Trump tem obsessão pelo Brasil, diz Financial Times ao explicar que ele jamais deixará o mundo em paz

O presidente dosUm canalha que não esconde as más intenções.

Articulista argumenta que o presidente dos EUA tem instinto de negociador imobiliário e vê o mundo como um grande bazar de negócios; e isso adicionado à sua sede por atenção o transformaram no presidente mais intervencionista da América

Do Urbs Magna

Um artigo do Financial Times analisa a contradição entre a retórica isolacionista de Donald Trump e a realidade de sua atuação geopolítica e histórica.

O texto, de Janan Ganesh, utiliza a conferência imobiliária MIPIM, realizada em Cannes, como metáfora para o ambiente de negócios globalizado e resiliente onde o presidente moldou sua visão de mundo.

1. O “Bazar Bizarro” de Cannes 

A MIPIM não é uma feira de imóveis comum; é o maior evento do setor no mundo – um ambiente em Cannes onde bilionários russos, fundos soberanos árabes, incorporadores brasileiros e corretores de luxo se misturam em iates e hotéis cinco estrelas.

O nome MIPIM é uma sigla em francês que, traduzida livremente para o português, significa Mercado Internacional de Profissionais de Imobiliário (Marché International des Professionnels de l’Immobilier).

Fundado em 1990, o evento é considerado a maior e mais influente feira do setor imobiliário e de investimentos do mundo.

Para Janan Ganesh, no texto no Financial Times, esse ambiente é a “escola” de Trump. No mercado imobiliário de alto padrão, não existem fronteiras ideológicas: o que importa é o fluxo de capital.

Ao citar esse evento, o texto sugere que Trump vê a geopolítica da mesma forma que vê um saguão de hotel em Cannes: um lugar onde todos buscam lucro, poder e influência, independentemente de regras diplomáticas tradicionais.

2. A “Resistência ao Choque” e a Corrupção 

O texto toca em um ponto sensível para a realidade brasileira: a ética nos negócios:

A Visão Ocidental/Liberal: Líderes como Barack Obama tratam o mundo através de leis, tratados e diplomacia “limpa“.

A Visão “Imobiliária” de Trump: No mundo das grandes construções globais, o “suborno” ou o “favorecimento” são muitas vezes vistos apenas como o óleo que lubrifica a engrenagem.

O autor argumenta que Trump entende melhor o mundo real (especialmente em países em desenvolvimento ou economias emergentes) do que os intelectuais de Harvard. Ele compreende o desejo por riqueza material e o pragmatismo de quem quer “fechar o negócio” a qualquer custo.

3. Por que isso não é Isolacionismo? 

Um isolacionista quer fechar as portas e ignorar o resto do planeta. No entanto, alguém formado na mentalidade da MIPIM faz o oposto:

♦ Ele quer estar em todos os mercados.
♦ Ele quer que seu nome esteja nas torres mais altas.
♦ Ele quer opinar sobre a justiça no Brasil ou a política em Londres porque vê o mundo como um grande tabuleiro de investimentos.

“A realidade é que o interesse primordial de Trump por dinheiro o torna uma figura bastante reconhecível para grande parte do mundo”, diz o autor do texto.

Em termos simples: o texto diz que Trump não é um ideólogo, mas um “homem de negócios de raiz“. Ele não quer que os EUA saiam do mundo; ele quer que os EUA dominem o mercado.

Para ele, o mundo não é uma comunidade de nações com valores compartilhados, mas um feirão imobiliário gigante onde ganha quem for mais esperto, mais rico e tiver o ego mais resiliente.

A Ilusão do Isolacionismo 

A análise argumenta que o rótulo de isolacionista aplicado a Trump é um equívoco. Eventos como o disparo de mísseis contra a Síria e o assassinato de um general iraniano demonstram que, apesar das promessas de campanha e do apoio de figuras como J.D. Vance (Vice-presidente dos Estados Unidos), o governo não recuou dos assuntos globais.

Pelo contrário, o autor sugere que Trump exibe um comportamento globalista, manifestado pelo interesse quase obsessivo na política interna de outras democracias, como o Brasil e o Reino Reino, e por intervenções em países como Nigéria, Iêmen e Venezuela.

Estrutura do Poder e Natureza Imperial 

Segundo o articulista do FT, Janan Ganesh, a resistência ao isolacionismo não é apenas uma característica da personalidade de Trump — cujo ego demandaria a atenção do palco mundial — mas uma questão estrutural do cargo presidencial.

O autor pontua que:

♦ Nenhum império recua por vontade própria sem ser forçado pela fraqueza ou derrota.
♦ O imenso poder militar e econômico dos Estados Unidos é uma tentação irresistível para qualquer ocupante da Casa Branca.
♦ Mesmo antecessores como George W. Bush foram inicialmente subestimados em seu interesse por assuntos externos, apenas para acabarem profundamente envolvidos neles.

O Realismo Imobiliário vs. O Idealismo Liberal 

O autor traça um contraste entre Trump e Barack Obama. Enquanto Obama possuía uma biografia internacional, sua abordagem era descrita como legalista e tradicionalmente ocidental. Já Trump, através de sua carreira no setor imobiliário, estaria mais sintonizado com a “média intelectual global“.

Janan Ganesh sugere que o foco de Trump em transações financeiras e o materialismo o tornam uma figura reconhecível em grande parte do mundo, onde o que o Ocidente define como corrupção é visto apenas como um custo de fazer negócios.

Por fim, nota-se que, apesar de seu discurso populista, as bases de Trump estão localizadas nas áreas mais cosmopolitas e conectadas ao mundo, e não no interior isolado da América, frustrando as expectativas de uma nação autossuficiente.