The Guardian: Flávio tem “ligações com membros das máfias paramilitares”

Periódico britânico também afirma que a intenção do senador Flávio Bolsonaro é livrar o pai, Jair Bolsonaro, da condenação por golpe de Estado, caso seja eleito no segundo turno no próximo dia 25.

O jornal The Guardian disse neste domingo (4/10) que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem “ligações com membros das máfias paramilitares do Rio”. A informação do periódico britânico faz contraponto a uma declaração do senador divulgada pelo jornal logo após sair o resultado do primeiro turno das eleições.

Com 99,99% das urnas apuradas, às 23h49, Flávio somava 56.104.049 votos (47,03% dos válidos) e Lula, 53.876.219 votos (45,16%). O segundo turno acontece no próximo dia 25.

No início da reportagem, o periódico britânico destacou uma fala de Flávio: “Estou mais do que pronto para liderar este país e dar às famílias brasileiras o direito de sonhar novamente”.

Em seguida, o jornal diz que embora Flávio prometa uma repressão implacável ao crime, o próprio senador tem “ligações com membros das máfias paramilitares do Rio”.

Cabe lembrar que Flávio Bolsonaro comemorou a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o CV (Comando Vermelho) como terroristas, mas ele e outros integrantes da família mantiveram relações com acusados de participar do crime organizado, em especial as milícias no Rio de Janeiro, conforme mostrou reportagem da Folha de São Paulo. 

Relembre algumas das ações e manifestações da família Bolsonaro ligadas às milícias e ao crime organizado.

Homenagem a Adriano da Nóbrega

O ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime, recebeu, em 2005, a visita na cadeia de Flávio e Jair Bolsonaro (PL).

Os políticos entregaram a Nóbrega a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) a personalidades que prestaram relevantes serviços à sociedade. A homenagem ocorreu a pedido de Flávio, então deputado estadual

Em 2003, o político já tinha feito uma homenagem a Nóbrega, que teria ocorrido a pedido do pai, segundo Jair afirmou à imprensa em 2020.

Nóbrega foi morto em uma operação da Polícia Militar da Bahia, em 2020, depois de ficar por mais de um ano foragido. Ele era acusado de uma série de homicídios no Rio de Janeiro e de envolvimento com máquinas caça-níqueis, proibidas no Brasil.

Emprego a parentes de miliciano e ‘rachadinha’

Além da homenagem, Flávio garantiu emprego na Alerj, até 2018, a Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa de Adriano da Nóbrega.

Elas tiveram salário de mais de R$ 6 mil no gabinete do deputado e, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, estavam envolvidas em um esquema de “rachadinha”, em que parte do salário dos assessores era devolvida ao político. O parlamentar sempre negou as acusações.

De acordo com os investigadores, Danielle repassou ao menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, policial militar aposentado que era assessor de Flávio. Desse volume, R$ 115 mil teriam sido transferidos por intermédio de contas bancárias controladas por Adriano da Nóbrega. Também foram usadas contas em nome de dois restaurantes da família do ex-policial e de Raimunda, em período anterior à nomeação dela no gabinete de Flávio.

As investigações sobre a “rachadinha” foram encerradas após o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem em 2021 as provas coletadas.

Flávio sempre rejeitou as acusações, que diz serem parte de um ataque orquestrado para destruir sua reputação. “(Houve) toda essa espuma, todo esse ataque para tentar destruir minha reputação, e nunca teve início um processo criminal contra mim. Sabe quantas ligações financeiras têm com meus assessores? Zero. Sabe quantos assessores disseram que cobrei salário de volta para empregar no meu gabinete? Zero”, afirmou ao podcast Inteligência Ltda em março deste ano.

Exaltação a milícias e organizações criminosas

Jair e Flávio Bolsonaro apoiaram policiais suspeitos de comportamento violento e falaram a favor das milícias, organizações criminosas compostas sobretudo por ex-agentes de segurança.

Em 2018, Jair defendeu esses grupos estabelecendo relação entre a presença deles e a segurança. “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”, afirmou.

Flávio também já minimizou a gravidade das milícias, dizendo que “não raro é constatada” a felicidade dos moradores de comunidades dominadas por milicianos. Em discurso na Alerj em 2007, chamou as milícias de “nova forma de policiamento, entre aspas”.

Jair, além disso, foi preso por integrar uma organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado. Durante seu mandato como presidente, de 2019 a 2022, ele também não se movimentou para classificar como terroristas grupos como o PCC.

Seguranças acusados de participar de quadrilha

Em agosto de 2018, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de participar de uma quadrilha especializada em extorsões. Entre os presos estavam os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, dois policiais militares que, naquele ano, teriam participado da segurança da campanha de Flávio ao Senado. Eles são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL (antigo partido de Bolsonaro) na Alerj e tesoureira do partido no estado.

Na época, o senador eleito negou ao jornal O Estado de S. Paulo que os policiais integrassem sua campanha, enquanto Valdenice disse que os irmãos atuavam como voluntários. Em foto publicada em sua rede social em outubro de 2017, Flávio aparece com Valdenice e os gêmeos. Na legenda, escreveu: “Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!”.

Aliança com Rodrigo Bacellar

O ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) estreitou laços com a família Bolsonaro a partir de 2024, almejando suceder Cláudio Castro (PL) no governo do Rio de Janeiro. Em julho daquele ano, Bacellar se encontrou com Jair, Flávio e Carlos para discutir as eleições municipais e ganhou uma medalha do clã com os dizeres “imorrível, imbroxável e incomível”.

Depois de se tornar potencial candidato da família Bolsonaro no Rio, ele perdeu o mandato e foi preso por suspeita de participar de uma organização criminosa e vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.

Proximidade com Daniel Vorcaro

Áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro mantinha contato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de uma série de crimes envolvendo fraudes do Banco Master, como organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.

O site revelou que Vorcaro combinou o pagamento de R$ 134 milhões para o filme “Dark Horse” (azarão, em tradução livre), sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Depois, Flávio afirmou que o dono do Master pagou cerca de R$ 60 milhões para o longa-metragem e reconheceu ter cobrado parcelas restantes, sob a justificativa de envolver apenas recursos privados, e não públicos. O senador também admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro para, segundo ele, “colocar um ponto final” na relação.

A fraude do Master gerou prejuízo de pelo menos R$ 41 bilhões ao sistema financeiro nacional, afetando também o BRB (Banco de Brasília).

Com informações da Folha de S. Paulo*

 

Avatar de Desconhecido

Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

Deixe um comentário