Cláudio Castro, Ricardo Magro e fuzis ao CV: o novo escândalo pós Vorcaro que pode abater, de vez, Flávio Bolsonaro

Ação da PF contra ex-governador Cláudio Castro mira “Corredor do Rio”, uma conexão que seria comandada por Flávio Bolsonaro para conceder benefícios tributários ao megafraudador Ricardo Magro, do grupo Refit.

A hecatombe causada pela ligação fisiológica com Daniel Vorcaro, o patrocinador de milhões de dólares do clã — supostamente para a obra cinematográfica do patriarca Jair Bolsonaro (PL) — levou Flávio Bolsonaro (PL) a ser alertado por seu corpo jurídico sobre um “novo escândalo” com potencial atômico, capaz de abater não só a própria candidatura à Presidência, mas de transformar em pó todo o capital político dos Bolsonaros e do grupo que lhes deu sustentação desde que assumiram a liderança da ultradireita no Brasil.
O aviso ocorreu após o desencadeamento, na última sexta-feira (15), da Operação Sem Refino, um desdobramento das investigações sobre o esquema criminoso em torno de Ricardo Magro, dono do Grupo Refit, que bateu à porta do ex-governador fluminense Cláudio Castro (PL-RJ).

Político discreto, o pastor evangélico – ligado ao grupo político do também pastor Everaldo Dias Pereira, da Assembleia de Deus Ministério Madureira, que batizou Jair Bolsonaro nas águas do Rio Jordão —, Castro chegou ao Palácio da Guanabara por obra do clã do ex-presidente, especialmente do influente senador Flávio Bolsonaro, no vácuo deixado pelo impeachment do outsider Wilson Witzel, em 2021.

No relatório que embasou o aval do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para a operação contra Cláudio Castro, a Polícia Federal (PF) destaca “a leniência e a criação de um ambiente propício para a propagação da atividade espúria desenvolvida pela organização criminosa capitaneada por RICARDO MAGRO no estado do Rio de Janeiro, credor do GRUPO REFIT no montante de R$ 9.448.431.196,74, retratam o amálgama do crime organizado com agentes públicos influentes na política fluminense, a começar pelo então chefe do Poder Executivo”.

“Nesse cenário, o ambiente propício para as atividades espúrias do conglomerado foi construído com a anuência do Estado, notadamente do então chefe do Poder Executivo, o então governador CLÁUDIO CASTRO. Sob sua administração, a REFIT encontrou um ambiente apelidado por um artigo publicado pela revista Piauí como o Corredor do Rio“, diz a PF.

O termo, cunhado pela reportagem publicada pela Piauí na edição de março deste ano, faz referência a um atalho político e financeiro que conectava Castro ao governo Jair Bolsonaro e a interlocutores no Congresso Nacional, liderados por Flávio Bolsonaro, para se criar “um arranjo tributário que, na prática, abriria um ‘corredor do Rio’ para empresas ligadas ao grupo de Magro”.

No relatório, a PF narra uma viagem a Nova York em que “Cláudio Castro sentou-se à mesa com Ricardo Magro”. “Naquela ocasião, Castro aproveitou a oportunidade e cumpriu agendas, como se chefe de Estado fosse, com diversas agências americanas para buscar apoio para classificar facções do Rio de Janeiro como narcoterroristas. Entre os seus encontros, o então governador se reuniu com autoridades da Drug Enforcement Administration (DEA), agência americana responsável pela repressão ao tráfico de entorpecentes”, narra a PF.

A pauta de Donald Trump para transformar facções como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) em organizações terroristas permitiria, em tese, uma ação armada dos EUA em solo brasileiro sem aviso prévio às autoridades.

A medida é um dos temas centrais da narrativa bolsonarista, especialmente de Flávio e Eduardo Bolsonaro, que usam o tema para acenar a Trump. O senador chegou a entregar, em maio de 2025, um dossiê elaborado pelas secretarias de Segurança Pública do Rio de Janeiro e de São Paulo, que relacionaria as atuações das facções ao terrorismo.

Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, suspeitos de ligação com o PCC e donos da Copape e da Aster, formuladora e distribuidora de combustíveis, respectivamente, em São Paulo. Ao seu lado, o parceiro do Rio.

No entanto, como já apontado pelo jornal The New York Times em março deste ano, a defesa da medida não passa de uma tentativa de cooptar a Casa Branca para a disputa eleitoral brasileira de outubro.

