafunda. Quando tudo vira escândalo, o efeito é a confusão. E, quando a confusão se instala, o público passa a acreditar que “todos são iguais”.

É uma forma eficaz de dissolver responsabilidades.

O problema é que essa engrenagem – vazamento, manchete especulativa, acusação repetida – não destrói apenas reputações individuais. Ela corrói algo maior: a própria confiança pública nas instituições. E minar as instituições é exatamente o interesse de quem quer um golpe.

Não tenho dúvidas de que estamos em meio a mais uma tentativa de golpe. Talvez motivada pelo dedo no vespeiro que significa atacar não apenas os bozistas no INSS, mas também os laços que ligam o sistema financeiro ao crime organizado.

E quando falo em crime organizado não falo em pés-rapados como o Comando Vermelho. Falo dos capitalistas: os donos dos meios de produção dos mercados ilegais – do mercado de drogas ao mercado de lavagem de dinheiro, armas e contrabando.

É esse mesmo mercado que também produz figuras estapafúrdias como esses politiqueiros defensores do esfacelamento institucional – como Chupetinha ou Flávio Rachadinha.

É claro que investigações precisam existir. Crimes precisam ser apurados. Isso é básico em qualquer democracia.

Mas investigação não é espetáculo, e hipótese não é prova. Aliás, esse tipo de espetacularização deveria ser considerado crime desde a Lava Jato, que – volto a dizer – continua impune.

Quando a suspeita passa a ser tratada como notícia definitiva e quando narrativas são fabricadas antes dos fatos, o que se produz não é jornalismo investigativo. É outra coisa: uma máquina de suspeição permanente que serve como arma de assalto.

Pois é disso que se trata: querem assaltar nossas carteiras.

Uma democracia que vive permanentemente sob suspeita fabricada acaba se tornando refém exatamente daqueles que mais se beneficiam da confusão: os bandidos.

Então imaginem o que será de nós se esse novo golpe for bem-sucedido – e uma figura como Rachadinha se tornar presidente da República.
A cagada será homérica.

E com Chupetinha como ministro da Propaganda… assessorado pelos lavajatistas da Globo… de Malu a Vladimir…

Em poucos meses passaremos da República Federativa à ditadura do lumpesinato, onde a pilhagem vira política de Estado e, de cidadãos, nos
tornaremos ovelhas a serem tosquiadas ad infinitum.

*Sergio Alarcon é Doutor em Ciências na área de Saúde Pública (sub área de Políticas Públicas) pela ENSP/Fiocruz (2008). Concluiu o Mestrado em Saúde Pública (sub área de Gestão e Planejamento de Serviços e Sistemas de Saúde) pela Fundação Oswaldo Cruz em 2002.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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