“Não há razão para haver tanta miséria. Precisamos construir novos caminhos”. Entrevista especial com Ladislau Dowbor

Do Instituto Humanitas da Unisinos, RS

O crescimento das desigualdades no mundo, o agravamento da crise climática, o caos político generalizado e a projeção da Organização das Nações Unidas – ONU de que em 2050 a população mundial chegará a 9,7 bilhões de pessoas exigem uma reorientação do sistema político-econômico global.

Na prática, isso significa, entre outras coisas, que é preciso “orientar a economia para o bem-estar das famílias, não para o bem-estar dos mercados que geram mais Wall Street, mais paraísos fiscais e coisas do gênero”, diz o economista Ladislau Dowbor à IHU On-Line.

Ao propor uma mudança na governança global, ele acentua que um dos principais desafios da economia neste século é resolver o problema das desigualdades.

Somente no Brasil, informa, 206 bilionários “aumentaram as suas fortunas em 230 bilhões de reais” no último ano, em que a economia esteve praticamente estagnada.

Enquanto isso, lamenta, programas sociais como o “Bolsa Família consomem 30 bilhões”. No atual estágio do capitalismo, assegura, “não há nenhuma razão para haver miséria no planeta.

Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 11 mil reais por mês, por família de quatro pessoas. Isso é amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável”.

Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp à IHU On-Line, o economista também comenta a proposta do papa Francisco de que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de desenvolver uma “economia diferente”, que “inclui”, “humaniza” e “cuida da criação”.

“Nós temos que ampliar o debate e essa é a motivação central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos político generalizado, e a desigualdade, em particular, gerou uma imensa insegurança nas populações”, pontua.

Veja a entrevista completa clicando aqui.

Desigualdade: o mal que não deixa o País crescer.

Foto: Cristiano Mariz

No ano passado, o 1% da população com maiores rendimentos recebeu o correspondente a 33,8 vezes a remuneração dos 50% mais pobres, segundo o IBGE. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, a diferença aumentou e atingiu nível recorde. O rendimento médio do primeiro grupo foi estimado em R$ 27.744, enquanto o do segundo era de R$ 820, menos que um salário mínimo.

O instituto apurou ainda interrupção de uma tendência de redução do índice de Gini, que mede a desigualdade. No caso dos rendimentos, isso aconteceu de 2012 a 2015: de 0,540 para 0,524. Quanto mais perto de zero, maior a igualdade. Mas a partir de 2016, ano do impeachment, o índice voltou a subir e atingiu 0,545 em 2018.

Segundo o IBGE, os 10% da população com maiores rendimentos concentraram 43,1% da massa de rendimento, calculada em R$ 277,7 bilhões. Já os 10% com menor renda ficaram com apenas 0,8%. Aqueles 10% de maior rendimento ficaram ainda com fatia maior do que a dos 80% com menor rendimento (41,2%).

Apenas o rendimento do trabalho – que corresponde a aproximadamente três quartos do rendimento total das famílias – ficou em R$ 2.234, em média, acima de 2012 e abaixo de 2014.

O índice de Gini para esse item foi de 0,509, novamente interrompendo tendência de queda registrada até 2015.

Entre as regiões, o indicador variou de 0,448 (Sul) a 0,520 (Nordeste). No Sudeste, o Gini subiu de 0,483 para 0,508 de 2015 até o ano passado.

O rendimento médio de outras fontes, como aposentadorias, pensões, alugueis e programas de transferência de renda, atingiu R$ 1.479 em 2018.

O item de maior valor médio foi aposentadoria ou pensão: R$ 1.872. O IBGE apurou crescimento, em todas as regiões, do total de pessoas com rendimento de aposentadorias ou pensões, que soma 14,6% do total.

Já o percentual de domicílios atendidos pelo Bolsa Família caiu de 15,9%, em 2012, para 13,7%.

Apenas 8 homens tem mais riquezas que os 3,6 bilhões mais pobres do Planeta

Original da BBC em Português. Veja a matéria completa clicando no link

Os oito homens mais ricos do mundo possuem tanta riqueza quanto as 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre do planeta, segundo a ONG britânica Oxfam.

A organização de assistência social afirmou que a comparação, questionada por críticos, é resultado de uma coleta mais precisa de dados, e que o fosso entre ricos e pobres se revelou “bem maior do que temia”.

A divulgação do relatório da ONG coincide com o início do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Mark Littlewood, do centro de estudos londrino Institute of Economic Affairs, disse que a Oxfam deveria se concentrar em sugestões para elevar o crescimento.

“Como uma organização ‘antipobreza’, a Oxfam parece estranhamente preocupada com os ricos”, afirmou o diretor-geral do centro de estudos, conhecido pela defesa da economia de mercado.

IateDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionGrandes iates são peças de consumo recorrentes entre bilionários do planeta

Ben Southwood, chefe de pesquisa do Adam Smith Institute, outro centro de estudos de tendência conservadora, disse que não é o poder aquisitivo dos ricos que importa, mas o bem-estar dos pobres, que estaria aumentando a cada ano.

