Câmara de Barreiras levanta recesso em meio a críticas ao planejamento do Executivo e risco de perda de recursos do PAC

Câmara de Barreiras 04082025

Sessão extraordinária nesta quarta-feira (28) decide o destino de R$ 11,3 milhões; Legislativo exige transparência e questiona por que a Prefeitura deixou o envio dos projetos para o recesso, usando a urgência como fator de pressão.

De Luís Carlos Nunes, no Caso de Política.

A Câmara Municipal de Barreiras interrompe oficialmente o recesso parlamentar nesta quarta-feira (28), às 19h30, para deliberar sobre uma votação que combina urgência administrativa, tensão política e um debate institucional mais profundo sobre planejamento e controle orçamentário. Em pauta estão os Projetos de Lei nº 002 e nº 003/2026, que buscam autorizar a utilização de R$ 11.331.639,06 em superavit financeiro referente ao exercício de 2025.

O levantamento do recesso ocorre após o Legislativo, em um gesto de autonomia e fortalecimento institucional, ter alterado a Lei Orçamentária Anual (LOA 2026) no final do ano passado, extinguindo o chamado “cheque em branco” que permitia ao Executivo remanejar recursos via decreto, sem necessidade de aprovação prévia dos vereadores.

Planejamento em xeque e o “timing” do pedido

Embora o Executivo sustente a tese de “urgência urgentíssima”, o episódio expõe questionamentos sobre a eficiência do planejamento administrativo da Prefeitura. A mudança nas regras orçamentárias foi aprovada ainda em dezembro de 2025, o que significa que o governo municipal tinha pleno conhecimento de que, a partir de 1º de janeiro, não poderia mais utilizar automaticamente os saldos financeiros.

Nos bastidores da Câmara, a principal crítica recai sobre o timing do envio das matérias. Se os saldos de 2025 já eram conhecidos e a nova exigência legal estava em vigor, por que os projetos não foram encaminhados antes do recesso ou logo nos primeiros dias de janeiro? A decisão de protocolar as propostas em pleno período de recesso, sob o argumento de risco de atraso salarial e perda de recursos do PAC, é interpretada por analistas políticos como uma tentativa de pressionar o Legislativo a votar rapidamente, reduzindo o espaço para uma fiscalização mais aprofundada.

Conflito entre Poderes e amadurecimento institucional

O episódio revela um claro processo de amadurecimento da Câmara Municipal de Barreiras. Se em anos anteriores o Executivo operava com ampla margem de manobra sobre os saldos orçamentários, agora o Legislativo assume protagonismo ao exigir transparência, detalhamento técnico e debate público sobre cada destinação.

Esse novo modelo de governança impõe um rigor institucional que o Executivo aparenta ainda não ter incorporado plenamente, resultando em convocações extraordinárias para resolver pendências que poderiam ter sido antecipadas com planejamento adequado.

Risco ao PAC e gargalos na saúde

Apesar do embate político, os riscos financeiros são concretos. O Projeto de Lei nº 003/2026, que concentra R$ 10,2 milhões, é considerado vital para evitar a perda de recursos federais do Novo PAC Saúde, destinados à construção da Unidade de Saúde da Família José Maria de Magalhães II. Por se tratar de verba vinculada à União, a ausência de autorização legislativa pode resultar na devolução dos recursos e paralisação da obra.

O projeto também é indispensável para viabilizar o pagamento do Piso Nacional da Enfermagem – cujo repasse foi creditado em 31 de dezembro – e para garantir a continuidade dos mutirões de oftalmologia, que atendem grande demanda reprimida no município.

Detalhamento dos recursos sob fiscalização direta da Câmara

Os quadros abaixo explicitam a aplicação obrigatória dos valores que passam a ser executados sob controle rigoroso do Legislativo:

Saúde (PL nº 003/2026)

Total: R$ 10.207.457,75

Programa / Destinação

Valor (R$)

Impacto direto / risco

Novo PAC Saúde (Obras) 2.127.644,97 Alto risco de perda de verba federal e paralisação da USF
Oftalmologia (PMAE) 5.111.322,76 Suspensão imediata de exames e consultas
Piso da Enfermagem 396.588,03 Atraso no complemento salarial (recurso de 31/12/2025)
Hospital da Mulher 261.390,00 Trava na aquisição de incubadoras e berços neonatais
Saúde Bucal (CEO) 226.307,00 Interrupção da compra de raio-X panorâmico

