Se ser amigo é crime, ser sócio é o quê?

Por Helena Sthephanowitz

Em mais uma fase da Operação Lava Jato foi preso preventivamente o pecuarista José Carlos Bumlai, na manhã do dia 24 de novembro. Hoje, 14, Bumlai foi denunciado pelo Ministério Público. E numa busca, a PF achou até uma arma na casa da nora de Bumlai. O Ministério Público afirma que as delações premiadas justificam a prisão. A defesa de Bumlai afirma que o empresário tem como provar com documentos que os delatores mentiram no caso dele.

As manchetes da imprensa tradicional usaram e abusaram da expressão “amigo de Lula” para se referir ao empresário preso, numa tentativa de mais uma vez associar o ex-presidente a denúncias de corrupção. Se depender da leitura das manchetes o pecuarista está preso por ser “amigo de Lula”, tamanha a ênfase dada. Apesar disso, os próprios procuradores da força-tarefa que prenderam o pecuarista afirmaram claramente, em entrevista coletiva, que não há nenhuma prova contra o ex-presidente.

O que existe é o “uso indevido do nome e da autoridade do ex-presidente da República, que, mesmo não mais no cargo, ainda é uma das pessoas mais poderosas do país”, segundo despacho do próprio Sergio Moro, o juiz que encabeça as investigações e sobre o qual pairam inúmeras denúncias de seletividade e parcialidade de sua condução.
De acordo com as notícias publicada na imprensa, Bumlai só foi apresentado a Lula em 2002, quando já era um dos maiores criadores de gado do Brasil. Fez o mesmo que outros grandes empresários dispostos ao diálogo, considerando que, à época, muitos hostilizavam ou temiam um governo petista.

Mas, convenhamos, se “ser amigo” já é criminalizado pela imprensa tradicional, como deveriam tratar “ser sócio”?

Pois o narrador esportivo da TV Globo Galvão Bueno foi sócio de Bumlai na rede de fast food Burger King no Brasil, numa composição empresarial que tinha ainda o ex-prefeito de Santos e atual deputado federal Beto Mansur (ex-PSDB, ex-PP e atualmente no PRB) e do piloto de Fórmula Indy Hélio Castro Neves.

Fernando Henrique Cardoso com Carmo e Jovelino Mineiro
Fernando Henrique Cardoso com Carmo e Jovelino Mineiro

João Carlos Saad, dono da TV Bandeirantes, foi sócio de Bumlai na TV Terraviva, dedicada ao agronegócio, que também teve como sócio o também empresário Jovelino Mineiro, que por sua vez, foi sócio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na fazenda Córrego da Ponte, no município mineiro de Buritis.

O pecuarista José Carlos Bumlai tem muitos outros amigos políticos, alguns deles graúdos empresários da bancada ruralista. O ex-governador de Mato Grosso e atual senador Blairo Maggi (PMDB-MT), o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani (PMDB-RJ), criador de gado; Jonas Barcelos (ex-dono de freeshops em aeroportos e ligado ao ex-senador Jorge Bornhausen (PSD-SC), também criador de gado. E se aproximou de petistas matogrossenses antes de Lula chegar à presidência, no período em que o PT governou Mato Grosso.

É óbvio que ninguém pode ser criminalizado por atos de terceiros, apenas por ser sócio, parente, amigo, colega de trabalho ou o quer que seja, se não participou de atos ilegais.

Mas é óbvio também que há muito cinismo dos veículos de comunicação que tiveram negócios com Bumlai, em apresentá-lo ao distinto público apenas como se fosse “amigo” exclusivamente de Lula.

Entrevista de Bumlai em 2009 à revista IstoÉ Dinheiro Rural mostra a trajetória do então queridinho da mídia: “Nascido em Corumbá, sua família o mandou para estudar em São Paulo em um colégio católico frequentado pela elite paulistana. Foi colega de aula de Luiz Fernando Furlan (ex-dono da Sadia e ex-ministro no primeiro governo Lula) e do ex-presidente da Nestlé, Ivan Zurita. Depois estudou engenharia na Universidade Mackenzie nos anos 1960, frequentada pela elite na época.

Trabalhou 30 anos com o “rei da soja” Olacyr de Moraes, boa parte do tempo em cargos de direção do Grupo Itamaraty, que tinha a empreiteira Constran e o extinto Banco Itamaraty. Com Olacyr, Bumlay introduziu o cultivo de cana em Mato Grosso do Sul e produção de etanol.

Ele também fez parte da diretoria de associações patronais ligadas ao agronegócio. É óbvio que, com um currículo destes, Bumlai deva ter conhecido muitos políticos e autoridades desde o tempo da ditadura – de alguns pode ter virado amigo e de outros, sócio e parceiro.

Em 2002 conheceu o ex-presidente Lula, e foi um dos empresários de grande porte do agronegócio que abriu canais de diálogo com o governo petista, quando o setor tinha um diálogo difícil com o PT. Integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), fórum criado no governo Lula para empresários, trabalhadores e outros agentes da sociedade debaterem ideias e pactuarem soluções e políticas públicas para o desenvolvimento.

