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Esquerda se organiza para enfrentar ameaças de arruaça na derrota de Bolsonaro.

04/06/2022

Basta um lobo solitário, diz policial Leonel Radde sobre risco para Lula |  Revista Fórum

Leonel Radde com colegas na segurança de Lula em Porto Alegre.

Por Vasconcelo Quadros, no DCM.

A radicalização do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores, com ameaças à democracia, ao Judiciário e apelo ao armamento da população gerou uma ferramenta inimaginável nas bases do PT e PSB antes do avanço da extrema direita: a organização de núcleos profissionais de segurança e inteligência para enfrentar os grupos paramilitares que, a seis meses da eleição, se movimentam à luz do dia. A principal tarefa agora é esquadrinhar, identificar e monitorar os diferentes grupos de inspiração paramilitar que, sem segredos, o presidente afaga.

Coordenador nacional do núcleo antifascista criado pelo PT, o vereador de Porto Alegre Leonel Radde, policial civil e alvo constante dos extremistas, acredita que os chamados CACs – caçadores, atiradores e colecionadores de armas – representam o maior risco de violência eleitoral.

É gente empoderada pelo discurso bolsonarista e disposta a qualquer coisa. Vai se encaminhando cada vez mais para atuações extremistas”, afirma o vereador gaúcho que, pela experiência de policial e pela leitura de ameaças frequentes difundidas na rede, se diz preocupado com a segurança de Lula, principalmente no Sul e Sudeste do país.

Segundo o vereador, o crescimento de grupos neonazistas é registrado em todo o país, mas tem mais densidade no interior de São Paulo e, em especial, nos Estados do Sul. No Rio Grande do Sul, segundo Radde, há denúncias de proliferação de clubes de motoqueiros que fazem clara apologia ao nazismo.

Essa avaliação é similar à do PSB: “Não estamos num jogo político. Estamos numa guerra política. O Bolsonaro sabe que se perder, vai direto para a cadeia. É isso que o preocupa”, afirma Acilino Ribeiro, secretário nacional do Movimento Popular Socialista (MPS) do PSB, ao qual está vinculada a Coordenação Executiva de Relações Internacionais e Inteligência Partidária, que monitora os radicais de direita ligados a Bolsonaro e as ações do governo contra movimentos sociais. Ele estruturou um serviço de inteligência de esquerda, a Rede Nacional de Inteligência Cidadã (RENIC).

“Como o estado vigia a sociedade, nós temos direito de fiscalizar o estado e agentes públicos. A RENIC vigia a Abin, mas a Abin também vigia a RENIC”, diz Acilino.

O trabalho de inteligência desse núcleo aponta que os diversos grupos paramilitares que gravitam em torno de Bolsonaro somam cerca de 100 mil militantes, dos quais, pelo menos dez mil podem ser considerados linha de frente, milicianos, ex-policiais ou paramilitares que se apresentam como CACs e militares da reserva saudosistas da ditadura.

“Dez mil é uma conta empírica que faço com base na liberação da venda de armas e de balas. É gente capaz de fazer uma luta armada pela direita. …”

São oficiais generais que já vestiram o pijama e hoje se entrincheiram nos clubes do Exército, Marinha e Aeronáutica cujos dirigentes assinaram nota em que consideram o julgamento do deputado Daniel Silveira “inconstitucional e imoral”, e elogiaram o decreto de perdão editado por Bolsonaro como decisão que “restabeleceu o estado de direito”.

Acilino Ribeiro não tem dúvidas de que apoiadores de Bolsonaro, com apoio velado de militares da ativa, estão se organizando para criar conflitos caso Bolsonaro seja derrotado. “Eles estão preparando isso”, afirma. “O Bolsonaro vai colocar as Forças Armadas numa encruzilhada e chamá-los para uma guerra civil, para tentar dar o golpe”, prevê.

Um dos dirigentes do Movimento Policiais Antifascismo (MPAF), o policial potiguar Pedro Chê também avalia que Bolsonaro aposta no caos e diz que os grupos que o cercam “têm os meios” para deflagrar um conflito. Chê alerta que, originários de bases sociais autoritárias e golpistas, os bolsonaristas representam uma ameaça. Esses militantes de direita, ele diz, já criaram base suficientemente forte para gerar conflitos. “A questão é em que momento isso pode acontecer. É uma galera que anda na esteira de Bolsonaro, alimenta ideias autoritárias e sonha em poder participar de um conflito. Estão comprando muita arma e se passando por colecionador ou atirador, num nível de armamento jamais visto e em alta proliferação”, diz o policial.

No total o número de armas em poder da população atualmente chega a 2.077.126, o que significa uma para cada 100 pessoas. Especialistas criticam a falta de controle sobre o destino desse arsenal.

Pedro Chê avalia que os militares podem até manifestar simpatia a Bolsonaro, mas dificilmente apoiariam ações fora da lei. “O Exército trabalha com a conjuntura internacional e sabe que não tem amparo dos Estados Unidos para uma aventura golpista.

Dados do Ministérios da Defesa e da Economia mostram que os generais controlam mais de 3 mil cargos de confiança, 8.450 vagas temporárias, oito dos 22 ministérios, 16 estatais e 61% das empresas de administração direta ou indireta da União.

O vereador Leonel Radde concorda: “A tentativa de golpe virá pelos grupos civis que cercam Bolsonaro. Forças legais podem até dar suporte, mas não de forma frontal”.. Segundo ele, há um claro movimento dos grupos bolsonaristas para forjar uma luta armada pela direita. Pedro Chê afirma que o núcleo central do bolsonarismo é extremamente perigoso; parte dos colecionadores e atiradores é “gente mal intencionada e mais perigosa, alguns desempregados, que não têm muito a perder”. Ele também lembra o apoio dos policiais a Bolsonaro, especialmente da PM.

“São forças que podem até subverter a ordem estatal. Bolsonaro tentou isso no 7 de setembro (2021) e já havia estimulado o motim da PM no Ceará, no episódio em que o senador Cid Gomes passou com o trator”, afirma o dirigente antifascista. Para ele, a esquerda no poder deve promover uma reforma profunda nas instituições de segurança. “A esquerda tem de cuidar disso. É uma granada amarrada num barbante. Pode ser com Bolsonaro ou outro”, adverte.

Com o trabalho preventivo de inteligência, Acilino Ribeiro, Leonel Radde e Pedro Chê pretendem, através dos partidos, alertar às autoridades competentes sobre riscos concretos. Para eles, a extrema direita se movimenta para atacar o STF e TSE, como ficou claro com a concessão de perdão de Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira, indicando que não aceitaria outro resultado que não seja a reeleição do presidente. Por essa tese, se farejar a derrota, Bolsonaro partiria para uma tentativa de ruptura. “Faremos a luta institucional e de massas contra a extrema-direita. Não aceitaremos o conflito. Vamos fortalecer as instituições da República para que elas os enfrentem”, afirma Acilino Ribeiro.

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