Assistência Social (PL nº 002/2026)

Total: R$ 1.124.181,31

Ação / Bloco

Valor (R$)

Consequência da não aprovação

Folha de pessoal e abrigos 451.341,33 Risco de atraso salarial e comprometimento do custeio
CRAS – Proteção Básica 211.337,40 Interrupção do atendimento às famílias nos bairros
Gestão Bolsa Família 174.139,04 Bloqueio do monitoramento do CadÚnico
Criança Feliz / AEPETI 181.432,06 Fim das visitas domiciliares e ações contra o trabalho infantil

O papel da Câmara

O levantamento do recesso parlamentar em Barreiras ultrapassa o aspecto técnico de uma votação orçamentária. O episódio simboliza um marco de autonomia legislativa e amadurecimento institucional, ao impor limites claros ao uso do superavit financeiro e exigir transparência na aplicação de recursos sensíveis.

Ao submeter a destinação desses valores ao crivo do plenário, a Câmara sob o comando do presidente Yure Ramon, busca evitar que verbas carimbadas da saúde, da assistência social ou do Novo PAC sejam manejadas sem controle público, protegendo o interesse da população diante de falhas de planejamento e reforçando o papel fiscalizador do Poder Legislativo.

Escândalo do FUNDEB em Barreiras: Indícios de fraude sistemática e “gestão fantasma” no Conselho colocam sob risco rateio de R$ 106 milhões.

Escandalo do FUNDEB Otoniel Teixeira 23122025

Investigação revela convocatória de 2025 assinada por ex-presidente em flagrante desrespeito ao Decreto de 2022 e à Lei Federal 14.113/2020; levantamento do SINPROFE aponta sobras milionárias enquanto “operador fantasma” manipula sistema federal à revelia da lei.

Caso de Política | Luís Carlos Nunes

O controle social dos recursos da educação em Barreiras mergulhou em um abismo jurídico que ameaça o destino de uma fortuna. Documentos oficiais apurados com exclusividade pelo Portal Caso de Política expõem uma brutal confusão administrativa: a Convocatória nº 02/2025, emitida em 16 de dezembro de 2025 para deliberar sobre as contas do exercício, foi subscrita por Patrícia Cavalheiro, que deixou a presidência do Conselho de Acompanhamento e Controle Social (CACS-Fundeb) há três anos.

A legítima autoridade do órgão, conforme o Decreto nº 204/2022, é Maria Josivânia dos Santos Pereira, que inclusive assinou parecer oficial em março de 2025.

O ressurgimento do nome de Patrícia em um documento de 2025 sugere uma “gestão de conveniência”. Fontes indicam que a atual composição do conselho pode não ter sido devidamente cadastrada nos sistemas do Governo Federal (SIOPE/FNDE), o que teria levado a gestão a “ressuscitar” credenciais antigas para validar contas sem o devido crivo dos novos conselheiros.

O Caso de Política tentou contato com Patrícia, não obtendo sucesso, porém fontes que teriam conversado com a ex-presidenta do CACAS/FUNDEB afirmam que a mesma estaria disposta a acionar o Judiciário para questionar o uso indevido de sua assinatura em um rito do qual não faz mais parte legalmente.

O “Operador Fantasma” e o montante para um possível rateio de R$ 106 milhões

A gravidade do caso ganha cifras alarmantes. Um levantamento técnico e independente realizado pelo SINPROFE revela que as sobras do FUNDEB em Barreiras são milionárias, podendo chegar a mais de R$ 106 milhões.

No entanto, o acesso a esses valores está trancado em uma “caixa-preta”. Em julho de 2025, o município havia aplicado apenas 61% dos recursos na remuneração dos profissionais – quando a legislação exige o mínimo de 70%.

A ocultação dos balancetes de dezembro, sob a vaga justificativa de “folha aberta“, impede o cálculo exato do rateio que deveria ser destinado a professores, diretores, coordenadores pedagógicos, servidores técnico-administrativos e pessoal de suporte. Enquanto os servidores aguardam, uma figura sombria atua nos bastidores: um “operador fantasma” – identificado como um homem sem qualquer cargo no colegiado – seria o responsável real pela alimentação do SIOPE. Este operador validou os dados do 5º bimestre no sistema da União em 29 de novembro, semanas antes da própria convocatória (nula por vício de autoria) ser emitida em 16 de dezembro.