“Todo ano somos induzidos a erro pelas estatísticas de riqueza da Oxfam. Os dados são ok – vêm do (banco) Credit Suisse – mas a interpretação não é”, afirmou.

‘Encontro de elite’

O evento anual em Davos, um resort de esqui na Suíça, atrai muitos líderes políticos e empresários globais.

Katy Wright, chefe de assuntos globais da Oxfam, afirmou que o relatório ajuda a organização a “desafiar as elites econômicas e políticas”.

“Não nos iludimos e sabemos que Davos nada mais é do que um mercado de palestras para a elite mundial, mas tentamos usar esse foco”, acrescentou.


BilionáriosDireito de imagemBBC/WIKIMEDIA COMMONS

Os oito bilionários mais ricos do mundo

1. Bill Gates (EUA): cofundador da Microsoft – US$ 75 bilhões

2. Amancio Ortega (Espanha): fundador da Inditex, da Zara – US$ 67 bilhões

3. Warren Buffett (EIA): maior acionista da Berkshire Hathaway – US$ 60,8 bilhões

4. Carlos Slim Helu (México): dono do Grupo Carso – US$ 50 bilhões

5. Jeff Bezos (EUA): fundador e principal executivo da Amazon – US$ 45,2 bilhões

6. Mark Zuckerberg (EUA): cofundador e principal executivo do Facebook – US$ 44,6 bilhões

7. Larry Ellison (EUA): cofundador e principal executivo da Oracle – US$ 43,6 bilhões

8. Michael Bloomberg (EUA): cofundador da Bloomberg LP – US$ 40 bilhões

Fonte: Revista Forbes, março de 2016


O economista britânico Gerard Lyons afirmou que o foco na riqueza extrema “nem sempre mostra toda a situação” e que deveriam haver esforços para “garantir que o bolo econômico esteja crescendo”.

Contudo, ele disse considerar que a Oxfam está certa ao destacar companhias que podem estar alimentando a desigualdade com modelos de negócio “focados em gerar lucros cada vez maiores para donos ricos e executivos de ponta”.

Wright, da Oxfam, afirmou que a desigualdade econômica está dando combustível para uma polarização na política, citando como exemplos a eleição de Donald Trump nos EUA e a saída do Reino Unido da União Europeia.

‘Fatia justa’

“As pessoas estão insatisfeitas e cobrando alternativas. Sentem-se deixadas para trás porque não trabalham duro e não conseguem aproveitar o crescimento do país”, disse a diretora da ONG.

A Oxfam defende uma “economia mais humana”, e pressiona governos a combater a evasão fiscal e os lucros excessivos de executivos, com maior taxação da riqueza.

Também reivindica que líderes empresariais paguem “uma fatia justa de impostos” e ofereçam a seus funcionários quantias superiores aos salários mínimos dos países.

A ONG britânica produziu relatórios semelhantes nos últimos quatro anos. Em 2016, calculou que as 62 pessoas mais ricas do mundo detinham tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população da Terra.

O número caiu para apenas oito neste ano porque há dados mais precisos, afirmou a Oxfam.

E ainda vale a afirmação, segundo a organização, de que a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivale à riqueza dos 99% restantes.

Mark Zuckerberg e Priscilla ChanDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO cofundador do Facebook Mark Zuckerberg e sua mulher, Priscilla Chan

Alguns dos bilionários da lista já doaram boa parte de suas fortunas. Em 2000, Bill Gates e sua mulher, Melinda, criaram uma fundação privada que já distribuiu mais de US$ 44 bilhões.

Em 2015, Mark Zuckerberg e sua mulher, Priscilla Chan, prometeram doar 99% de sua riqueza ao longo de suas vidas, o que equivalia à época a US$ 45 bilhões.

É preciso ter renda e ativos estimados em US$ 71,6 mil (cerca de R$ 229 mil) para alcançar os 10% mais ricos do mundo, e US$ 744,3 mil (cerca de R$ 2,3 milhões) para figurar entre o 1% mais abastado.

O relatório da Oxfam é baseado em dados da revista de negócios Forbes e em um relatório do banco Credit Suisse sobre distribuição da riqueza global desde o ano 2000.

A pesquisa usa o valor dos ativos, principalmente bens e terras, menos dívidas, para determinar as “posses” das pessoas em questão. Os dados excluem salários e rendimentos.

A metodologia foi criticada por considerar, por exemplo, que um estudante com muitas dívidas mas grande potencial de ganhos no futuro seja pobre.

Desigualdade social, política assistencialista e democracia.

O advogado André Rossete Cardozo analisa, em artigo de fundo, nossa realidade social com cenários históricos e atuais, dentro de uma perspectiva de futuro próximo. “É inevitável afirmar que a diminuição da desigualdade é uma condição sine qua non para a consolidação do regime democrático no país.” Continue Lendo “Desigualdade social, política assistencialista e democracia.”