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O fim do pesadelo e o elogio à boa política.

02/01/2023

Ao revogar decretos de Bolsonaro, Lula protege o meio ambiente, desarma a população e garante R$ 600

Da newsletter semanal da Agência Pública, assinada por Natália Viana, editora executiva.

Desde que Bolsonaro foi eleito ouvi muitas histórias de pessoas que passaram a sonhar ou a ter pesadelos relacionados à violência ou medo. Isso também apareceu bastante na pandemia. Acredito que para você também.

Comigo aconteceu logo que ele ganhou a eleição, ainda em 2018. Sonhava que, de repente, no meio da noite, soldados do Exército chegavam na minha casa e me arrastavam para fora, me levando presa sem explicações. O pesadelo variava um pouco, algumas circunstâncias aqui e ali, mas era sempre o mesmo lembrete de que o ex-capitão fora eleito com 57 milhões de votos enquanto louvava a ditadura militar que usurpou o poder popular, matou, torturou, violentou e desapareceu com opositores durante 21 anos.

Acredito que, de alguma maneira, esses pesadelos estão ligados ao fato de que a própria eleição de Bolsonaro foi um ato de violência. Foi um manifesto que dizia que uma parcela enorme da população – meus vizinhos, meus tios, meus primos – aceitava a violência política. Isso é o maior pesadelo para uma jornalista. Porque para líderes como Bolsonaro o jornalismo é um tremendo inimigo e a liberdade de imprensa é um de seus principais alvos. Os anos seguintes comprovaram meu temor. Enquanto esteve no poder, Bolsonaro atacou veículos e profissionais diariamente, de maneira grotesca e violenta.

     O dia de hoje marca o fim desse pesadelo. 

Ao subir a rampa do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos permite um novo recomeço. E não é qualquer recomeço: é a volta à política, no sentido mais nobre do termo.

Se o que marcou a ascensão de Bolsonaro foi um rechaço – expresso nas ruas desde 2013 – à política da Nova República, que de fato acumula muitas falhas, muitos erros e muita corrupção, a posse de Lula representa uma resposta da sociedade dizendo que sim, ainda há esperança na democracia. Mas ela tem que conseguir transformar a vida do povo para melhor.

Sem deixar de lado a crítica e a independência que sempre foram a marca do jornalismo da Pública, digo com todas as letras que Lula é um líder excepcional.

Na cobertura da imprensa sobre a campanha eleitoral de 2022, sobraram críticas e considerações comezinhas – do tipo “quem será o ministro da economia?” – e faltaram bons perfis que reapresentassem esse líder ao público brasileiro. Que dessem a real dimensão do que significa um ex-melatúrgico, ex-líder sindical, tornar-se o presidente mais popular da história, e depois ver sua sucessora (e primeira mulher eleita presidente) expulsa do governo como uma bruxa.

Ele mesmo ser encarcerado por 580 dias num processo parcial. E, ainda assim, voltar a ser eleito presidente. O único homem capaz de derrotar uma onda fascista verde-amarelo que conseguiu mobilizar corações e mentes em todo o Brasil.

Um político nato, Lula nunca foi o radical que a imprensa pintou a vida toda. Só quem não sabe o que é passar fome acha que reduzir a desigualdade é coisa de “esquerdista” ou “extremista”. Sua trajetória é marcada por ter sido sempre um negociador e, para o bem ou para o mal, conciliador.

Despontou na política como líder das greves do ABC, entre 1978 e 1980, quando centenas de milhares de trabalhadores das fábricas da grande São Paulo passaram a pedir reajustes salariais reais, uma vez que os índices de inflação eram manipulados pela ditadura militar. Ao cruzarem os braços, desafiavam a Lei de Greves, que proibia paralisações, e desafiavam os militares.

Foram as greves do ABC que forjaram Lula e o seu jeito de fazer política. A voz de Lula passou, desde aquela época do megafone, a ser uma das mais poderosas fontes de mobilização da política brasileira. Fundou o maior partido de esquerda da América Latina. Perdeu três eleições antes de se tornar presidente da República em 2002.

