Paulo ‘Caco Antibes’ Guedes despreza pobres ao esnobar alta na conta de luz.

Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Jair Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters

Por Leonardo Sakamoto

Paulo ‘Caco Antibes’ Guedes ataca novamente e demonstra a razão de ser um expoente da ala radical do governo Jair Bolsonaro, ao contrário do que prega a Faria Lima. Claro que ele não atua para impedir que crianças estupradas possam fazer o aborto previsto em lei, mas a insensibilidade com a situação econômica dos mais vulneráveis é lamentável.

Apesar do aumento no custo da energia elétrica estar levando a famílias a apertarem os cintos para não ficarem no escuro, o ministro da Economia encara as reclamações como mimimi.

“Se no ano passado, que era o caos, nós nos organizamos e atravessamos, por que nós vamos ter medo agora? Qual o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos? Ou o problema agora é que está tendo uma exacerbação porque anteciparam as eleições… Tudo bem, vamos tapar o ouvido, vamos atravessar”, disse nesta quarta (25).

O Brasil vive duas crises, uma elétrica e outra hídrica, de grandes proporções que não são consequência de fenômenos naturais periódicos, como a “La Niña”, mas de um grave erro na operação do sistema, que negligenciou os efeitos das mudanças climáticas nas vazões dos rios brasileiros. O governo, para proteger Bolsonaro, vem aplicando medidas paliativas, torcendo para que caia um dilúvio no final do ano. Até lá, a tendência é o preço na energia subir ainda mais. Mas, como diz o ministro, “tudo bem, vamos tapar o ouvido”.

Se a declaração fosse a primeira do tipo, vá lá. Mas ela tem muitas irmãs.

Paulo Guedes já reclamou que o governo ampliou demais o acesso ao Fies, citando como suposto exemplo o filho de um porteiro de seu prédio, desaprovou empregadas domésticas viajando à Disney, criticou o aumento na expectativa de vida da população, afirmou que a classe média exagera no tamanho do prato e que as sobras poderiam alimentar os mais pobres, insinuou um novo AI-5 diante de protestos de rua contra o governo, rotulou servidores públicos de parasitas, repreendeu pobres por não pouparem e os associou à destruição do meio ambiente.

Para a maioria de nós é chocante sua visão elitista, preconceituosa, violenta. Mas a parte da elite econômica que ele representa, que compreende da mesma maneira que ele a narrativa do lugar que ricos e pobres devem ocupar na sociedade, entende bem a mensagem: eles precisam se aliar contra aqueles que gastam o dinheiro de seus impostos na forma de serviços públicos e benefícios sociais.

Por essa lógica distorcida, seja na Disney ou nas universidades, há “parasitas” com “nosso dinheiro” em “nosso lugar”. Um dos principais problemas do país seria, portanto, o fato de haver gente fora do lugar que lhe foi pré-determinado. Gente egoísta, que fica reclamando do preço da energia, enquanto “nós” seguimos nossa vida. Essa narrativa, segregacionista e excludente, apresenta uma simbiose com a do presidente da República, que expressa a mesma coisa no plano moral que Guedes manifesta no econômico.

Nesse sentido, tão ou mais violento que todas essas declarações é o fato de o ministro ter defendido um auxílio emergencial de apenas R$ 200 por família no início da pandemia em 2020. Graças ao Congresso Nacional, o valor acabou sendo de R$ 600/R$ 1200 por domicílio.

A incompetência e o Instituto do “Farinha Pouca meu Pirão Primeiro”

“Desespero”, de Gustave Coubert.

Por Leonardo Sakamoto, editado.

O presidente da República já avisou que não haverá doses suficientes para imunizar todos os brasileiros para a covid-19 em 2021. Claro que não confessou que a culpa por isso é de sua própria incompetência. É o que temos para hoje. Afinal, há um Messias no poder que diz não fazer milagres, mas também não sabe governar.

Diante do quadro de escassez, o que fizeram o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça? Consultaram a Fundação Oswaldo Cruz, instituição responsável por fabricar a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e o laboratório AstraZeneca no país, para saber se era possível “reservar” doses do imunizante para seus ministros e servidores.

Tal qual Júpiter e Saturno no céu, por aqui temos a conjunção de dois grandes mundos criando um bizarro espetáculo.

A falta de credibilidade do governo Bolsonaro, que apresentou um plano nacional de imunização frágil e foi omisso no processo de aquisição de vacinas, encontra-se com o sentimento de uma parte do Poder Judiciário que acredita que todos são iguais perante à lei – menos magistrados e suas equipes, que estão acima dela.

De acordo com reportagem de Matheus Teixeira, da Folha de S.Paulo, o STF afirmou à Fiocruz que seu pedido de reserva tinha os objetivos de imunizar os seus e “contribuir com o país nesse momento tão crítico da nossa história”. Basicamente, o STF defendeu que ao imunizar por conta própria seus servidores liberaria a estrutura pública para o restante da população.