O fato é reforçado pelos investigadores da PF, que destacam a “contradição” da atitude de Castro no relatório enviado a Moraes.

“Deste modo, a contradição das atitudes de Cláudio Castro se torna latente: ao mesmo tempo em que participava de reuniões supostamente destinadas ao combate ao crime organizado, o então mandatário participava de evento patrocinado pela REFIT e se reunia com o líder de uma organização criminosa voltada à dilapidação do erário fluminense. Não bastasse isso, como visto neste capítulo, sob a batuta de Cláudio Castro e mediante suas diretrizes, o Estado do Rio de Janeiro direcionou todos os esforços de sua máquina pública, em um verdadeiro engajamento multiorgânico em prol do conglomerado capitaneado por Ricardo Magro”, diz o texto enviado ao relator das investigações no STF.

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Leia íntegra da decisão que deu aval a ação contra Cláudio Castro.

Fuzis ao Comando Vermelho

Na edição especial de dezembro de 2025, a Fórum antecipou a interligação entre as investigações das operações Poço de Lobato, contra Ricardo Magro e o grupo Refit, e Compliance Zero, que levou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, à prisão.

À época, ao comentar a investigação sobre o grupo Refit, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad — atual pré-candidato ao governo do Estado — afirmou que as investigações conduzidas pela PF miravam “o andar de cima que irriga com bilhões as atividades criminosas”.

“Armas estão chegando ao Brasil em contêineres; vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o [secretário da Receita, Robinson] Barreirinhas fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres, demonstrando que a parceria é fundamental. Se queremos impedir que a droga chegue lá [nos EUA], é fundamental inibir o crime nos territórios, impedindo que o armamento pesado chegue ao Brasil”, afirmou Haddad.

Desencadeada em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto mobilizou um verdadeiro exército formado por agentes das polícias Federal, Militar e Civil, além de promotores do Gaeco do Ministério Público de São Paulo e fiscais da Receita Federal e estadual na Faria Lima.

A ação atingiu o coração financeiro do crime organizado, cumprindo mandados de busca e apreensão em 42 alvos, entre empresas, bancos e fundos de investimento. A estrutura financeira era usada, segundo a PF, pelos “empresários” Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, que faziam a ponte entre o PCC e o Grupo Refit, usando o setor de combustíveis para lavar dinheiro do tráfico.

Segundo a PF, o grupo atuava desde 2019, quando Bolsonaro chegou à Presidência, e é suspeito de ter movimentado mais de R$ 23 bilhões por meio de uma rede com centenas de empresas.

Somente a fintech BK Bank, fundada em 2019, teria sido usada para movimentar cerca de R$ 17,7 bilhões de forma suspeita.

Conforme a Fórum antecipou, o Grupo Refit usava como laranja Cristiano Moreira Pinto Beraldo, comentarista da Jovem Pan e figura do MBL.

De acordo com a PF, o esquema incluía tráfico de armas pesadas dos EUA, como AK-47 e AR-10, enviadas em contêineres.

As armas eram entregues a “empresários”, como Josias João do Nascimento, agente aposentado da PF, classificado como “Senhor das Armas”, ligado ao brasileiro Frederik Barbieri, condenado por tráfico internacional de armas nos EUA.

Outro receptor seria o CAC Eduardo Bazzana, preso em maio, em cuja casa foram apreendidas mais de 200 armas e 40 mil munições.

O empresário mantinha interlocução com Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, o “Zeus”, do Comando Vermelho, que atuava na Muzema, área antes controlada por milicianos ligados ao clã Bolsonaro.

A Muzema foi onde Fabrício Queiroz se abrigou após o escândalo das rachadinhas. Segundo o MP-RJ, parte dos recursos teria financiado construções irregulares em Rio das Pedras.

Em meio à artilharia sobre o Caso Master e sua relação com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro tenta antecipar uma narrativa para conter o novo escândalo, que remete ao caso das rachadinhas, travado por decisão do ministro João Otávio Noronha, do STJ.

A suspensão da denúncia atendeu a pedido da defesa, no contexto da relação com o ministro, que concedeu prisão domiciliar a Queiroz.

A bomba atômica que pode emergir das investigações sobre Cláudio Castro e o “Corredor do Rio” tem potencial maior do que o caso Vorcaro e pode implodir o projeto político do clã Bolsonaro.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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