Mendonça marcou ‘reunião cilada’ para mandar PF fazer relatório de Moraes.

Fabio Serapião, Colunista do UOL

O pedido do ministro do STF André Mendonça para que a Polícia Federal produzisse um relatório sobre as mensagens de Daniel Vorcaro, que acabou revelando a relação do banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes, foi feito à equipe de investigadores em uma “reunião cilada”, na visão de integrantes da corporação ouvidos pelo UOL.

A convocatória para a reunião, que aconteceu na segunda (24), foi feita aos investigadores da Operação Compliance Zero pelo gabinete de Mendonça no final de semana anterior, sob a justificativa de que era preciso debater um tema da investigação sobre o Banco Master.

A pauta não tinha relação com Moraes ou com as suspeitas de vazamento da apuração quando a investigação ainda tramitava na 10ª Vara Federal em Brasília.

No horário marcado, os investigadores foram até o gabinete de Mendonça. O ministro iniciou a conversa falando sobre o caso específico indicado como motivo da reunião, mas logo colocou na mesa a decisão assinada por ele —sem data— em que determinava a produção do relatório com as mensagens de Vorcaro.

A ordem era para a PF identificar as pessoas envolvidas nas conversas com Vorcaro que indicavam o acesso do banqueiro a informações sobre a investigação da 10ª Vara Federal em Brasília, de onde saiu a primeira ordem de prisão contra ele, em novembro de 2025.

Parte dessas mensagens já havia sido citada pela própria PF em relatórios tornados públicos. Algumas embasaram reportagem da

jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, sobre Moraes ser o possível interlocutor de Vorcaro em conversas às vésperas e no dia de sua prisão.

Como a PF não identificou o interlocutor, mesmo após as mensagens sobre o vazamento serem citadas na terceira e sexta fases da Compliance Zero, o entendimento exposto por Mendonça é de que havia uma falha a ser corrigida.

Na reunião com os investigadores da PF, o ministro sinalizou que não tinha conhecimento do que viria no relatório e pediu a produção de um só documento, que deveria conter todos os interlocutores e as conversas sobre o tema citadas na decisão.

Mendonça não citou Moraes em nenhum momento na decisão nem sinalizou aos investigadores que o ministro seria o interlocutor sobre quem ele queria um relatório.

No gabinete de Mendonça, há uma cópia da íntegra do celular de Vorcaro, com todas as mensagens. O material, afirmam integrantes do gabinete, está lacrado. Dessa forma, até então, a indicação de que era Moraes quem conversava com Vorcaro havia sido feita apenas na imprensa e desmentida pelo próprio Moraes em nota.

Reunião tensa

Dadas as explicações, a equipe de investigadores da PF iniciou a produção do relatório e, na última quinta-feira, entregou o documento ao gabinete de Mendonça, três dias após a determinação do magistrado.

Nenhum encaminhamento havia sido feito até que, na última segunda, Mendonça recebeu a visita de Moraes em seu gabinete. Em um clima tenso, Moraes acusou Mendonça de conduzir uma investigação contra ele.

Mendonça teria retrucado e afirmado que a PF foi a responsável por enviar o relatório com as mensagens que expuseram as relações entre o ministro e Vorcaro. Moraes então rebateu, disse que Mendonça mentia e cobrou que o ministro enviasse o caso à Procuradoria-Geral da República e à apreciação pelo plenário do STF.

Após o envio do material à PGR se tornar público em reportagem do Metrópoles e parte do conteúdo ser noticiado pelo Estadão, Mendonça tirou o sigilo do relatório nesta terça-feira.

A reunião de Mendonça com os delegados, vista como uma cilada internamente na PF, deu início a mais um capítulo da crise institucional que envolve todos poderes, a PF, a PGR e rachou o Supremo Tribunal Federal.

Como mostrou a colunista do UOL Natália Portinari, a direção da PF viu o pedido de Mendonça como abuso de autoridade e com potencial de causar nulidades na investigação do caso Master.

A PGR, ainda na noite de ontem, pediu a nulidade da ordem de Mendonça que resultou na produção do relatório e na exposição da relação de Vorcaro com Moraes.

No STF, as opiniões dos ministros deverão ser expostas quando o caso for levado ao Plenário.

No gabinete de Mendonça, o pedido do relatório não é visto como um ato de investigação, como argumenta a PGR, mas como parte da supervisão judicial prevista.

O argumento é que o pedido mirava apenas o material bruto das conversas, sem qualquer tipo de análise, busca de informações em fontes abertas ou outro tipo de diligência investigativa.

O convite para a reunião com integrantes da PF, na versão de integrantes do gabinete do ministro, normalmente é feito de forma genérica, apenas apontando a operação, no caso a do Master.

 

Avatar de Desconhecido

Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

Deixe um comentário