Milícias de ultra-direita começam a se assanhar com chance de poder.

Vidro do prédio que STF quebrado nos atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023 mostra a estátua A Justiça

Por Leonardo Sakamoto, colunista do UOL.

A invasão da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), no campus de Arapiraca, retratada por Carlos Madeiro, no UOL, é um alerta. Homens desembarcaram de caminhonetes estampadas com imagens de Flávio Bolsonaro dispostos a arrancar, na marra, cartazes eleitorais que os desagradavam afixados por alunos. A universidade solicitou que forças de segurança de Alagoas e federais investiguem o caso e garantam reforço para prevenir violência e intimidação.

A universidade precisa ser um espaço que comporte todos os pontos de vista, garantindo que o debate de ideias flua sem qualquer tipo de violência. Contudo, a questão central aqui vai muito além de uma simples intolerância panfletária: é a tentativa de que esses grupos querem atropelar a Reitoria da universidade e a Justiça, que seriam os foros corretos para uma reclamação formal.

O que eles tentaram fazer tem um nome claro: justiçamento. Ou seja, a partir de uma avaliação estritamente pessoal sobre o que é certo e o que é errado, decidem atropelar as instituições e agir com as próprias mãos. Essa é, estrutural e historicamente, a base de formação das milícias.

A possibilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro, figura identificada como referência na extrema direita e defendida com unhas e dentes por esses extremistas, já atiça os delírios de grupos com comportamentos milicianos. Não que eles não estiveram aí desde sempre, mas com ventos a ser favor, a coisa escala.

Não à toa, neste exato momento, indígenas que vivem em áreas de intensa disputa territorial recebem recados sombrios de que, a partir do ano que vem, em caso de vitória de Flávio, milícias de grileiros, garimpeiros, madeireiros e produtores rurais vão agir de forma livre e desimpedida contra eles. Da mesma forma, milícias do desmatamento já colocam suas asinhas de fora, crentes na impunidade iminente.

A tragédia é que não é necessário que um presidente venha a público, a partir de um púlpito em Brasília, ditar ordens dizendo que seus apoiadores podem cometer crimes. A autorização invisível é dada a partir do momento em que ele próprio demonstra, reiteradas vezes, um profundo desprezo pelas instituições de fiscalização e defende o golpe que o seu pai tentou contra o Estado Democrático de Direito.

O que vemos brotar não é apenas o autoritarismo de gabinete, mas a perigosa Síndrome do Guardinha da Esquina, o cidadão que, sentindo-se empoderado e validado por um discurso político autoritário, decide assumir o papel de policiar, julgar e punir o comportamento alheio por conta própria.

Durante a reunião que definiu o Ato Institucional n.º 5, na ditadura militar, em 1968, o então vice-presidente civil Pedro Aleixo alertou que o maior perigo daquele decreto não vinha do presidente ou dos generais no alto escalão, mas sim do “guarda da esquina”. O alerta significava que o autoritarismo de Estado rapidamente se transforma em violência cotidiana quando o indivíduo na rua interpreta que tem passe livre para cometer abusos, impor sua vontade e oprimir os outros, crente de que o sistema o protegerá.

Esse “guardinha” nem precisa usar farda. Ele é o extremista que se acha no direito de atropelar as vias institucionais, como o grupo que decidiu invadir o campus universitário para remover cartazes em vez de acionar a Justiça, para impor a sua visão de mundo.

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Autor: jornaloexpresso

Carlos Alberto Reis Sampaio é diretor-editor do Jornal "O Expresso", quinzenário que circula no Oeste baiano, principalmente nos municípios de Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério. Tem 43 anos de jornalismo e foi redator e editor nos jornais Zero Hora, Folha da Manhã e Diário do Paraná, bem como repórter free-lancer de revistas da Editora Abril

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