China avalia regra de defensivos e decisão pode impactar agronegócio do Nordeste

Proposta chinesa de revisão em agroquímicos ameaça custos no Brasil; no Nordeste do país, governos já monitoram o setor com atenção às possíveis mudanças da China.

Do portal Movimento Econômico.

O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA) abriu consulta pública para avaliar uma ampla reformulação nos requisitos de registro de agroquímicos em seu mercado interno. A proposta em discussão no país asiático vem sendo acompanhada de perto pelo setor produtivo nacional, pois uma eventual alteração nas regras chinesas pode trazer reflexos diretos para todo o agronegócio brasileiro, com desdobramentos de grande atenção para o Nordeste e a fronteira agrícola do Matopiba.

​A consulta pública chinesa segue aberta até o próximo dia 21. ​As mudanças em análise preveem a padronização e o reforço das exigências em dossiês eletrônicos para o cadastro de produtos.

Caso a proposta seja aprovada na forma atual, fabricantes de itens que utilizam determinados adjuvantes passarão a ter que apresentar dados adicionais sobre toxicologia, eficácia, parâmetros ambientais, resíduos e características físico-químicas.

​Proposta em debate prevê análise mais rígida de formulações

O texto submetido à consulta pública também sugere a ampliação dos controles e a instituição de prazos de proteção de dados de seis anos para produtos com novos compostos.

Além disso, alterações de formulações, misturas e ampliações de uso dos defensivos exigirão justificativas e fundamentação científica detalhadas. ​Se confirmadas, as novas exigências técnicas podem encarecer a geração de dados e ampliar os prazos de registro na China.

Na avaliação do economista e coordenador de Pós-graduação da Unit, Edgar Leonardo, os eventuais desdobramentos da proposta merecem análise preventiva, pois tendem a extrapolar o mercado chinês e impactar o abastecimento global.

​”Ao aumentar a complexidade para registrar um agroquímico, algumas empresas menores podem deixar de atuar nesse mercado, reduzindo a quantidade de produtos e de fornecedores disponíveis, o que reduz a concorrência”, analisa Edgar Leonardo ao Movimento Econômico.

​Discussão sobre concorrência e dependência do mercado brasileiro

O economista pondera que uma eventual redução na quantidade de fabricantes atuantes no mercado chinês pode elevar a concentração na indústria global de defensivos, fortalecendo o poder de mercado de grandes companhias já consolidadas.

​Essa possibilidade acende um alerta para a agricultura brasileira como um todo, tendo em vista a elevada dependência que a produção nacional possui da importação de insumos agrícolas procedentes do mercado chinês.

​”Se houver uma redução da oferta ou um aumento da concentração global, podemos ter impacto sim nos preços de defensivos nos custos de produção e consequentemente impactar nossa competitividade”, argumenta o economista.

“Portanto, não é apenas uma mudança regulatória. É uma mudança na estrutura de custos e potencialmente na de concorrência do mercado global de insumos agrícolas o que tem que ser muito bem analisado e acompanhado estrategicamente pelo agronegócio brasileiro”, acrescenta Edgar Leonardo.

​Atenção voltada ao Matopiba e às lavouras do Cerrado

Apesar do risco generalizado para o país, a discussão ganha contornos decisivos no Nordeste, especialmente na região do Matopiba, que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, polo de expansão de grãos altamente dependente de insumos.

O diretor de Operações Internas da Secretaria de Planejamento do Piauí, Eduardo Nobre, destaca a relevância do país asiático no suprimento de defensivos. ​”A revisão nas exigências chinesas de registro de agroquímicos é um tema que acompanhamos com atenção, dado o peso da China no fornecimento de defensivos para o Brasil”, afirma Nobre.

​O gestor pondera que possíveis oscilações no preço dos insumos decorrentes do debate internacional seriam somadas a outros custos que afetam as lavouras do Cerrado piauiense e nordestino.

“No Piauí, os impactos tendem a se somar a pressões de custo que a produção já vem enfrentando, como o câmbio e o preço de insumos, especialmente nas culturas de soja, milho e algodão que sustentam o cerrado piauiense”, ressalta.

lavoura de milho
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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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