O Rio Grande do Sul comemora o 20 de Setembro, mas ninguém esquece a dor dos Lanceiros Negros.

A Revolução Farroupilha, também conhecida como Guerra dos Farrapos, foi a mais longa revolta civil da história do Brasil, durando 10 anos (de 1835 a 1845). Ela começou na província de São Pedro do Rio Grande do Sul e se estendeu até Santa Catarina, motivada por insatisfações políticas e econômicas contra o governo imperial de Dom Pedro II (durante o período regencial).
As Causas Principais

Altos impostos sobre o charque: O governo imperial cobrava taxas muito altas sobre o charque (carne seca), o couro e o sebo produzidos no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, o charque importado do Uruguai e da Argentina entrava no Brasil com impostos mais baixos, tornando o produto gaúcho pouco competitivo.

Falta de autonomia política: Os líderes gaúchos (estancieiros e chefes militares) queriam maior poder de decisão para a província e a liberdade de escolher seu próprio presidente provincial, cargo que era nomeado diretamente pelo Rio de Janeiro.

 

Em 20 de setembro de 1835, liderados por Bento Gonçalves, os revoltosos (chamados de “farroupilhas” ou “farrapos”) invadiram Porto Alegre e destituíram o presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga.

A Proclamação da República (1836): Após a vitória na Batalha do Seival, o general Antônio de Sousa Neto proclamou a República Rio-Grandense (ou República de Piratini) em 11 de setembro de 1836, oficializando o desejo de separação do Império.

Expansão para Santa Catarina (1839): Sob o comando de David Canabarro e do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, os farrapos tomaram a cidade de Laguna (SC) e fundaram a República Juliana. Foi nessa campanha que Garibaldi conheceu Anita Garibaldi, que se tornou uma das figuras mais célebres do movimento.

A paz de Ponche Verde
O conflito começou a enfraquecer devido ao desgaste econômico e militar dos farrapos. Em 1842, o Império nomeou Luís Alves de Lima e Silva (o Barão de Caxias, mais tarde Duque de Caxias) para comandar o exército imperial.
Caxias adotou uma estratégia mista de sufocamento militar e diplomacia. Em 1º de março de 1845, foi assinado o Tratado de Ponche Verde, que pôs fim à guerra de forma honrosa para os gaúchos.
O que ficou decidido no acordo?

Anistia: Todos os oficiais farroupilhas foram perdoados e integrados ao Exército Imperial Brasileiro com as mesmas patentes.

Proteção econômica: O charque estrangeiro foi taxado em 25% para proteger a produção gaúcha.

Os escravos que lutaram no exército farroupilha (conhecidos como Lanceiros Negros) deveriam ser libertados, embora a história registre que muitos foram devolvidos à escravidão ou dizimados no controverso episódio da Batalha de Porongos. O episódio se tornou a página mais negra da história do Rio Grande, pela traição aqueles que foram o verdadeiro esteio da luta fratricida. 

Quem eram os Lanceiros Negros?

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Os Lanceiros Negros eram corpos de cavalaria formados por escravos negros que foram recrutados pelos farroupilhas.

A promessa de liberdade: Para incentivar a adesão, os líderes farrapos prometeram a alforria a todos os escravos que lutassem na guerra contra o Império.

Tática de elite: Eles se tornaram uma força de choque temida e respeitada. Armados principalmente com lanças compridas e facões, atacavam montados a cavalo com extrema rapidez e coragem, sendo decisivos em várias vitórias republicanas.

Organização: Foram criados dois corpos de Lanceiros Negros (o primeiro em 1836). Eles eram liderados por oficiais brancos, como o general Davi Canabarro.

No final da guerra, em 1844, as negociações de paz entre os farrapos e o Império (representado pelo Barão de Caxias) já estavam avançadas. Havia, porém, um grande impasse político e social: o destino dos escravos que lutaram na revolução.
O Império brasileiro, que era escravocrata, não aceitava que negros que pegaram em armas contra o governo fossem libertados, pois isso poderia inspirar revoltas de escravos em todo o país. Por outro lado, devolvê-los aos seus antigos donos gaúchos geraria uma crise de honra para os líderes farroupilhas.
Foi nesse cenário que aconteceu a Surpresa de Porongos (na região do atual município de Pinheiro Machado).
A Traição Escrita
Documentos históricos comprovam que houve um acordo secreto entre o líder farrapo Davi Canabarro e o chefe das forças imperiais, Barão de Caxias, para desarmar e eliminar os Lanceiros Negros.
Uma carta enviada por Caxias ao coronel imperial Francisco Pedro de Abreu (o “Moringue”) dava instruções claras sobre o ataque. O plano funcionou da seguinte forma:

O desarmamento: Na noite de 14 de novembro de 1844, Davi Canabarro ordenou que os Lanceiros Negros acampassem em uma área separada do restante do exército e confiscou suas armas, alegando que pretendia evitar conflitos ou desobediência.

O ataque surpresa: na madrugada, as tropas imperiais de Moringue atacaram o acampamento dos negros desarmados. Como sabiam exatamente onde e como atacar, o massacre foi inevitável.

O desfecho: Cerca de 100 lanceiros foram mortos e mais de 120 foram capturados e enviados de volta à escravidão no Rio de Janeiro. Davi Canabarro conseguiu fugir do local sem ferimentos, o que aumentou as suspeitas de facilitação.

O Impacto e o Legado Histórico
O episódio de Porongos acelerou o fim da guerra, pois eliminou o maior obstáculo para a assinatura do Tratado de Ponche Verde, que ocorreu poucos meses depois, em março de 1845.

Por muitas décadas, a história oficial da Revolução Farroupilha tentou romantizar o conflito e silenciar a tragédia de Porongos. Hoje, no entanto, os Lanceiros Negros são reconhecidos como verdadeiros heróis nacionais.