Heliponto do Palácio dos Bandeirantes foi utilizado por integrante do PCC, diz polícia – Foto: Tuca Vieira/Folhapress
O governador da época, Dória da Calça Apertada, pareceu marido traído, o último a saber. O próximo governador, Tarcísio dos Pedágios, nunca mandou investigar o crime. Descoberta de que estrutura do governo estadual foi utilizada pelo PCC se deu no âmbito da operação deflagrada pela Polícia Civil que mira a infiltração de membros da facção em prefeituras paulistas
O ocupante do helicóptero foi identificado como João Gabriel de Melo Yamawaki, preso em março de 2026, no Tocantins, sob suspeita de envolvimento no transporte de cerca de 500 quilos de cocaína vindos da Bolívia. Ele já era alvo de investigações anteriores e chegou a ficar foragido.
Segundo a polícia, Yamawaki acionou o ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula para intermediar a autorização. Mensagens obtidas durante a investigação indicam que o político alegou ter um contato dentro da Secretaria de Desenvolvimento Regional capaz de viabilizar o pedido. A suspeita é de que um assessor ligado à pasta tenha participado do processo de liberação.
Como justificativa oficial, foi apresentada a informação de que a aeronave transportava uma suposta delegação japonesa — versão considerada falsa pelos investigadores.
O episódio ocorreu durante o governo de João Doria. Procurado pela imprensa, o ex-governador afirmou que não tem responsabilidade sobre o controle do heliponto. “Eu não controlo o heliponto. Nem precisa de autorização do governador para fazer uso do heliponto no Palácio dos Bandeirantes. Quem tem que se manifestar, quem tem que responder sobre essa circunstância é a Casa Militar do Governo de São Paulo, não é o governador”, declarou.
Até o momento, a Casa Militar não se pronunciou sobre o caso.
Esquema mais amplo de infiltração
O uso da estrutura do governo estadual, atualmente comandado por Tarcísio Gomes de Freitas, por um suspeito ligado ao PCC surge no contexto de uma investigação mais ampla. A Operação Contaminatio aponta para um projeto estruturado da facção de ampliar sua influência sobre o poder público, especialmente em prefeituras do interior e da Grande São Paulo.
As apurações indicam que o grupo atuou no financiamento de campanhas eleitorais e na inserção de aliados em cargos estratégicos. Ao menos seis pessoas politicamente expostas foram identificadas em administrações municipais.
Entre os métodos investigados está a criação de uma fintech para operar a gestão de receitas públicas, como taxas e impostos, permitindo a mistura de recursos ilícitos com dinheiro público — um mecanismo de lavagem com aparência institucional.
A Justiça já determinou o bloqueio de mais de R$ 500 milhões em bens e ativos ligados aos investigados, além da execução de mandados de prisão e busca em diversas cidades, incluindo municípios do ABC Paulista, Baixada Santista e interior do estado.
Acesso ao Estado e contradições políticas
O caso do heliponto reforça as conclusões da Polícia Civil sobre o avanço do PCC para além das atividades tradicionais do crime organizado. Para os investigadores, a facção tem operado com lógica empresarial e política, buscando influência direta sobre estruturas administrativas e orçamentárias.
As revelações colocam pressão sobre o atual governo de Tarcísio de Freitas, que sustenta um discurso de rigor no combate ao crime. Enquanto a retórica pública enfatiza controle e eficiência, as investigações apontam para uma realidade em que o crime organizado consegue acessar espaços institucionais com relativa facilidade.