Se Bumlai se meteu em alguma falcatrua, ou se usou o nome do ex-presidente indevidamente (ele nega), ainda está para ser esclarecido. Se o Ministério Público vai provar algo realmente ilícito contra o pecuarista, ou se ele está preso apenas por ser “amigo de Lula”, como insinuam as manchetes, também veremos.

Afinal na fase anterior da Operação Lava Jato, o Ministério Público Federal escreveu com todas as letras que Gregório Marin Preciado – ex-sócio e muito ligado e parente do senador José Serra (PSDB-SP) – foi o operador de uma propina de US$ 15 milhões na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, mas nenhuma prisão preventiva foi pedida, muito menos nenhum mandato de busca e apreensão em seus endereços foi feito.

Bumlai foi sócio de Jovelino Mineiro, que por sua vez, foi sócio do ex-presidente FHC na fazenda Córrego da Ponte, na localidade de Serra Bonita, no município mineiro de Buritis.
Capitalismo de compadrio, mancheteia a rede Globo, através de William Wack, em seu famigerado Jornal da Globo.
Mas e quando o compadrio está, preto no branco, no contrato social registrado nas juntas comerciais?
Não se pretende aqui fazer a defesa de Luiz Inácio Lula da Silva. Até por desconhecimento de causa dos inquéritos que possa a vir sofrer. No entanto, essas relações incestuosas, acima relacionados, precisam ser expostas ao sol, para a devida profilaxia.
O País tem que ser passado a limpo na Justiça, com certeza. Mas essa tal Justiça não deve, nunca, espiar por baixo da venda que a faz justa e imparcial.
O artigo foi editado por O Expresso, para atualizá-lo. Os comentários finais são do Editor de O Expresso.
 
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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

4 comentários em “Se ser amigo é crime, ser sócio é o quê?”

  1. Confesso que eu perco a paciência quando leio seus post e comentários editor! Ou você age por profundo desconhecimento ou por uma má fé tamanha! Prefiro acreditar na segunda hipótese pois burro eu sei que você não é! Quando a imprensa enfatiza que o Bumlai é amigo de Lula é realmente para frisar que os crimes que ele cometeu foram em cumplicidade do amigão rei que tudo podia. O Bumlai era apenas um empresário que como você frisou tinha negócios com a maioria dos grandes empresários do Brasil, mas depois que conheceu o LULA em 2012 seus negócios prosperaram de tamanha maneira que o indivíduo conseguiu um empréstimo de mais de meio bilhão de reais no BNDES com um empresa falida, quebrada e inativa na Receita Federal, como ele conseguiu essa proeza prezado editor? Sendo amigo de FHC? Esses tipos de matéria e seus maldosos comentários nos leva a crê que o Juiz Sérgio Moro, conjuntamente com as dezenas de delegados da Polícia Federal e as dezenas de procuradores federais são tudo marionetes da “elite” todos são cooptados pelo PSDB e adjacências…não viaje cara! Use seu veículo de comunicação para cobrar os escândalos do governo do PSDB, do metrô de São Paulo, dos casos de corrupção da era FHC como o Banestado, Sivam, e as suspeitas das privatizações….o engraçado é que o PT está para completar 13 anos no poder e não trouxe nada à tona destes casos todos que denunciava enquanto era oposição…eu adoraria que o PT tomasse a iniciativa e trouxesse os podres do governo FHC à luz do sol como você mesmo diz, poder ele tem para isso…acho que ou está faltando provas ou é falta de vontade mesmo!

    Nota da Redação:
    Posso não concordar com parte das suas afirmações. Mas defendo, de maneira intransigente, o seu direito de proferi-las.

  2. O Observador, Delcidio foi presidente da Petrobras no governo FHC e na época foi denunciado a corrupção que já acontecia lá, mas incrível nada foi feito, por que será???!!. Será que foi mesmo o PT que inventou a corrupção???!! Meu amigo não sou Petista nem tenho vontade de ser, mas me dá nojo ver um bando de imbecil achando que estes outros partidos como PSDB, DEM e etc. são exemplo de honestidade. Se procuramos na história vamos ver que nenhum governo anterior deixou saudades, nosso povo sempre viveu numa draga desgraçada e hoje os caras são Deuses. Faça meu favor nosso povo tem que olhar direito quem são as pessoas que estão ai. Postagem dizendo que ACM faz falta na Bahia é mesma coisa que sentir falta de Fidel em Cuba. Não veja nenhum desses políticos que usam do poder para eternizar-se nas tetas do governo. Me dá nojo ouvir nomes com Zé Dirceu, Bolsonaro, Aécio, Lula, Cunha, FHC, Alkimin, Hadad, ACM, ACM Neto, vou para antes que eu vomite! Um abraço

  3. Nem partido de esquerda nem de direita,nada mesmo, todos juntos e misturadas para roubar
    este imenso Brasil.

  4. Podem tentar defender. Mas vejo, cada vez mais o PT afundando em corrupção. Aliás, é impossível dizer CORRUPTO sem PT!!! Kkkkkkkkkk

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