Com base em Solonópole, lítio cearense reúne 30 empresas e R$ 5 mi em pesquisa.

Pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil em área da Subprovíncia Pegmatítica de Solonópole, no Ceará. Estudo do SGB avaliou 68 pegmatitos litiníferos e reforçou o potencial da região para novas pesquisas de lítio, césio e tântalo. Foto: SGB/Divulgação

Relatório do Serviço Geológico do Brasil aponta município do Sertão Central como principal polo cearense de pesquisa de lítio, com 126 processos minerários ativos

O Ceará ganhou novos dados para sustentar a expansão da pesquisa de lítio no estado. Estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB) avaliou 68 pegmatitos litiníferos na Subprovíncia Pegmatítica de Solonópole e apontou o distrito de Solonópole-Quixeramobim como o principal alvo regional para novas pesquisas de lítio, césio e tântalo.

O levantamento abrange aproximadamente 27 mil quilômetros quadrados no centro-leste do Ceará. A área reúne três distritos pegmatíticos: Solonópole-Quixeramobim, Itapiúna e Cristais-Russas, distribuídos por uma região que inclui municípios como Quixadá, Banabuiú, Russas e Solonópole.

​Além do potencial geológico, o relatório mostra que a corrida pela pesquisa do mineral já movimenta investimentos no estado. Entre 2019 e 2023, aproximadamente R$ 5 milhões foram aplicados na pesquisa de lítio em Solonópole, o equivalente a 68,48% de todo o valor destinado a essa finalidade no Ceará no período.

Somente em 2023, os investimentos chegaram a R$ 4,2 milhões. Os aportes anteriores haviam sido de R$ 100 mil em 2019, R$ 200 mil em 2020, R$ 100 mil em 2021 e R$ 400 mil em 2022, todos ainda na fase de autorização de pesquisa.

Lítio atrai 30 empresas a Solonópole

O movimento também aparece no número de empresas. Solonópole concentra 126 processos minerários ativos vinculados a 56 empresas, envolvendo lítio, rochas industriais, feldspato, quartzo, estanho, manganês, nióbio e outros minerais.

O lítio lidera o interesse empresarial, com 30 companhias atuantes segundo o relatório. São 29 em regime de autorização de pesquisa e uma concessão de lavra de ambligonita pertencente à MISA – Minerais Industriais S/A.

O SGB registra ainda um corredor de aproximadamente 17 a 20 quilômetros com afloramentos de pegmatitos litiníferos no entorno de Solonópole, distribuídos por uma área titulada de cerca de 124 quilômetros quadrados. No alvo Bom Jesus de Baixo, resultados preliminares indicam um sistema de pegmatitos com espessuras totais de até 16 metros e possível continuidade superior a 500 metros, que ainda precisa ser confirmada por sondagens e modelagem.

Os investimentos iniciais associados a essa frente de pesquisa são estimados pelo relatório em mais de R$ 22 milhões. O próprio documento ressalva, entretanto, que a implantação de unidades de beneficiamento dependerá da confirmação de reservas significativas, da viabilidade econômica e das condições ambientais, inclusive da disponibilidade de água no semiárido.

 

Método encontra 65 dos 68 pegmatitos

Para avaliar o potencial mineral, o SGB combinou geoquímica de sedimentos de corrente, análise química de rochas, geofísica aérea e terrestre, espectroscopia e estudos da composição dos minerais. Um dos resultados foi o desempenho do Índice Geoquímico de Probabilidade de Mineralização (IGPM), que detectou 65 dos 68 pegmatitos litiníferos visitados.

As análises identificaram diferentes graus de potencial nos três distritos estudados. Solonópole-Quixeramobim apresentou os resultados mais favoráveis à prospecção de pegmatitos com lítio e tântalo, enquanto o conjunto de amostras de Itapiúna mostrou indicadores menos favoráveis, embora o próprio estudo ressalte que foram analisadas poucas amostras nessa área.

O relatório compara ainda características mineralógicas encontradas em Solonópole-Quixeramobim com pegmatitos conhecidos no Canadá, Estados Unidos e Brasil. A comparação é usada como indicador para orientar a pesquisa, e não como comprovação da existência de depósitos de dimensão ou valor econômico semelhantes aos encontrados nesses locais.

Pesquisa acompanha alta da demanda por lítio

O interesse pelo Ceará acompanha a expansão mundial do uso do mineral. Atualmente, 87% do lítio produzido no mundo é destinado a baterias, utilizadas principalmente em veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de armazenamento de energia, segundo dados reunidos pelo SGB.

Em 2024, a produção mundial chegou a aproximadamente 240 mil toneladas de lítio contido, alta de 17,6% sobre 2023. O Brasil produziu 10 mil toneladas, atrás de Austrália, Chile, China, Zimbábue e Argentina, enquanto os recursos brasileiros foram estimados em 1,3 milhão de toneladas e as reservas em 390 mil toneladas.

No Ceará, entretanto, o novo estudo não calcula quanto lítio poderia ser economicamente extraído da Subprovíncia de Solonópole. O trabalho é prospectivo e busca fornecer dados para orientar novas pesquisas, modelos exploratórios e a identificação de áreas mineralizadas.

Ceará entra na agenda dos minerais críticos

A divulgação ocorre no momento em que o Brasil amplia a política para minerais críticos e estratégicos. Como mostrou o Movimento Econômico, a indústria extrativa desses minerais movimentou cerca de R$ 11 bilhões no Nordeste em 2024, segundo estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste (BNB), com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM).

Entre 2019 e 2023, a área de atuação do BNB recebeu R$ 1,81 bilhão em investimentos em pesquisa de minerais críticos e estratégicos, cerca de 40% do total nacional. A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos prevê instrumentos para ampliar pesquisa, produção, beneficiamento e agregação de valor no país.

O próprio levantamento do SGB coloca o lítio entre os minerais associados à transição energética e aponta o Ceará como área estratégica para novas descobertas. No caso de Solonópole, o avanço para uma eventual produção em escala dependerá das próximas etapas de pesquisa, da comprovação das reservas e da viabilidade econômica e ambiental dos projetos.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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