Ronaldo Bento, Hugo Motta e Master: repasse de R$ 11 milhões fecha trilha do crédito consignado no ex-governo Bolsonaro.

ronaldo bento_motta_vorcaroRonaldo Bento – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Lula Marques/Agência Brasil e Reprodução

Dados fiscais revelados pelo Intercept consolidam apuração exclusiva da Fórum sobre a transição do ex-ministro entre o Auxílio Brasil, o Republicanos e o ecossistema de Daniel Vorcaro.

Por: Diego Feijó de Abreu, na Revista Fórum
A revelação de que o ex-ministro da Cidadania, Ronaldo Bento, (Republicanos-BA) e empresas ligadas a ele receberam R$ 11 milhões do Banco Master nos últimos dois anos confere materialidade fiscal a uma sequência investigativa conduzida pela Fórum sobre o consignado do Auxílio Brasil, o Republicanos, Hugo Motta e o ecossistema empresarial de Daniel Vorcaro, que teve início durante o ex-governo de Jair Bolsonaro (PL).
O dado foi publicado inicialmente pelo Intercept Brasil nesta terça-feira (16), a partir de declarações de Imposto de Renda do Banco Master enviadas pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado do Senado. A revelação consolida a linha já documentada pela Fórum: Bento saiu da regulação de uma política pública voltada a famílias pobres, migrou para empresas do setor de consignado e passou a ocupar cargos em estruturas conectadas ao grupo financeiro de Vorcaro.
A trilha também passa por Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara dos Deputados. Motta aparece na origem legislativa que ampliou a base do consignado do Auxílio Brasil, no mesmo partido ao qual Bento se filiou depois de deixar o governo Bolsonaro e, em outro desdobramento recente, em relatório da Polícia Federal que aponta o pagamento de sua hospedagem por Daniel Vorcaro em Lisboa.

Ronaldo Bento, Hugo Motta e a arquitetura do consignado

A estruturação do consignado para beneficiários de baixa renda começou no Congresso antes de Ronaldo Bento assumir formalmente o Ministério da Cidadania. Conforme a Agência Câmara, Hugo Motta foi autor da emenda incorporada ao substitutivo de João Roma que tornou permanente o benefício extraordinário do Auxílio Brasil, consolidando o piso de R$ 400.

A mesma tramitação abriu uma frente decisiva para o mercado financeiro. O texto relatado por Roma permitiu que o benefício complementar integrasse o conjunto de valores usados como base para o crédito consignado autorizado pela MP 1106/22. Na prática, a mudança aumentou o valor que beneficiários poderiam comprometer como garantia em empréstimos.

Com o terreno legislativo preparado, Ronaldo Bento assumiu a pasta e, em 26 de setembro de 2022, assinou a Portaria MC nº 816. A norma estabeleceu os procedimentos operacionais para a consignação de parcelas de empréstimos pessoais nos benefícios do Programa Auxílio Brasil, incluindo habilitação de instituições financeiras, averbação de contratos, desconto em folha e responsabilidades de acompanhamento pelo ministério.

A Fórum recuperou essa cronologia ao revelar como o ex-ministro de Bolsonaro turbinou o crédito consignado no Auxílio Brasil antes de atuar no Master. A apuração mostrou a engrenagem formada por João Roma, Hugo Motta e Ronaldo Bento na ampliação e na operacionalização da modalidade.

Ronaldo Bento saiu do ministério para o setor privado

A transição de Ronaldo Bento para o mercado financeiro ocorreu depois da mudança de governo. Em sua primeira apuração exclusiva sobre o caso, a Fórum documentou que o ex-ministro virou diretor de braço do Master e atuou em crédito consignado.

O ponto central da reportagem foi a Mettacard Administradora de Cartões. A empresa era licenciada pelo Banco Master e atuava com cartão de benefícios consignado, produto voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Bento assumiu a administração da companhia depois de ter comandado a pasta responsável por implantar o consignado no Auxílio Brasil.

A movimentação não parou na Mettacard. A Fórum revelou, em nova exclusiva, que Ronaldo Bento ganhou cargo em banco herdeiro do consignado do Master. A instituição era o Banco Pleno, que abrigava executivos historicamente ligados a Daniel Vorcaro e ao antigo Banco Voiter.

Banco Pleno ampliou a conexão entre Master e bolsonarismo

Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Pleno, em fevereiro de 2026, a Fórum mostrou que o caso ia além da trajetória individual de Ronaldo Bento. A reportagem apontou que o banco liquidado era mais um elo entre o Master e a aliança entre Centrão e bolsonarismo no Distrito Federal.

O Pleno havia sido comandado por Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e ex-sócio de Vorcaro, e reunia personagens com trânsito no bolsonarismo. A liquidação do banco acrescentou uma camada institucional à apuração: a relação entre o ex-ministro que operacionalizou o consignado do Auxílio Brasil e uma estrutura financeira vinculada ao entorno do Master passou a ser atravessada por uma intervenção do Banco Central.

