Hugo Studart*, jornalista e historiador, professor e pesquisador, escreve contundente artigo sobre o que será o Governo Dilma e faz previsões sombrias sobre o futuro político da Nação. Veja na íntegra:
“Conheci Dilma o suficiente para arriscar algumas previsões sobre seu
governo. Se o câncer não a pegar, vai trair Lula em menos de dois anos. Logo
logo os ministros com espinha-dorsal vão cair fora por não aguentarem
humilhações e maus-tratos; e seu governo será integrado exclusivamente por
invertebrados com interesses pessoais não-republicanos. Seu lado bom é que,
na economia, vai tentar crescer mais do que Lula ousou. Contudo, Dilma vai
aprofundar uma economia baseada nos oligopólios setoriais, no qual cerca de
30 mega-corporações vão receber todo apoio do Estado para criar o
sub-imperialismo sul-americano. Vejam por quê:
Getúlio Vargas gostava de se apresentar como“Pai dos Pobres”. A velha UDN,
sempre corrosiva, acusava-o de ser também “Mãe dos Ricos”. Nada mais
pertinente para aquele que foi, simultaneamente, o pai do populismo e a mãe
do desenvolvimentismo brasileiro. Como Getúlio, Lula fez dois governos
populistas, distribuindo, à moda de César, pão e circo aos plebeus. E ajudou
tanto os banqueiros, os grandes empresários e os muito ricos, que Getúlio,
se vivo estivesse, ficaria constrangido de rubor. Mas o crescimento
econômico na Era Lula foi absolutamente medíocre. Se as previsões de que
Dilma Rousseff vai dar continuidade ao lulismo,como promete, tudo leva a crer
que venha a ser, como Getúlio e Lula tentaram, a primeira e verdadeira “mãe
dos pobres e pai dos ricos”.
Quem conhece bem Dilma Rousseff garante que seria uma doida de pedra, caso de
camisa de força, um misto de Nero com Stalin, grosseira como o primeiro e
totalitária como o segundo. Talvez seja exagero da oposição, talvez… Como
um acadêmico, devo evitar usar certos adjetivos fortes. De qualquer forma,
relato aos senhores, prezados leitores, que eu a conheci pessoalmente, eu
jornalista, ela autoridade do governo Lula. Primeiro como ministra das Minas
e Energia, depois como chefe da Casa Civil.
Tivemos algumas entrevistas, nas quais só ela respondia e eu pouco
perguntava. Fiz parte da regra, não sou exceção. Nossa primeira entrevista
começou 1h30 da madrugada e se estendeu até as 3h. Não me lembro de ter
conseguido fazer mais do que duas ou três perguntas. Venho acompanhando há
oito anos sua trajetória pública, os bastidores das suas aventuras. Tenho o
orgulho de ter sido o primeiro jornalista a registrar a decisão de Lula de
fazê-la candidata à sua sucessão. O acordo era Dilma governar apenas um
mandato, quatro anos, mantendo a cadeira para Lula se candidatar em 2014.
Somente uns três meses depois começaram as especulações sobre Dilma
candidata. Enfim,conheço Dilma o suficiente para registrar aqui algumas
previsões sobre seu futuro governo.
ROMPIMENTO COM LULA
Como suas alianças com os aiatolas e com Hugo Chávez foram passos
absolutamente idiotas e irreversíveis, Lula perdeu a chance de realizar o
sonho de presidir a ONU ou ganhar o Nobel da Paz. Mas não vai se conformar
em vestir o pijama, não quer virar um Fernando Henrique. Lula vai querer
ficar dando pitaco em tudo.Quanto a Dilma, totalitária em seu DNA,
stalinista e prepotente, vai começar a achar que ganhou a eleição pelos seus
belos olhos, por sua suposta competência como “mãe do PAC”. Vai querer fazer
seu próprio governo. Os dois vão acabar rompendo. No máximo em dois anos,
anotem aí.
FORMAÇÃO DA PRIMEIRA EQUIPE
Ela deve aceitar que seu governo, numa primeira fase,seja nomeado por Lula e
pelos dois “rasputins”, José Dirceu e Antônio Palocci. O PT vai ficar com o
núcleo duro, ou seja, as áreas de coordenação política e econômica. Dilma
tem poucos quadros pessoais, como Erenice Guerra (finada, foi-se) e Valter
Cardeal (agora queimado). Sobrou Maria Luiza Foster, hoje diretora da
Petrobrás e alguns raros novos amigos, como o petista José Eduardo Cardoso e
José Eduardo Dutra. Quanto aos demais ministérios, a serem loteados com os
aliados, o PT vem tentando avançar sobre as áreas onde dá para fazer mais
caixa dois. Contudo, a tendência é manter os atuais feudos. Até ai, nenhuma
grande novidade. Vamos então às previsões.