Mas nas eleições de 2018, pela primeira vez desde 1989, Lula ficou fora da disputa. Pior: os ministros do STF o proibiram até mesmo de dar entrevistas da cadeia, como se a própria voz de Lula pudesse contaminar a disputa eleitoral.

Mas a verdade é que, embora estivesse preso e calado, nem mesmo aquelas eleições foram realizadas sem Lula. Na verdade, sua imagem delimitou tanto o campo do seu aliado, Haddad, quanto o do seu opositor, Bolsonaro. Ambos se digladiaram em torno do seu legado – o de ódio e o de adoração. Assim, falar em um “retorno” de Lula soa um pouco ingênuo. Ele nunca saiu. 

“No dia em que ele foi preso, eu fiz um levantamento minuto a minuto desde a hora em que ele entra na cela”, me explicou seu biógrafo, Fernando Morais. “Ele entra dentro da cela num domingo à meia noite, não apaga a luz. Ele tira só o sapato, escova os dentes e desaba na cama. Não chama ninguém de ‘filho da puta’ não reza, não faz oração para Deus. E vai dormir como se fosse um bebê. Por quê? Porque ele achou que em uma semana ele estaria na rua – por razões políticas ou por razões jurídicas”.

“Quando ele vai percebendo que vai ficar ali muito tempo e que pode ser que fique ali dez anos, para um cara de 73 anos, é grave. Ele começa a tirar proveito da prisão. Primeiro transforma metade desta sala num gabinete, um comitê, e começa a aproveitar os horários de visita para despacho político. Depois, começa a ler”.

Fernando lembra que, a cada visita que lhe fazia, via uma nova pilha de livros na cela. Pela legislação brasileira, os presos podem reduzir sua pena se demonstrarem que estão lendo livros: um livro por dia. “Ele recusou e falou: eu saio daqui inocente”, lembra Morais. “Eu não saio daqui porque vou ler um livro”.

Durante 580 dias, Lula esteve preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Recusou diversas ofertas de ir para uma penitenciária; negou, também, ir para a prisão domiciliar. Queria sair com seu nome limpo.  Todos os dias um grupo de dezenas de eleitores se reuniam sob a sua janela para cantar: “bom dia, presidente”.

     Presidente. 

É claro que não veremos uma repetição daquele governo do início dos anos 2000. Se em vinte anos o povo brasileiro mudou, e muito, também mudou Lula. Nos longos dias de cárcere, ele se convenceu de que o Brasil merecia uma nova chance.

Para um homem de 76 anos, essa será a última oportunidade de deixar um legado na história brasileira. “Ele vai ter que escolher se ele vai entrar para a história pela página dos fundos ou se vai entrar pela porta da frente”, resume Fernando Morais. “Se depender da vontade dele, vai ser pela porta da frente. Ele vai ter que transformar esse país num país justo”.

Mesmo quando saiu da prisão, Lula seguiu com a fé inabalável de que a política, tão criminalizada pelos lava-jatistas e pelos bolsonaristas nostálgicos da ditadura militar, é a única solução.

Um episódio revelador foi a aliança, tão certeira, com Geraldo Alckmin. Alckmin, sabemos, ajudou a quebrar parte da resistência dos empresários paulistas que controlam boa parte do PIB brasileiro. A chegada desse ex-adversário surpreendeu muitos petistas, mas não Fernando Haddad, que foi quem propôs a inusitada parceria. Ao final de uma reunião de articulação da campanha, Haddad fechou a porta e disse: “Cara, vou falar com você sobre uma coisa. Se você disser “não”, essa conversa nunca aconteceu. Se você não disser “não”…”

Ele lembra que os olhos de Lula brilharam ao ouvir a ideia: “Haddad, a política é mesmo uma coisa extraordinária”.

Bem-vindo, presidente Lula. Que a política volte a ser uma coisa extraordinária. 

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