O STJ fez pedido parecido à Fiocruz, segundo revelou a coluna Radar Econômico, da revista Veja, para imunizar magistrados, servidores ativos e inativos, dependentes, estagiários e colaboradores terceirizados do STJ e do Conselho da Justiça Federal (CJF). Disse que a reserva se deve à “expectativa de grande demanda à rede privada, quando houver a disponibilidade” para compra da vacina.

Questionados pela imprensa, o STF e o STJ afirmaram que não pretendem obter “prioridade” e “preferência” em relação ao restante da sociedade. O uso dessas palavras não é aleatório. Membros do Ministério Público de São Paulo haviam pedido prioridade para vacinação, como foi revelado pelo jornal Brasil de Fato, e levaram uma saraivada de críticas de uma população indignada com fura-filas.

Além disso, as justificativas dadas pelo STF e do STJ esbarram na realidade.

Em algum momento, vacinas serão encontradas à venda no mercado por empresas, que cobrarão um preço bem mais alto do que os contratos fechados com governos. É menos provável que isso comece com as vacinas produzidas pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan (Coronavac), que têm acordos volumosos com governos. Não faz sentido, portanto, que órgãos públicos imunizem funcionários públicos, pagando valores mais altos, com recursos da população, antes da população.

Além disso, os servidores dessas instituições que tiverem mais de 60 anos, contarem com doenças que os tornem mais vulneráveis ao coronavírus e forem profissionais de saúde serão vacinados junto com os grupos prioritários elencados nas primeiras fases do Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19. Os demais terão, em tese, que esperar junto com o restante da população.

O que os tribunais desejam com a “reserva de vacina”? Receber a cota relativa ao total de seus servidores sob a “promessa” de ir aplicando aos poucos? Ir buscar na porta da Fiocruz um novo lote relativo ao número de servidores que fazem parte de uma nova fase de vacinação fase após fase? Não é apenas pouco prático, mas beira o absurdo.

O que aconteceria se empresas, organizações sociais, times de futebol, clubes de tiro, igrejas, centros espíritas e terreiros, coletivos de canastra e truco, sindicatos de motofrentistas e grupos de escoteiros passassem a fazer a mesma requisição, assumindo a própria vacinação? Se todos somos iguais perante à lei, não haveria porque privá-los disso, não?

Os pedidos do STF, STJ e de membros do MP-SP são uma pequena amostra do que deve ocorrer nos próximos meses quando a vacinação começar. Uma parte dos mais ricos deve comprar e aplicar vacinas a preços escorchantes. Mas espera-se uma quantidade nunca antes vista de “carteiradas” das mais diversas autoridades com o objetivo de passar na frente na fila da vacinação pública sob os mais diferentes argumentos.

Da mesma forma, podemos aguardar uma “Festa do Atestado”, com pessoas saudáveis comprando declarações médicas de que possuem comorbidades que lhe garantam duas doses de tranquilidade antes da sua vez.

Em tempo: João Otávio Noronha, então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou, no dia 23 de julho, liminar de um pedido de habeas corpus coletivo que transferiria para a prisão domiciliar presos em caráter provisório que sejam idosos ou imunodeprimidos e, portanto, tenham o risco aumentado de contrair coronavírus.

Ele havia concedido o benefício a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, sob a justificativa de que ele estava em situação de risco devido a um tratamento de câncer. Sua esposa, Marcia Aguiar, que estava foragida após ter a prisão decretada, também foi beneficiada sob o argumento de que precisava cuidar dele.

É mais fácil Bolsonaro intervir no STF do que incomodar o coronavírus

Por Leonardo Sakamoto – Colunista do UOL

O Brasil está prestes a registrar 100 mil mortes por covid-19, um marco vergonhoso na guerra contra o coronavírus. Enquanto isso, o ministro interino da Saúde, que é um general, gasta tempo precioso recebendo defensores da aplicação de ozônio pelo ânus para tratar a doença.

Médicos e cientistas dizem que o método tem tanta eficácia comprovada para tratamento quanto ser bicado por emas.

Um governo coalhado de militares deveria ostentar capacidade de elaboração de estratégia para o enfrentamento à crise sanitária. Suas grandes batalhas, contudo, têm sido a terceirização da responsabilidade para o colo de prefeitos e governadores e o convencimento da população de que o inimigo é superestimado.

Agindo como um bom traidor, Bolsonaro vai conquistando territórios. Para o vírus.

Mas ao mesmo tempo em que demonstrou não ter interesse em liderar os atores públicos na articulação de um plano nacional de combate à doença, organizando a entrada e a saída do país em quarentenas e bloqueios totais, o que teria salvo a vida de milhares, o presidente foi bem rápido para planejar um autogolpe militar.