SEGUNDA EQUIPE DE GOVERNO
Em menos de um ano, anotem aí a previsão,os ministros com alguma
personalidade algum caráter ou vergonha na cara, começarão a pipocar do
governo em razão de grosserias, humilhações, futricas e maus tratos da
mandatária. Nelson Jobim, que tende a ficar na Defesa (assim Dilma não
precisa entregar ao PMDB mais um ministério onde dá para fazer caixa),
deverá ser dos primeiros. Mas sai ainda em 2011, anotem aí. Esses ministros
serão em quase totalidade substituídos por gente de terceira categoria,
capachos dispostos a aguentar as explosões emocionais da mandatária em troca
de algum interesse inconfessável.
NOVOS AMIGOS
Vai ter um momento que a Dilma vai estar cercada essencialmente de
invertebrados e de batedores de carteira. Gente da pior qualidade, capachos
despreparados mas com interesses privados claros, como a finada Erenice
Guerra. É muito curioso que seu principal consigliere, atual
melhor-amigo-de-infância, seja o suplente de senador Gim Argello, do PTB do
DF. Vale à pena acompanhar o governo Dilma pelos passos (e enriquecimento)
de Gim.
DIRCEU OU PALOCCI?
De gente que pensa, a tendência é ficar apenas com Franklin Martins, antigo
companheiro de armas, e José Eduardo Cardozo. Entre Dirceu e Palocci, aposto
no segundo a longo prazo. Dirceu controla o PT; a tendência é Dilma querer
se livrar dos grilhões, querer ficar livre, leve e solta para buscar um
vôo-solo. Palocci controla o “mercado”, ou seja, as contribuições do caixa
dois. Pode ser bem mais útil para Dilma.
PARALISIA ADMINISTRATIVA
O governo não vai andar, vai ficar todo travado por conta do excesso de
centralismo democrático da presidenta. Ela acredita que informação seja
poder. Não vai dividir informação com ninguém. Aliás, enquanto foi ministra
da Casa Civil, o governo só andou porque Lula colocou duas assessoras
pessoais e suas equipes para controlar os ministérios pelos bastidores,
Miriam Belchior e Clara Ant. Com sua mania de centralizar, controlar e
querer saber de tudo, Dilma sempre atrapalhou mais do que ajudou.
RELAÇÃO COM O CONGRESSO
Tende a ser desastrosa. Dilma jamais gostou de negociar. O negócio dela é
impor. Os parlamentares eleitos, por sua vez, têm em quase totalidade o DNA
clientelista, franciscano, “é dando que se recebe”. Dilma tende a perder a
paciência e a tentar passar o trator no Congresso, como registra todos os
episódios de sua biografia. Paralisia política, impasses institucionais,
talvez até crise de poderes. Ela não deve conseguir aprovar no Congresso
nenhuma reforma relevante. O que não aprovar em seis meses, no máximo no
primeiro ano de governo, não deve aprovar mais. A não ser que caia na
tentação de tentar o “chavismo”.
IDEOLOGIA? ORA,O NEGÓCIO É…
Engana-se quem acredita que a ex-guerrilheira Dilma seja movida pela
ideologia. Nos tempos de militância esquerdista e clandestinidade, ela
notabilizava-se entre os guerrilheiros por duas características singulares.
Primeiro, o amor pela frutrica e por provocar divisões. O ex-companheiro
Carlos Lamarca morreu chamando-a de “cobra”, “maquiavélica”. Outra
característica era sua atração pelo dinheiro. Ela convenceu Lamarca que
tinha uma grande organização, a Colina, com milhares de militantes prontos a
pegar em armas pela revolução. Tinha só ela, o marido de então, um
companheiro bonito chamado Breno e mais dois ou três gatos-pingados.
Convenceu Lamarca a fundir o grande Colina com a VPR em igualdade de
condições, criando a VAR-Palmares. Convenceu Lamarca a assaltar o cofre do
Adhemar de Barros, no mais ousado episódio da guerrilha. Por fim, convenceu
a todos a rejeitar o “militarismo” de Lamarca e seus sargentos. Ela e o
marido ficaram com o controle de quase todo o dinheiro do assalto, deixando
Lamarca em dificuldades.
CAIXA DE CAMPANHA
Faço aqui uma previsão tão ousada quanto polêmica. Nossa presidenta tende a
tentar fazer seu próprio caixa de campanha, fora do caixa dois do PT, a fim
de ganhar a independência em relação Lula. Ela sonha ter o próprio grupo.
Precisa de dinheiro para financiar a política.
BRASIL GRANDE
Do lado bom, Dilma vai tentar acelerar um pouco o crescimento econômico.
Isso é tão certo quanto o futuro rompimento com Lula. Como Adhemar, Médici e
Maluf, ela gosta de obra grande, de usinas hidroelétricas gigantescas, de
portos e auto-estradas rasgando a imensidão desse Brasil. Deveria ter sido
ministra do governo Médici. Quer ressuscitar o Brasil Grande, mas com um
viés de esquerda – ou daquilo que ela chama de esquerda. Confesso que não
consigo ver muita diferença no PAC de Dilma com os projetos de Médici e
Geisel.
