Os donos da Rio Previdência? Caso de cadeia longa e justa.Sócio de Paulo Figueiredo, fiel escudeiro de Eduardo Bolsonaro, Ricardo Siqueira Rodrigues foi flagrado pela PF em áudio em que diz a Vorcaro que a RioPrevidência teria um “dono”, que seria um político acima de Cláudio Castro para autorizar aportes no Master
Por Plínio Teodoro
Ex-sócio de Paulo Figueiredo, o fiel escudeiro de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como o principal articulador político e lobista da captação de recursos do ex-governo Cláudio Castro (PL) para o Banco Master, afirmou em entrevista a Fábio Leite, do site Metrópoles, que vai entregar à Polícia Federal (PF) o nome do político que seria o “dono” da Rio Previdência que, segundo as investigações, frenou cerca de R$ 3 bilhões de servidores aposentados do Rio de Janeiro aos negócios de Daniel Vorcaro.
Em mensagem de áudio a Daniel Vorcaro, em 2023, “Ricardo Gordo”, como é conhecido no mercado financeiro, teria dito que a RioPrevidência teria um “dono”, responsável pelo “encaminhamento político” para alocar os recursos dos servidores ao Master.
“O que eu posso fazer é dar um encaminhamento técnico. Lá (RioPrevidência) é diferente dos outros lugares, mas esse encaminhamento político tem que ser feito, porque lá tem dono, tá?”, disse Rodrigues a Vorcaro no áudio trancrito pela polícia e revelado na decisão de André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou ação de busca e apreensão contra Cláudio Castro e outros alvos, entre ele o próprio suspeito de ser o operador do banqueiro.
Na entrevista, Rodrigues disse que está aguardando para prestar depoimento à PF para entregar o nome do nome do político que seria o “dono” da RioPrevidência e que, segundo ele, estaria acima até do próprio ex-governador, Cláudio Castro.
“O Cláudio Castro, com quem eu nunca tive contato, é claro que tinha uma influência enorme, já que era o governador do Estado. Mas eu entendo que não era só ele que tinha influência bem elevada com relação à possibilidade ou não de liberar esses investimentos [do RioPreviência] para serem feitos [no Master]”, afirmou.
Indagado se seria Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, que recebeu R$ 6,4 milhões do banqueiro por meio de escritório de advocacia, Rodrigues desconversou, sinalizando que teria alguém ainda maior acima.
“Prefiro não me manifestar muito nesse momento a respeito desse assunto. Mas já escutei, assim como diversas pessoas já me falaram também a respeito disso [influência de Rueda no RioPrevidência]. Mas eu prefiro me resguardar de declinar nomes nesse momento”, afirmou.
Fabiano Zettel
Rodrigues ainda afirmou que foi convidado para compor a estrutura no entorno de Daniel Vorcaro pelo pastor da Igreja Lagoinha Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, que doou R$ 5 milhões para as campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) em 2022.
“O que aconteceu é que em outubro de 2023 eu fui procurado pelo Fabiano Zettel, que me me indicou para uma conversa com o Daniel Vorcaro. Eles, nessa época, tinham aprovado no Banco Central um plano de negócios em que a autoridade monetária tinha autorizado a captar R$ 17 bilhões junto a regimes próprios de Previdência do servidor”, revelou.
Master: operador contratado por Daniel Vorcaro fala ao Metrópoles após ser alvo da PF
A decisão de Mendonça descreve Ricardo Siqueira como responsável pela “intermediação política e operacional” para garantir a transferência dos recursos ao banco de Vorcaro. Em mensagens interceptadas, o lobista garante que resolveria os trâmites burocráticos, restando apenas o “alinhamento político”. Siqueira chega a afirmar que a autarquia fluminense tinha um “dono” que precisava autorizar a movimentação internamente.
A eficiência do lobby era comemorada nos diálogos. Em uma das conversas enviadas a Vorcaro, Siqueira celebra ter atingido a meta de captação “em apenas 45 dias” e projeta um “pipeline” superior a R$ 1 bilhão para o primeiro semestre.
Comissão de 0,6%
Segundo a investigação, o custo do esquema era uma comissão de 0,6% sobre o valor investido pelo regime próprio de previdência fluminense no Banco Master. Os recursos escoavam por meio da Mídias Promotora Ltda., empresa vinculada a Siqueira.
Para a Polícia Federal e o STF, a empresa funcionava como um canal para maquiar a propina, emitindo notas por supostos serviços de captação sem lastro na realidade. Dessa forma, dava-se aparência de legalidade a pagamentos vultosos que não possuíam correspondência lícita.
A operação também mirou a Planner Corretora de Valores S.A., acusada de servir como anteparo formal para as transações, permitindo o aumento de taxas de corretagem com potencial ampliação da remuneração dos operadores do esquema.
PGR aponta aportes de R$ 3,69 bilhões
O volume da operação investigada supera o divulgado inicialmente pela PF. Embora a corporação cite cerca de R$ 3 bilhões, a Procuradoria-Geral da República (PGR) informou ao STF que as tratativas apuradas viabilizaram R$ 3,691 bilhões em investimentos no Master, somando aplicações em fundos e Letras Financeiras.
A atual fase da investigação é desdobramento da Operação Barco de Papel, que já havia identificado aportes suspeitos do Rioprevidência em Letras Financeiras de banco privado no valor aproximado de R$ 970 milhões, entre outubro de 2023 e julho de 2024. Nesta nova etapa, a PF foca nas aplicações de R$ 2,01 bilhões, realizadas a partir de julho de 2024, em fundos de investimento da mesma instituição.
A condenação na CVM pelo caso Trump Hotel
A presença de Siqueira na bilionária captação do Banco Master indica a continuidade de sua atuação junto a fundos institucionais. O caso do Trump Hotel (FIP LSH) rendeu condenações pesadas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Em voto de julgamento do processo administrativo, a CVM condenou Ricardo Siqueira Rodrigues ao pagamento de R$ 53,31 milhões em multa por operação fraudulenta no mercado de valores mobiliários.
O documento descreve o fundo como constituído em 2012 pelos sócios Ricardo Rodrigues, Arthur Soares Filho e Paulo Figueiredo Filho. Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho e Paulo Renato de Oliveira Figueiredo também figuram entre os condenados no mesmo processo.
O documento da CVM também cita a BRB DTVM entre os acusados. Segundo o voto, a autarquia recebeu e-mails entre representantes da LSH Barra e a então administradora do fundo, com indícios de irregularidades na captação de recursos de entidades de previdência complementar para o projeto.
