Ronaldo Bento – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Lula Marques/Agência Brasil e Reprodução
Dados fiscais revelados pelo Intercept consolidam apuração exclusiva da Fórum sobre a transição do ex-ministro entre o Auxílio Brasil, o Republicanos e o ecossistema de Daniel Vorcaro.
Ronaldo Bento, Hugo Motta e a arquitetura do consignado
A estruturação do consignado para beneficiários de baixa renda começou no Congresso antes de Ronaldo Bento assumir formalmente o Ministério da Cidadania. Conforme a Agência Câmara, Hugo Motta foi autor da emenda incorporada ao substitutivo de João Roma que tornou permanente o benefício extraordinário do Auxílio Brasil, consolidando o piso de R$ 400.
A mesma tramitação abriu uma frente decisiva para o mercado financeiro. O texto relatado por Roma permitiu que o benefício complementar integrasse o conjunto de valores usados como base para o crédito consignado autorizado pela MP 1106/22. Na prática, a mudança aumentou o valor que beneficiários poderiam comprometer como garantia em empréstimos.
Com o terreno legislativo preparado, Ronaldo Bento assumiu a pasta e, em 26 de setembro de 2022, assinou a Portaria MC nº 816. A norma estabeleceu os procedimentos operacionais para a consignação de parcelas de empréstimos pessoais nos benefícios do Programa Auxílio Brasil, incluindo habilitação de instituições financeiras, averbação de contratos, desconto em folha e responsabilidades de acompanhamento pelo ministério.
A Fórum recuperou essa cronologia ao revelar como o ex-ministro de Bolsonaro turbinou o crédito consignado no Auxílio Brasil antes de atuar no Master. A apuração mostrou a engrenagem formada por João Roma, Hugo Motta e Ronaldo Bento na ampliação e na operacionalização da modalidade.
Ronaldo Bento saiu do ministério para o setor privado
A transição de Ronaldo Bento para o mercado financeiro ocorreu depois da mudança de governo. Em sua primeira apuração exclusiva sobre o caso, a Fórum documentou que o ex-ministro virou diretor de braço do Master e atuou em crédito consignado.
O ponto central da reportagem foi a Mettacard Administradora de Cartões. A empresa era licenciada pelo Banco Master e atuava com cartão de benefícios consignado, produto voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Bento assumiu a administração da companhia depois de ter comandado a pasta responsável por implantar o consignado no Auxílio Brasil.
A movimentação não parou na Mettacard. A Fórum revelou, em nova exclusiva, que Ronaldo Bento ganhou cargo em banco herdeiro do consignado do Master. A instituição era o Banco Pleno, que abrigava executivos historicamente ligados a Daniel Vorcaro e ao antigo Banco Voiter.
Banco Pleno ampliou a conexão entre Master e bolsonarismo
Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Pleno, em fevereiro de 2026, a Fórum mostrou que o caso ia além da trajetória individual de Ronaldo Bento. A reportagem apontou que o banco liquidado era mais um elo entre o Master e a aliança entre Centrão e bolsonarismo no Distrito Federal.
O Pleno havia sido comandado por Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e ex-sócio de Vorcaro, e reunia personagens com trânsito no bolsonarismo. A liquidação do banco acrescentou uma camada institucional à apuração: a relação entre o ex-ministro que operacionalizou o consignado do Auxílio Brasil e uma estrutura financeira vinculada ao entorno do Master passou a ser atravessada por uma intervenção do Banco Central.
O dado fiscal revelado agora pelo Intercept dá peso financeiro à sequência. Dos R$ 11 milhões repassados pelo Master, R$ 773,3 mil foram direcionados à pessoa física de Bento. A maior parcela, R$ 6,2 milhões, foi para a Meta Consultoria, empresa da qual o ex-ministro é sócio. A Mettacard recebeu R$ 2,98 milhões no período em que Bento administrava a companhia. A CLT Participações, associada à Meta na criação da Beta Serviços Financeiros, recebeu R$ 1,2 milhão.
A assessoria de Ronaldo Bento disse ao Intercept que os pagamentos se referem à remuneração por trabalho de assessoria prestado à instituição financeira, que os valores foram declarados ao fisco e que não há irregularidade nas operações citadas.
