China está desenvolvendo rações fermentadas com menor utilização de soja.

China conclui fazenda vertical mais alta do mundo para suínosCriatórios verticais de suínos na China.

A China importa mais de 50 bilhões de dólares em soja por ano mas agora usa ração fermentada que reduz pela metade a necessidade do grão na suinocultura e se a meta de redução de 15% da ração industrial até 2030 se confirmar as importações de soja podem cair até 6,3%, com impacto direto no Brasil e nos EUA.

A China é o maior importador mundial de soja, com compras que superam US$ 50 bilhões por ano e cerca de 80% de toda a soja que o país consome vem de fora, principalmente do Brasil e dos Estados Unidos. Mas uma mudança silenciosa está em curso nas granjas chinesas: produtores e o governo de Pequim estão substituindo parte do farelo de soja por ração fermentada produzida localmente, mais barata e feita a partir de resíduos agrícolas e subprodutos da própria indústria. Na prática, isso pode reduzir pela metade o uso de soja na alimentação dos suínos.

A motivação imediata é econômica. A ração representa cerca de 70% do custo de produção na suinocultura chinesa, e o preço da soja pressionado por tensões comerciais e conflitos geopolíticos vem comprimindo as margens dos produtores. Mas por trás da mudança no campo existe uma diretriz estratégica do governo: diminuir a dependência de importações de soja, especialmente dos Estados Unidos, num contexto de disputas comerciais recorrentes. Se as projeções se confirmarem, a China pode reduzir suas importações de soja em até 6,3% o que tiraria bilhões de dólares dos países exportadores.

Como funciona a ração fermentada que está substituindo a soja na China

Segundo o portal CompreRural, em fazendas como a de Gao Qinshan, na região de Taizhou, tanques com misturas fermentadas já são parte da rotina. O sistema utiliza resíduos agrícolas e subprodutos locais farelos, ramas e sobras de fermentação que são transformados em ração altamente digestível.

O diferencial está no processo: a fermentação quebra as proteínas previamente, facilitando a absorção pelos animais e reduzindo a necessidade de proteínas nobres como as presentes na soja.

O resultado é uma ração mais barata que entrega nutrição equivalente por um custo inferior. Para produtores que enfrentam preços de suínos nos níveis mais baixos em 16 anos, excesso de oferta no mercado interno e demanda enfraquecida do consumidor, a ração fermentada não é opção é sobrevivência.

A possibilidade de cortar pela metade o uso de soja na alimentação animal sem sacrificar o desempenho produtivo muda completamente a equação de custos da suinocultura chinesa.

A meta do governo chinês para reduzir a dependência de soja importada

Pequim intensificou, especialmente a partir de 2025, políticas para diminuir o uso de farelo de soja nas rações e diversificar as fontes de proteína animal.

As metas são ambiciosas: redução gradual do farelo de soja, estímulo ao uso de proteínas alternativas fermentadas, sintéticas e vegetais e aumento da eficiência alimentar nos sistemas produtivos. A ração fermentada representava apenas 3% da ração industrial chinesa em 2022, já alcança cerca de 8% atualmente e pode atingir 15% até 2030.

Se esses números se confirmarem, o impacto sobre o mercado global de soja será concreto.

Uma redução de 6,3% nas importações chinesas de soja significaria bilhões de dólares a menos para países exportadores como Brasil e Estados Unidos os dois maiores fornecedores do grão para a China. Não é uma mudança que acontece da noite para o dia, mas a direção está clara e os investimentos já estão sendo feitos em escala industrial.

As grandes empresas chinesas que já estão abandonando a soja

A transição não está restrita a pequenos produtores. Grandes corporações chinesas lideram o processo. A Muyuan Foods, uma das maiores suinocultoras do mundo, já reduziu o uso de soja na ração substituindo-a por aminoácidos sintéticos.

A New Hope desenvolve dietas completamente sem soja para aves. Gigantes do setor de laticínios como Yili e Mengniu cortaram até 20% do uso do insumo em suas operações.

O mercado de ração fermentada na China já movimenta cerca de US$ 6 bilhões, aproximando-se do tamanho do mercado europeu.

Empresas globais como a Louis Dreyfus, uma das maiores traders de soja do mundo, já planejam instalar unidades de produção de ração fermentada na China, sinalizando que a transformação é estrutural e de longo prazo. Quando a própria trader de soja investe em alternativas à soja, a mensagem para o mercado é inequívoca.

Apesar dos avanços, a transição ainda enfrenta obstáculos. A falta de padronização nos processos de fermentação pode gerar perdas por deterioração da ração, crescimento mais lento dos animais e maior suscetibilidade a doenças.

Especialistas alertam que a redução da soja reconhecida por seu perfil nutricional superior pode afetar sabor e desempenho produtivo se não for bem balanceada.

A soja não vai desaparecer da dieta dos suínos chineses. O rebanho é imenso o maior do mundo e mesmo com redução percentual no uso do grão, os volumes absolutos de importação de soja continuarão expressivos no curto prazo.

Mas a tendência de médio e longo prazo é clara: a China quer depender menos do exterior para alimentar seus porcos, e a ração fermentada é a ferramenta que viabiliza essa estratégia.

Para o Brasil, que tem na China seu maior comprador de soja, a mudança exige atenção: a demanda segue forte hoje, mas o futuro já está sendo reescrito nas granjas de Taizhou.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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