O dado fiscal revelado agora pelo Intercept dá peso financeiro à sequência. Dos R$ 11 milhões repassados pelo Master, R$ 773,3 mil foram direcionados à pessoa física de Bento. A maior parcela, R$ 6,2 milhões, foi para a Meta Consultoria, empresa da qual o ex-ministro é sócio. A Mettacard recebeu R$ 2,98 milhões no período em que Bento administrava a companhia. A CLT Participações, associada à Meta na criação da Beta Serviços Financeiros, recebeu R$ 1,2 milhão.

A assessoria de Ronaldo Bento disse ao Intercept que os pagamentos se referem à remuneração por trabalho de assessoria prestado à instituição financeira, que os valores foram declarados ao fisco e que não há irregularidade nas operações citadas.

Hugo Motta, Republicanos e o elo partidário de Bento

O elo político também passou pelo Republicanos. Depois de deixar o governo Bolsonaro, Ronaldo Bento se filiou ao partido. O registro oficial da legenda, publicado em 20 de junho de 2023, apresenta Bento como ex-ministro da Cidadania, servidor público de carreira e integrante do governo de Jair Bolsonaro.

A filiação é relevante porque aproximou Bento da legenda de Hugo Motta. O atual presidente da Câmara já havia atuado na etapa legislativa que ampliou o piso do Auxílio Brasil e, portanto, o potencial de comprometimento do benefício no crédito consignado. Registros partidários em redes sociais também mostraram Motta no ato de assinatura da ficha de filiação do ex-ministro.

Essa conexão não transforma a filiação em irregularidade, mas ajuda a organizar a sequência política do caso: Hugo Motta atuou na emenda que ampliou a base do Auxílio Brasil; Ronaldo Bento regulamentou a operação do consignado; depois, Bento entrou no Republicanos e migrou para empresas do ecossistema Master.

Vorcaro pagou hospedagem de Hugo Motta, diz PF

A presença de Hugo Motta no caso ganhou novo peso com outra revelação da Fórum. Segundo relatório da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro pagou a hospedagem de Hugo Motta em Lisboa durante o Gilmarpalooza de 2024.

A reportagem mostrou que o banqueiro também bancou hospedagem do senador Ciro Nogueira (PP-PI) no período do evento jurídico. O registro da PF colocou o presidente da Câmara em outra frente da investigação sobre Vorcaro, agora ligada a despesas custeadas pelo dono do Master em Portugal.

À imprensa, Motta afirmou não ver problema no pagamento da hospedagem, disse que se tratava de evento corporativo e declarou ter tranquilidade sobre suas relações. A manifestação pública não elimina o interesse jornalístico do cruzamento: o mesmo parlamentar aparece na arquitetura legislativa do consignado, no ato partidário de Bento e em relatório da PF sobre custeio de despesas por Vorcaro.

CGU apontou pico eleitoral e descontos indevidos

A política pública formatada no Ministério da Cidadania foi depois analisada pela Controladoria-Geral da União. Segundo a CGU, 93% dos contratos de crédito consignado do Auxílio Brasil foram firmados em outubro de 2022, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial.

O órgão apontou cerca de R$ 8 milhões em descontos indevidos sobre benefícios de famílias do programa e informou que pelo menos 56 mil famílias foram impactadas por falhas. A auditoria também registrou ausência de informações sobre estudos, discussões e análises que embasassem a regulamentação operacional do consignado pelo então Ministério da Cidadania.

A CGU destacou ainda que a taxa de juros foi fixada em 3,5% ao mês sem justificativa identificada pela auditoria, enquanto a média dos consignados no período era de 2,13% ao mês. O relatório encaminhou os achados à Justiça Eleitoral para análise de possível uso eleitoral do benefício.

Matérias da Fórum levaram Bento à mira da CPMI

As reportagens da Fórum tiveram consequência política no Congresso. Após a série de publicações sobre os vínculos de Ronaldo Bento com empresas do ecossistema Master, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apresentou requerimento para ouvir o ex-ministro na CPMI do INSS.

A Fórum noticiou que Bento virou alvo de pedido de convocação na CPMI do INSS após matéria da Fórum. O requerimento citava a atuação do ex-ministro na implementação do consignado do Auxílio Brasil e seus vínculos posteriores com empresas ligadas ao Master.

A revelação dos R$ 11 milhões agora acrescenta dado fiscal à trilha investigativa. Ao cruzar registros legislativos, portarias ministeriais, auditoria da CGU, filiação partidária, cargos no setor privado, liquidação bancária e relatório da PF, o caso consolida o desenho de uma porta giratória: a base de uma política social foi convertida em mercado de crédito, enquanto personagens ligados à sua criação e operacionalização passaram a circular no entorno político e empresarial do Banco Master.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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