Polícia Federal apura suspeitas de atuação de servidores do Banco Central em favor do empresário Daniel Vorcaro
A Polícia Federal marcou para a próxima semana os depoimentos do presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, do ex-dirigente da instituição Roberto Campos Neto, e do controlador do BTG Pactual, André Esteves. Os três prestarão esclarecimentos como testemunhas. A informação foi publicada nesta quinta-feira (1) pelo jornal O Estado de S.Paulo.
A PF decidiu convocá-los depois que o ex-diretor do BC Paulo Sérgio Souza, investigado no caso, mencionou encontros que envolveram Galípolo, Campos Neto e Esteves em discussões sobre a situação do Master. Galípolo já havia confirmado em setembro que recebeu intimação para depor no início de outubro.
A programação prevê um depoimento por dia, embora os advogados possam solicitar mudanças nas datas. A PF pretende ouvir André Esteves na segunda-feira, Gabriel Galípolo na terça-feira e Roberto Campos Neto na quarta-feira.
Galípolo, Campos Neto, Esteves e Aquino figuram nessa etapa da investigação como testemunhas. A apuração concentra-se em suspeitas de que antigos integrantes do Banco Central teriam atuado em benefício de Vorcaro, inclusive com eventual compartilhamento de informações relacionadas à fiscalização. Os investigados negam irregularidades.
Ex-diretor citou reuniões sobre o Master
Em depoimento à PF, Sérgio Souza disse ter participado de discussões com integrantes da cúpula do BC sobre a situação financeira do Banco Master e sobre possíveis medidas diante dos problemas identificados pela fiscalização. O ex-diretor negou ter recebido propina de Vorcaro em troca de informações sigilosas.
Em suas declarações, o ex-diretor relatou divergências internas sobre uma eventual comunicação ao Ministério Público Federal relacionada às suspeitas envolvendo o Master e a negociação para a venda do banco ao Banco de Brasília (BRB). “Relata que comunicou ao diretor Ailton a necessidade de fazer a comunicação ao Ministério Público, e que a comunicação estava pronta”, afirmou Paulo Sérgio à PF.
O ex-diretor afirmou que, diante da situação, o BC precisaria avaliar a liquidação do banco ou uma alternativa negociada com outra instituição financeira.
“Naquela primeira reunião, o diretor Galípolo pediu um voto de confiança para a solução do BRB, por volta do final de fevereiro ou início de março; que, na segunda reunião, no final de junho, o diretor Galípolo afirmou que não faria comunicação ao Ministério Público por gestão temerária, pois a informação que havia recebido internamente era de que havia fraude na carteira”, afirmou.
Segundo Paulo Sérgio, Ailton de Aquino também lhe deu uma orientação durante o período em que Galípolo passava pela sabatina de sua indicação no Senado. O ex-diretor declarou que recebeu a recomendação de “jogar parado”.
O nome de André Esteves surgiu no inquérito porque o BTG Pactual chegou a analisar uma possível compra do Banco Master. Essa avaliação colocou a instituição no centro de reuniões citadas por Paulo Sérgio em seu depoimento.
O ex-diretor também relatou um episódio ocorrido no fim de 2024 e que envolveu o BTG e Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central.
Segundo Paulo Sérgio, Ailton de Aquino informou em novembro daquele ano que o BTG havia concluído uma due diligence, procedimento de análise realizado antes de uma negociação, sobre o Master e identificado uma suposta fraude de R$ 32 bilhões.
“Relata que a comunicação do BTG foi verbal, feita por telefone no dia 29 de novembro, e que o diretor Ailton lhe disse para ir a São Paulo na segunda-feira, pois na terça-feira o BTG faria uma apresentação; que a apresentação foi realizada no dia 3 de dezembro de 2024, estando presentes o presidente Roberto Campos Neto (…); que o BTG não entregou documentação na reunião”, afirmou Paulo Sérgio.
A PF busca esclarecer o contexto desses encontros, o conteúdo das informações compartilhadas e a atuação de servidores e ex-servidores do Banco Central diante da situação do Master.
A nova rodada de depoimentos ocorre em uma etapa avançada da investigação. Galípolo, Campos Neto, Esteves e Aquino deverão explicar à PF as circunstâncias das reuniões mencionadas e o conhecimento que tiveram sobre os fatos investigados.
Esquema do Master
A Operação Compliance Zero, deflagrada inicialmente em 2024, apura suspeitas de emissão de títulos de crédito falsos por instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional. A investigação aponta que essas instituições teriam registrado operações de crédito inexistentes, simulando empréstimos e outros valores a receber. Depois que o Banco Central aprovava os registros contábeis, os créditos fraudulentos e títulos de dívida eram trocados por outros ativos sem a devida avaliação técnica.
O Master captava recursos por meio de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), uma modalidade de renda fixa com remuneração previamente definida. O investimento conta com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), característica que faz com que o mercado o considere uma aplicação segura.
A instituição de Vorcaro oferecia remuneração muito superior à média praticada no mercado. Enquanto bancos costumam disponibilizar CDBs equivalentes a 100% da taxa de juros, o Master prometia retornos de até 140%. Esse modelo elevava o risco para os credores e transferia parte do custo ao FGC.
Nesse tipo de aplicação, o investidor entrega recursos ao banco e, no vencimento, recebe o montante aplicado acrescido dos juros. O Banco Master colocou no mercado R$ 50 bilhões em CDBs com remuneração acima das taxas praticadas por outras instituições, sem demonstrar que possuía liquidez suficiente para quitar esses papéis futuramente.
Segundo a investigação, o banco teria contabilizado investimentos em ativos inexistentes e adquirido “créditos” de uma empresa sem capacidade de pagamento para sustentar uma imagem de solidez financeira.
Em seguida, teria repassado esses créditos ao BRB, que desembolsou R$ 12,2 bilhões sem a documentação adequada. As apurações apontam que a operação contribuiu para reforçar artificialmente o caixa do Master.