Hugo Motta, Republicanos e o elo partidário de Bento
O elo político também passou pelo Republicanos. Depois de deixar o governo Bolsonaro, Ronaldo Bento se filiou ao partido. O registro oficial da legenda, publicado em 20 de junho de 2023, apresenta Bento como ex-ministro da Cidadania, servidor público de carreira e integrante do governo de Jair Bolsonaro.
A filiação é relevante porque aproximou Bento da legenda de Hugo Motta. O atual presidente da Câmara já havia atuado na etapa legislativa que ampliou o piso do Auxílio Brasil e, portanto, o potencial de comprometimento do benefício no crédito consignado. Registros partidários em redes sociais também mostraram Motta no ato de assinatura da ficha de filiação do ex-ministro.
Essa conexão não transforma a filiação em irregularidade, mas ajuda a organizar a sequência política do caso: Hugo Motta atuou na emenda que ampliou a base do Auxílio Brasil; Ronaldo Bento regulamentou a operação do consignado; depois, Bento entrou no Republicanos e migrou para empresas do ecossistema Master.
Vorcaro pagou hospedagem de Hugo Motta, diz PF
A presença de Hugo Motta no caso ganhou novo peso com outra revelação da Fórum. Segundo relatório da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro pagou a hospedagem de Hugo Motta em Lisboa durante o Gilmarpalooza de 2024.
A reportagem mostrou que o banqueiro também bancou hospedagem do senador Ciro Nogueira (PP-PI) no período do evento jurídico. O registro da PF colocou o presidente da Câmara em outra frente da investigação sobre Vorcaro, agora ligada a despesas custeadas pelo dono do Master em Portugal.
À imprensa, Motta afirmou não ver problema no pagamento da hospedagem, disse que se tratava de evento corporativo e declarou ter tranquilidade sobre suas relações. A manifestação pública não elimina o interesse jornalístico do cruzamento: o mesmo parlamentar aparece na arquitetura legislativa do consignado, no ato partidário de Bento e em relatório da PF sobre custeio de despesas por Vorcaro.
CGU apontou pico eleitoral e descontos indevidos
A política pública formatada no Ministério da Cidadania foi depois analisada pela Controladoria-Geral da União. Segundo a CGU, 93% dos contratos de crédito consignado do Auxílio Brasil foram firmados em outubro de 2022, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial.
O órgão apontou cerca de R$ 8 milhões em descontos indevidos sobre benefícios de famílias do programa e informou que pelo menos 56 mil famílias foram impactadas por falhas. A auditoria também registrou ausência de informações sobre estudos, discussões e análises que embasassem a regulamentação operacional do consignado pelo então Ministério da Cidadania.
A CGU destacou ainda que a taxa de juros foi fixada em 3,5% ao mês sem justificativa identificada pela auditoria, enquanto a média dos consignados no período era de 2,13% ao mês. O relatório encaminhou os achados à Justiça Eleitoral para análise de possível uso eleitoral do benefício.
Matérias da Fórum levaram Bento à mira da CPMI
As reportagens da Fórum tiveram consequência política no Congresso. Após a série de publicações sobre os vínculos de Ronaldo Bento com empresas do ecossistema Master, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apresentou requerimento para ouvir o ex-ministro na CPMI do INSS.
A Fórum noticiou que Bento virou alvo de pedido de convocação na CPMI do INSS após matéria da Fórum. O requerimento citava a atuação do ex-ministro na implementação do consignado do Auxílio Brasil e seus vínculos posteriores com empresas ligadas ao Master.
A revelação dos R$ 11 milhões agora acrescenta dado fiscal à trilha investigativa. Ao cruzar registros legislativos, portarias ministeriais, auditoria da CGU, filiação partidária, cargos no setor privado, liquidação bancária e relatório da PF, o caso consolida o desenho de uma porta giratória: a base de uma política social foi convertida em mercado de crédito, enquanto personagens ligados à sua criação e operacionalização passaram a circular no entorno político e empresarial do Banco Master.