Reportagem de Monica Gugliano, na revista piauí, revela com detalhes como a Suprema Corte quase virou vinagre no dia 22 de maio deste ano. Irritado com a possibilidade de ter seu telefone e o de seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro, apreendidos no curso da investigação de uma notícia-crime, Jair disse a seus assessores diretos que iria baixar a borduna no Supremo Tribunal Federal.

O episódio lembra não apenas o fato de que vivemos com um candidato a tirano sentado no Palácio do Planalto, esperando uma chance, rodeado de viúvos da ditadura, militares e civis, mas também que Bolsonaro pode ser sim uma pessoa de ação – mas só quando isso diz respeito à preservação de seus interesses e os de seus filhos.

Se o presidente da República consegue tomar uma decisão de proporções apocalípticas, como mandar tropas para depor a cúpula de outro poder, ele não produz ações concretas diante do coronavírus por que não quer.

Aquilo que parece incompetência do governo no trato com a pandemia, portanto, é parte da estratégia do presidente de forçar os brasileiros a voltarem à vida normal, acreditando que isso levará a uma redução nas perdas do PIB.

Está mais preocupado com a situação da economia em 2022, fundamental para sua reeleição, do que com as vidas das pessoas hoje. Afinal, como ele mesmo diz, todo mundo morre.

Por fim, há um certo sadismo dentro do sadismo. Já temos que lidar com uma pandemia assassina que matou mais de 97 mil pessoas por aqui e com a ameaça de uma milícia tomar de assalto a democracia com um cabo e um soldado, para citar profética visão do deputado federal Eduardo Bolsonaro.

O pior é que, ainda por cima, temos que aguentar um presidente que deve rir da nossa cara ao empurrar as arritmias da cloroquina e os enjoos da nitazoxanida e analisar o ozônio no reto.

Focado em si, Bolsonaro ameaça a democracia e abandona o Brasil à covid-19.

Imagem: EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Bolsonaro já desprezava a covid-19 por acreditar que uma interrupção prolongada da pandemia geraria impactos econômicos que enfraqueceriam seu governo.

Mas, agora, entrou no “modo de sobrevivência”, nada mais importa, nem vidas, nem a democracia. Mostrando que é um capitão apenas da boca para fora, primeiro, salva a si mesmo e a seus filhos. Se der tempo, sua tropa. A população? Como ele mesmo disse: “todos nós iremos morrer um dia”.

Uma crise institucional sem precedentes entre as cúpulas dos Poderes Executivo e Judiciário ocorre no exato momento em que o Brasil se torna o epicentro global de uma crise sanitária. Não se sabe ainda quais as consequências disso para os ministros do Supremo Tribunal Federal e para o Presidência da República e seus assessores, mas invariavelmente o resultado disso será mais mortes da população mais pobre.

O presidente deve manter a aposta em seu comportamento de enfrentamento amparado pela aprovação de um terço da população, como mostra a pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (27).

Apesar da rejeição a ele ter subido de 38%, em 27 de abril, para 43%, a somatória de ótimo e bom segue estável, a 33% – mesmo número do levantamento anterior. Ou seja, se o vídeo da polêmica reunião ministerial desagradou um naco da população, foi uma live premium para seus seguidores como analisei aqui após sua divulgação.

No breve pronunciamento que fez esta manhã, o assunto não eram os 25.598 mortos e os 411.821 infectados – números oficiais, uma vez que levantamento da Universidade Federal de Pelotas apontou que as grandes cidades podem ter sete vezes mais casos do que os registrados. Mas uma ameaça direta ao STF e à democracia.

“As coisas têm limite. Ontem foi o último dia e peço a Deus que ilumine as poucas pessoas que ousam se julgar mais poderosas que outros que se coloquem no seu devido lugar, que respeitamos. Acabou, porra!”, afirmou em transmissão da CNN Brasil. Também afirmou que “ordens absurdas não se cumprem”.

Ele se referia à operação da Polícia Federal, realizada nesta quarta (27), por ordem do ministro do Supremo Alexandre de Moraes, contra seus aliados que fariam parte de um sistema de difusão de ódio e desinformação com objetivos políticos.

A investigação tem potencial de chegar ao financiamento de sua campanha em 2018 e aos seus filhos, principalmente o vereador Carlos Bolsonaro, apontado como mentor do “gabinete do ódio”.

A defesa da independência entre poderes por Bolsonaro é contraditória com seu próprio discurso. Um dos pressupostos da República é que toda vez que o presidente ultrapassa os limites que lhe confere a Constituição, suas ações precisam ser contidas, anuladas, investigadas pelos outros poderes.

O chefe do Executivo pode muito, mas não tudo. Infelizmente, ele acha que sim. Isso faz com que, de um lado, peite a ordem democrática e, do outro, coloque em risco a saúde da população.

Acabou, porra! Olha o nível!