Um artigo de Tarso Genro, definindo com clareza a atual situação política do País

A contradição política fundamental e estrutural que o campo político democrático brasileiro deve enfrentar unido, neste momento eleitoral, não é o debate com a imprensa e com as formações de direita, sobre a necessidade do “ajuste”.

A questão política central é se vamos viabilizar um governo democrático e progressista, para enfrentarmos os problemas nacionais dentro da Lei e da Ordem Constitucional de 88 ou vamos entregar o estado brasileiro para a extrema direita associada com o crime organizado e ao trumpismo colonial-imperial.

No turbilhão que a grande imprensa chama de “pior crise do Supremo” sugiro uma pausa para a sensatez, que propõe uma reflexão não conjuntural, mas estrutural, sobre o que realmente está acontecendo.

Não é verdade que a “crise do Supremo” seja a pior da sua história. Nem que uma crise de Estado esteja em evolução; nem que haja neste momento uma desagregação do sistema de Justiça que, se estivesse ocorrendo, só poderia ser atribuível ao povo brasileiro que, elegeu, isto sim, o pior Poder Legislativo da História brasileira. E que acolheu pelo menos um Juiz que se opõe abertamente ao estado laico, defeito místico e “feudal”, inclusive maior do que quaisquer dos defeitos de qualquer Ministro do STF, em todos os tempos!

O que está ocorrendo, na verdade, é uma maturação do Estado de Direito no Brasil, monitorada e influenciada pelo “partido da imprensa” (hereditária), que é o maior agrupamento político formador da subjetividade popular-nacional.

Mas, não nos precipitemos. A imprensa tradicional livre é um organismo vivo e necessário, para a evolução da opinião na sociedade civil, tanto pelos seus méritos como pelos seus deméritos.

Este “partido da imprensa” se opõe continuadamente, a todos os partidos reais, que são apresentados ordinariamente como corruptos e sem “projeto”, avocando – desta forma – para si, uma espécie de corregedoria de checagem das virtudes públicas ( mesmo numa sociedade que também já cria e divulga opiniões em rede), impactando os períodos eleitorais com uma visão uniforme: tudo que ocorre no Brasil vem pela degradação das relações políticas reais, num país politicamente cindido, cisão que ela mesma ajudou a criar, com a naturalização da extrema direita e do fascismo, como se este também fosse uma força política democrática legítima. E também promoveu um apoio silencioso e vital, em conjunto com o próprio STF, ao golpe contra Dilma.

O “partido da imprensa” é um partido que tem, como oferta mercantil, a notícia que é a sua mercadoria contraditória e especial. E esta mercantilização normal da informação em qualquer sociedade moderna, tanto pode sugerir – como fez majoritariamente a imprensa brasileira- que Bolsonaro era apenas um político normal, que apenas tinha um “jeito muito próprio de dizer as coisas”, como publicou e difundiu informações valiosas contra o negacionismo climático e ambiental e a corrupção.

Estas contradições são pertinentes e necessárias para o exercício da democracia em qalquer país que se preze como democracia constitucional. Para sabermos em momentos críticos, todavia, em quem acreditar, temos que saber ler os textos e os metatextos dos discursos informativos dos jornalistas profissionais.

Estes, os jornalistas, são sempre informados – tanto pelas convicções próprias, quanto pelos interesses dos seus patrões. Sob estas condições podem, ou não, transitar em cada informação publicada trazer informações valiosas paa debate democrático ou ostensivamente manipulá-lo.

Aponto aqui alguns critérios para avaliar a lisura da informação de qualquer jornalista, não só da grande imprensa, a partir da vida política pregressa dos seus profissionais:

1. foram apoiadores do golpe contra Dilma?;

2. apoiaram e pediram a prisão de Lula nos processos arbitrários da República de Curitiba?;

3. acharam natural o Presidente Bolsonaro dizer que a PF deveria ter cuidado para não investigar a sua família?

4. tratam com “respeito” a agressão imperial-colonial americana, que inclusive considera possível ocupações territoriais de outros países para colocá-los sob seu controle?

5. foram lenientes com as corrupções do Governo Bolsonaro?

6. disseram, em algum momento, que não ocorreu tentativa de Golpe de Estado no Brasil?

7. já designaram Lula como “nine” ou debocharam das lutas das mulheres contra o violencia e misoginia?

8. acham natural que algum Ministro cometa brutais ilegalidades para atacar um colega, dizendo – em tom de julgamento absoluto – sem entender nada de Direito Constitucional, direito penal ou administrativo – que “as situações são diferentes”?

Tarso Genro é advogado, foi prefeito de Porto Alegre, Governador do Rio Grande do Sul e Ministro da Justiça.

 

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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