SUB-IMPERIALISMO BRASILEIRO
No plano internacional, não vai trombar em hipótese alguma com os EUA. Acho
até que vai dar uma guinada à direita. O jogo internacional dela é o
sub-imperialismo. Vai usar dinheiro público para financiar grandes
corporações brasileiras, criar oligopólios nacionais e sul-americanos. Os
maiores beneficiários de seu governo serão Gerdau, Odebrecht, Andrade
Gutierrez, Votorantim, Bradesco, etc. E a Vale? Ora,a Vale é do Bradesco.
OLIGOPÓLIOS
Noam Chomsky, o mais instigante pensador da atualidade, tenta explicar a
economia globalizada de uma forma singular. Segundo ele, não vivemos o
capitalismo, nem nos Estados Unidos, nem na Europa. O sistema que haveria
seria o do estatismo oligopolizante. A economia é toda organizada por
oligopólios, com cinco ou seis mega-corporações dominando cada um dos
principais setores da economia – bancos, siderúrgica, petroquímica, mídia,
fármacos, tecnologia, etc. Ao sistema não interessa monopólios, como o que a
Microsoft tentou firmar, mas sim oligopólios. E essas mega-corporações
oligopolistas, por sua vez, precisam da ajuda dos Estados e dos políticos
para firmarem-se como corporações globais. Financiam os políticos que, no
poder, lhes dão concessões de todo o tipo. Chomsky referia-se aos EUA,
Europa e Japão.
Poderia estar falando do Brasil que Lula entrega à Dilma. Pensem num setor.
Bancos, por exemplo: Há dois grandes estatais, BB e Caixa, dois privados
nacionais,Bradesco e Itaú, e dois estrangeiros, Santander e HSBC – o resto
não conta. Construção: Odebrecht, Andrade e Camargo. Se listarmos os cinco
principais setores econômicos – Bancos, Construção, Siderúrgico, Metalúrgico,
Petroquímico e Farmacêutico, vamos descobrir que, no Brasil, menos de 30
empresas controlam dois terços dos empréstimos subsidiados do BNDES e 90%
dos investimentos dos fundos de pensão das Estatais. Outra curiosidade:
essas 30 empresas desses cinco setores financiaram a maior parte da campanha
de Dilma e do PT, deixando Serra e os tucanos na mão. Mas essa é outra
história a ser contada em detalhes em outra ocasião. Por enquanto fica aqui
o registro: essas 30 empresas, desses cinco oligopólios, vão receber no
governo Dilma todo subsídio que precisarem do BNDES para consolidarem ainda
mais o oligopólio interno e o sub-imperialismo na América do Sul. Também vão
receber dinheiro direto dos fundos de pensão das Estatais para fazer o
mesmo. O governo Dilma, enfim será essencialmente oligopolista e
sub-imperialista. Anotem as previsões.
*Carlos Hugo Studart Corrêa é jornalista e historiador brasileiro, pesquisador dos Direitos Fundamentais no Século XXI. Nasceu em Natal (RN), a 08 jun 1961. Formou-se em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), especializou-se em Ciência Política, cursou Mestrado em História e é doutorando em História Cultural, pela UnB.
Como JORNALISTA PROFISSIONAL, atuou como repórter, editor, colunista ou diretor nos principais veículos do Brasil, como Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, revistas Veja, Manchete, IstoÉ-Dinheiro e IstoÉ. Colaborou com artigos ou colunas nas revistas Dados & Idéias, Interview, Playboy, Caminhos da Terra, Imprensa, República, Primeira Leitura, Brasil História e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi Diretor-Executivo do Centro de Produção Cultural e Educativa (CPCE) da UnB, publisher do portal Direito.com.br e Diretor da Editora Três em Brasília.
O trabalho jornalístico tem duas vertentes. A primeira, sobre informática, tecnologias e políticas públicas que ameaçam a privacidade e as liberdades na Sociedade Digital. Na outra, dedicou-se a perfis biográficos e ao jornalismo político e econômico, com ênfase em reportagens investigativas sobre corrupção e má utilização dos recursos públicos. Foi incluído como verbete no dicionário “Jornalistas Brasileiros: Quem é Quem no Jornalismo de Economia”. Ganhou diversos prêmios, como o Prêmio Esso e o Abril de Jornalismo Político, foi finalista de outros prêmios, como Líbero Badaró e Embratel, e jurado de prêmios como o CNT de Jornalismo Econômico.

Tenho medo das suas previsões, mas analisando, ele esta corretíssimo, tenho pena do que será de nos, e o pior medo de daqui a 3 anos elegermos esta mesma cambada..