Passa das duas da madrugada. Meu telefone celular, que estava com o som bem baixinho, toca com insistência. Um número desconhecido. Uma voz abafada e rouca me chama:
-Alô, estamos aqui. Escondidos…
-Eu sem entender nada. Mas quem está falando?
-Sou eu periodista, Almerinda.
-Está escondida de quê, Almerinda?
-Pois é: o Ozzy esteve aqui em casa, na rua Irecê, e acabou me convencendo, grudou um adesivo bem grande na minha porta. Eu falei pra ele que a bola de cristal tinha péssimas previsões. Ele não me ouviu. O pior é que o desgramado do adesivo não desgruda agora. Estou com medo.
-Medo de que, Madame?
-A festa deles estava acontecendo bem aqui pertinho. Mas às 10 horas tudo acabou.
-Não tenha medo, Madame. A gurizada só quer se divertir, festejar a vitória. Ninguém vai chutar a sua porta.
-Mesmo assim, tenho medo. Quando deu as seis da tarde, o Cavalo Véio, que estava aqui em casa – vc sabe, nós temos um cacho há anos – se mandou com os olhos estalados, que parecia uns bolitões. Desapareceu e não ligou mais.
-Se acalme, Madame.
-Pois é, soube que as caçambinhas do Biscoitinho foram jogadas no meio do mato. Ele estava com medo que botassem fogo.
-Nada disso vai acontecer, Madame. O pessoal é tudo alegre e civilizado.
-E o meu mensalinho, caro Periodista. Como vai ficar?
-Bom, aí não posso garantir nada. Os mensalinhos acabaram na hora que abriram as primeiras urnas.