Um dos efeitos indiretos da guerra na Ucrânia é a escassez de fertilizantes artificiais, nos quais a agricultura comercial se baseia. Entram em cena o esterco e a urina do gado, como forma de adubo natural.
Sem adubo, quase nada acontece no campo. Para obter um rendimento economicamente sustentável, um agricultor precisa reavivar a fertilidade dos solos, já bastante esgotados, com o emprego de fertilizantes, e há diversas décadas se utiliza para tal sobretudo produtos artificiais.
Indispensável não é só o nitrogênio, que promove o crescimento vegetal, mas também os outros macronutrientes primários (fósforo, potássio) e os secundários (enxofre, magnésio, cálcio). Nos adubos artificiais, sua dosagem pode ser adaptada exatamente às necessidades locais.
Até certo ponto, um fertilizante orgânico também é capaz de desempenhar essa função. Os agricultores espalham esterco e urina de diversos tipos de animais por suas plantações, muitas vezes para desgosto dos vizinhos, sobretudo devido ao cheiro de amoníaco do chorume (adubo líquido), que paira durante dias e abrir a janela para ventilar só piora a situação.
Estrume e chorume em alta
Até o momento, a diretriz da política alemã tem sido reduzir a quantidade de adubo animal nos campos. Não por causa do mau cheiro, mas para proteção da água no solo. Contudo este é outro ponto em que a invasão da Ucrânia pela vizinha Rússia frustrou as boas intenções, já que para produzir fertilizantes artificiais é necessário gás, combustível fóssil que a guerra tornou escasso e cada vez mais caro.
Assim, os tão malquistos estrume e chorume ganham novo status. A Associação dos Agricultores Alemães (DBV) confirma que esses dejetos da pecuária voltaram a ter grande demanda, diante da alta dos adubos artificiais. Não só o seu preço triplicou ou quadruplicou em relação ao ano anterior, também está difícil sequer encontrá-los.
“Se o fertilizante natural se torna mais caro e mais escasso, todas as fontes orgânicas de nitrogênio ganham valor e atratividade”, comentou à agência de notícias DPA o secretário-geral da DBV, Bernhard Krüsken. O movimento nos mercados de adubos é grande: “Bolsas de adubo apresentam demanda mais intensa. Isso também se expressa no aumento dos preços de venda e no fato de o produto em parte estar sendo transportado por distâncias maiores do que antes.”
O dado é confirmado por Edelhard Brinkmann, do Banco de Adubos Weser-Ems, atuante no noroeste da Alemanha. Segundo ele, a procura por fertilizantes orgânicos “cresceu fortemente” no último ano, não só devido ao encarecimento do gás, mas também à volatilidade dos preços do produto: “O que custa hoje 900 euros, você consegue amanhã por 600” – e vice-versa também, claro.
Adubos orgânicos não são tão bons quanto artificiais
Um banco de adubos é uma espécie de corretora que coloca em contato fornecedores e compradores, num mercado relativamente desorganizado. O Weser-Ems tem uma frota de veículos própria e leva o chorume de uma fazenda onde ele é supérfluo, a outra onde é urgentemente necessário.
No Brasil, não são poucos os produtores rurais que estão usando estercos de porco, gado bovino, resíduos de compost barn, de vacas leiteiras confinadas, pó-de-pedra, cama de frango, esterco de poedeiras e rocha de fosfato pura.