A omissão de Otoniel: o Prefeito do “Só por Ordem Judicial”

O prefeito Otoniel Teixeira adotou uma postura de “omissão estratégica” que beira o sarcasmo institucional. Durante entrevista concedida à rádio Oeste FM, no dia 19 de dezembro de 2025 ao radialista Marcelo Ferraz, o gestor declarou publicamente que só efetuará o pagamento do rateio do FUNDEB mediante uma decisão judicial. É um paradoxo refinado: o prefeito exige uma ordem da Justiça ao mesmo tempo em que sua própria gestão bloqueia os instrumentos necessários para que tal ordem seja emitida.

Provas dessa blindagem constam na CI nº 275/2025 e no Ofício PGM nº 142/2025 (aqui e aqui), enviados pela Prefeitura ao sindicato. Nestes documentos, o Executivo não fornece os dados financeiros detalhados de dezembro, alegando que a folha de pagamento estaria “aberta”. Na prática, a gestão Otoniel esconde os números que a Justiça precisaria para decidir, enquanto opera sob as sombras de um operador sem rosto e assinaturas “ressuscitadas” de 2022.

O rito legal: a anatomia da fraude e os artigos violados

Para que o controle social não seja uma mera peça de teatro, a Lei Federal nº 14.113/2020 estabelece um rito que não permite “atalhos”. A validade jurídica da prestação de contas depende estritamente do cumprimento dos seguintes dispositivos:

  • Art. 37: O controle deve ser exercido pelo Conselho, e a validação no SIOPE deve refletir uma decisão colegiada real. Validar dados antes da reunião é uma afronta direta à fiscalização federal.
  • Art. 34: Obriga o Executivo a garantir transparência total e disponibilizar balancetes ao Conselho em tempo hábil. A desculpa da “folha aberta” não tem amparo legal para o bloqueio de dados.
  • Art. 26: Define que os recursos devem ser acompanhados por conselhos legítimos. O uso de uma assinatura de 2022 (Patrícia Cavalheiro) para validar atos de 2025 anula o rito por vício de competência.

Inverter a ordem – aprovar no sistema para depois “fingir” uma reunião com uma convocatória inválida – configura, em tese, o crime de Inserção de dados falsos em sistema de informações (Art. 313-A do Código Penal) e Falsidade Ideológica.

Consequências e Vigília

A persistente recusa em abrir as contas de dezembro – mês que concentra a maior arrecadação, impulsionada pelo IPVA e pela complementação da União – sugere que o Executivo pode ter dado um destino indevido aos R$ 106 milhões que pertencem aos profissionais da educação. Juristas alertam que o município flerta com a rejeição automática de contas pelo TCM e a suspensão de repasses federais já em 2026.

Com o SINPROFE em plantão e o Legislativo – através do presidente Yure Ramon e do vereador João Felipe – ameaçando um Mandado de Segurança, a prefeitura de Barreiras chega ao fim de 2025 sob o estigma de uma gestão que prefere o “fantasmagórico” à clareza dos números.

Se a “caixa-preta” não for aberta até 31 de dezembro, o próximo encontro do prefeito com o FUNDEB poderá ser nos tribunais, longe da conveniência das assinaturas anacrônicas.

 

Agora vai ou racha a tampa da caixa!

O radialista Fernando Pop e o jornalista Fernando Machado, do site ZDA, inauguram neste dia 4, na Nova FM 104,9, de Barreiras, o programa “Caso de Política”. Conhecendo o currículo dos dois, acredito que vai faltar bombeiro para apagar os focos de incêndio que eles iniciarem. Fernando Machado é meu amigo particular e por isso falar na sua coragem, generosidade e retidão de caráter, além de uma inteligência afiadíssima, poderia parecer ao leitor um exagero. Tenho certeza que não!

Boa sorte aos dois na nova empreitada, que, tenho certeza, vai se tornar referência na velha Barreiras. E pau no burro que lá vem chuva!

fernando